Resolução de duas linhas aprovou o estudo; um segundo grupo do MCTI tem até fevereiro de 2027 para dizer metas, prazos e quanto custa o sistema brasileiro.
Debruçado na borda de uma embarcação, um marinheiro americano baixa até a linha d’água um tubo preto com antena na ponta. É o Hammer of the Gods, emissor que nega posição, navegação e tempo a armas inimigas, testado no mar pela primeira vez em meados de julho, no sul da Califórnia, segundo o Exército dos Estados Unidos.
No Brasil, o caminho ainda está no papel. Em 2 de julho, o Comitê de Desenvolvimento do Programa Espacial Brasileiro aprovou o relatório final do grupo que estudou um sistema nacional de posicionamento, navegação e tempo, mas o texto do estudo não aparece no Diário Oficial nem na página do comitê, e o país segue dependente do sinal de satélites estrangeiros.
Um emissor que tira a precisão de mísseis e artilharia
O teste fez parte do Project Convergence Capstone 6, exercício que reúne Exército, Marinha e Força Espacial americanos, com apoio da Space Forces Pacific e da Base Naval de San Diego. O texto oficial, assinado pelo sargento Sar Paw e publicado em 26 de julho, descreve o equipamento como uma plataforma de guerra eletrônica fácil de levar e de baixa assinatura eletromagnética.
A versão terrestre já apareceu em exercícios e demonstrações nos últimos dois anos, e a marítima estreou agora, segundo o Exército. O objetivo declarado é o efeito chamado counter-PNT: atingir a base de posição e tempo que orienta a artilharia de longo alcance, os mísseis guiados e as munições de cruzeiro do adversário.
“Sem dados de PNT, a precisão das armas modernas cai drasticamente”, disse o tenente-coronel Darrin Hall, chefe de modelagem, simulação e integração da Space Forces Pacific. Para ele, o experimento provou que esse tipo de equipamento pode ser lançado, controlado e recolhido em operações reais no mar.
O que os americanos não contaram
O Exército não divulgou alcance, potência, frequências, custo nem fabricante do Hammer of the Gods. Também não disse qual embarcação levou o emissor, quantos aparelhos foram usados ou se a demonstração em terra, prevista no plano original, chegou a acontecer.
A foto oficial do teste, distribuída pelo DVIDS, traz crédito duplo, do sargento Sar Paw e da Força Espacial. O texto lembra que conflitos recentes mostraram a dependência da navegação por satélite e levaram os militares a planejar operações com sinal degradado.
A resolução de duas linhas que aprovou o estudo brasileiro
O grupo técnico brasileiro foi criado pela Resolução CDPEB nº 33, de 1º de julho de 2025, para propor uma estratégia de desenvolvimento tecnológico rumo a um sistema nacional de PNT, sigla em inglês para posicionamento, navegação e tempo. O prazo foi prorrogado em dezembro, pela Resolução nº 36, e o trabalho, coordenado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, reuniu análises de 14 órgãos federais, segundo O Brasilianista.
A Resolução CDPEB nº 41, de 2 de julho de 2026, publicada no Diário Oficial da União no dia seguinte, tem dois artigos. O primeiro diz apenas que “fica aprovado o Relatório Final” do grupo; o segundo põe a resolução em vigor. Assina Marcos Antonio Amaro dos Santos, coordenador do comitê, que funciona no Gabinete de Segurança Institucional da Presidência.
Nenhum anexo acompanha a publicação. A lista de resoluções do comitê no site do GSI registra a de nº 41 com link apenas para a página do Diário Oficial, e a seção de atas para na 13ª reunião, de junho de 2025.
Segundo grupo tem até fevereiro para dizer quanto custa
Cinco dias depois, a Resolução CDPEB nº 44, de 7 de julho, criou um novo grupo técnico, também coordenado pelo MCTI, para elaborar o plano de ação de desenvolvimento e operação do sistema nacional e o modelo de governança. O plano terá de conter metas, prazos, responsabilidades, previsão dos recursos necessários e indicadores de acompanhamento, diz o parágrafo único do artigo 1º.
