A França começou a fabricar uma peça do primeiro submarino brasileiro de propulsão nuclear, mas continua sem transferir a tecnologia do reator que moverá a embarcação. O corte de uma chapa destinada ao casco resistente do Álvaro Alberto ocorreu em 20 de outubro, na cidade francesa de Cherbourg, e ganhou nova divulgação nesta semana.
A cerimônia mostra até onde chega a parceria: os franceses participam da engenharia naval e da fabricação de estruturas, enquanto o Brasil precisa desenvolver, testar e certificar sozinho a propulsão nuclear. A divisão acompanha o PROSUB desde o acordo firmado em 2008.
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França corta chapa do casco, mas a tecnologia que move o submarino continua fora do pacote
Segundo a CNN Brasil e informações institucionais divulgadas pelo Defesa em Foco, representantes da Marinha acompanharam em Cherbourg o início da fabricação de um componente específico do casco resistente do futuro submarino.
Essa estrutura precisa suportar a pressão da água quando a embarcação mergulha. O trabalho envolve corte, conformação, soldagem e inspeções rigorosas. O anúncio informa apenas o início da fabricação da peça: dimensões, fabricante responsável, custo e data de entrega não foram detalhados.

O avanço é industrial, não nuclear. O reator e os sistemas responsáveis por gerar energia para a propulsão permanecem fora da assistência tecnológica francesa, embora a França já tenha sua própria frota de submarinos movidos por reatores.
Contrato permite ensinar a construir submarinos, mas exclui expressamente o reator nuclear
Na documentação oficial do PROSUB, a Marinha define a transferência tecnológica com uma ressalva direta: “exceto na área nuclear”. O contrato abrange conhecimentos de projeto, construção, equipamentos e treinamento, sem repasse de tecnologia para desenvolver a planta de propulsão.
Desde 2010, mais de 250 engenheiros e técnicos brasileiros receberam capacitação na França, especialmente em Cherbourg. Eles acompanharam processos industriais reais e aprenderam técnicas necessárias para fabricar componentes e projetar estruturas submarinas. O conhecimento sobre o reator, entretanto, precisa sair dos laboratórios brasileiros.
A divisão do contrato já havia sido examinada em reportagem anterior da Revista Sociedade Militar. A cerimônia de Cherbourg acrescenta uma consequência concreta: a fabricação estrangeira avança no casco, enquanto a parte nuclear continua integralmente brasileira.
Naval Group mantém direitos sobre submarinos convencionais e novas unidades exigem autorização
Há outro detalhe pouco confortável para quem observa a autonomia industrial do Brasil. A Marinha esclarece que a Naval Group é autoridade de projeto dos submarinos convencionais construídos no PROSUB. Caso o Brasil queira produzir novas unidades desse projeto, deverá obter autorização e pagar royalties à empresa francesa.
A situação é diferente no Álvaro Alberto: a propriedade intelectual do submarino de propulsão nuclear é brasileira, e a Marinha exerce a autoridade de projeto. A companhia francesa atua como consultora técnica na parte naval, enquanto o país assume a engenharia nuclear.
Brasil já cortou chapas em Itaguaí e agora recebe nova etapa industrial iniciada na França
O corte de Cherbourg não foi o primeiro relacionado ao submarino. Em 2023, o Brasil iniciou a seção de qualificação no Rio de Janeiro. Em junho de 2024, a Marinha anunciou outro corte de chapa para a Seção C Preliminar, na Unidade de Fabricação de Estruturas Metálicas de Itaguaí.
O comunicado da Marinha descreveu a Seção C como a região destinada à geração da energia propulsiva. A fabricação dessa estrutura exige controle dimensional e de qualidade, pois será integrada aos sistemas de bordo de um submarino de alta complexidade.
A nova peça produzida na França se soma a essas etapas brasileiras. O desafio será integrar componentes preparados em diferentes instalações ao projeto conduzido pela Marinha, sem confundir o avanço da construção do casco com a conclusão do sistema de propulsão.
Reator brasileiro terá de passar por testes em terra antes de entrar no Álvaro Alberto
Em Iperó, no interior de São Paulo, o Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica, o LABGENE, prepara o protótipo terrestre da planta nuclear naval. A unidade permitirá testar o funcionamento integrado do reator, de seus controles e dos equipamentos associados antes de instalar um sistema equivalente no submarino.
O licenciamento nuclear naval avança por fases. A autoridade reguladora da Marinha analisa documentação, requisitos de segurança e autorizações específicas para a construção e, posteriormente, a operação da embarcação.
O planejamento divulgado à CNN aponta 2035 como previsão de entrega. Essa meta dependerá da fabricação das estruturas, da integração industrial em Itaguaí e dos resultados dos testes nucleares realizados sob responsabilidade brasileira.
Fabricação francesa avança enquanto decisão sobre a propulsão continua nas mãos do Brasil
O próximo indicador concreto será a conclusão e a qualificação do componente iniciado em Cherbourg, seguida de sua integração às etapas industriais brasileiras. O anúncio de outubro não estabeleceu um prazo público para a entrega da peça.
O Brasil terá de conciliar duas frentes que caminham em velocidades próprias: a construção naval apoiada por tecnologia francesa e o desenvolvimento nacional da planta nuclear. A continuidade do projeto depende menos de novas cerimônias de corte de aço e mais da capacidade de integrar, testar e licenciar esses sistemas com segurança.
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