O prazo é de 180 dias a contar de 10 de agosto de 2026, o que leva a entrega a fevereiro de 2027. O grupo começou com 15 órgãos, entre eles Defesa, Comando da Aeronáutica, Anatel, Inpe e Telebras, e passou a 19 com a Resolução nº 49, de 20 de agosto, que incluiu a Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil, o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, a Advocacia-Geral da União e a estatal Alada.
Até lá, o custo de construir o sistema não está em nenhum documento público. A própria resolução deixa claro que a previsão de recursos ainda será feita, o que retoma a discussão aberta em 2025, quando o governo passou a estudar um GPS próprio para reduzir a dependência dos Estados Unidos.
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Os R$ 540 mil são do estudo, não do satélite
O valor que circula sobre o projeto é outro. Segundo O Brasilianista, que publicou o detalhamento em 13 de outubro, a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial contratou o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos por inexigibilidade de licitação, a de nº 010/2025, para um estudo de viabilidade de um sistema de satélites em órbita baixa.
O contrato soma R$ 540 mil, divididos em R$ 60 mil pelo plano de trabalho, R$ 210 mil pelo levantamento dos sistemas de PNT existentes ou em desenvolvimento no mundo e R$ 270 mil pelo estudo de viabilidade, de acordo com O Brasilianista. O site ressalta que o valor não é o custo de construir o sistema brasileiro e cita uma nota da ABDI que trata o assunto como “reservado”.
No mesmo dia, um grupo para as tempestades solares
A Resolução CDPEB nº 42, assinada no mesmo 2 de julho, abriu uma frente que quase não apareceu no noticiário. Ela cria um grupo coordenado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais para diagnosticar os efeitos das tempestades solares sobre energia, telecomunicações, defesa e aviação civil.
O texto manda também mapear o impacto das irregularidades da ionosfera sobre a precisão dos sistemas globais de navegação por satélite no território brasileiro e propor protocolos de proteção para ativos estratégicos. São 15 órgãos, da Anac ao Operador Nacional do Sistema Elétrico, com 180 dias de trabalho a partir de 3 de agosto, prorrogáveis uma vez.
Quando o bloqueador era do próprio governo
O Brasil já sentiu o problema sem guerra nenhuma. Um relatório de fiscalização da Anatel, concluído em maio de 2022 e revelado pela CNN Brasil, atribuiu a quatro bloqueadores de drones do GSI, modelo SCE 0100 DroneBlocker, a interferência no GPS de cerca de 173 voos, entre pousos e decolagens, no aeroporto de Brasília, de abril de 2021 a março de 2022.
Os aparelhos ficavam no Palácio do Planalto, no Alvorada e no Jaburu, a pelo menos 10 km do aeroporto, segundo a reportagem reproduzida pelo site Minha Operadora em 1º de maio de 2023. A FAB havia comunicado a interferência à Anatel em abril de 2021, e testes em março de 2022 perto da Praça dos Três Poderes mostraram que o problema surgia com os equipamentos ligados e sumia com eles desligados.
Segundo a CNN Brasil, a FAB disse que não houve novos casos depois das correções feitas em 2022. O episódio mostra como o sinal de navegação é frágil mesmo para quem não é alvo.
Um tubo preto no Pacífico e um relatório que ninguém leu
Os Estados Unidos já treinam para negar ao inimigo o mesmo sinal que guia aviões, navios e celulares no Brasil. Aqui, o estudo que deveria dizer como o país deixaria de depender dele foi aprovado em duas linhas no Diário Oficial, e o grupo que vai calcular o custo só entrega o plano em 2027.
Enquanto o relatório de julho não for divulgado, não há como saber o que os 14 órgãos recomendaram para a independência do Brasil por satélite nem quanto o governo estima gastar.
Enquanto tivermos líderes políticos preocupados em prestar continência a bandeira norte-americana, ao invés de investir na indústria nacional, seremos dependentes de tecnologia estrangeira.
Temos que parar de depender dos EUA, desenvolver nossas próprias tecnologias e industrializar o Páis, não da pra ficar sendo cadela de americano. Depender deles é furada. Nos vendem tecnologia de 3 ou 4 gerações atrás, com valor de 1ª geração.