Uma expedição francesa com 130 soldados chegou à Vila do Espírito Santo do Amapá em 15 de maio de 1895 para prender uma liderança brasileira. O capitão Lunier, comandante da missão, morreu durante um confronto com Francisco Xavier da Veiga Cabral, conhecido como Cabralzinho. A tropa atacou moradores e incendiou casas depois que os defensores recuaram.
O episódio, ocorrido no atual estado do Amapá, deixou 38 brasileiros e seis franceses mortos, segundo uma reconstituição histórica apresentada no Senado Federal. A disputa pela região era anterior ao confronto e envolvia uma extensa área de fronteira reivindicada pelo Brasil e pela França.
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A descoberta de ouro transformou a fronteira em território disputado
A crise começou muito antes da chegada dos soldados. O Tratado de Utrecht, de 1713, definira uma divisa entre possessões portuguesas e francesas, mas os dois lados discordavam sobre qual rio correspondia ao limite estabelecido. Os brasileiros sustentavam que era o Oiapoque; os franceses defendiam uma interpretação que deslocava a fronteira para o sul, até o Araguari.
A descoberta de ouro na região de Calçoene, em 1894, aumentou a presença de garimpeiros e acirrou a disputa pelo controle do território. Em dezembro daquele ano, moradores organizaram um governo local conhecido como Triunvirato, formado por Cabralzinho, o cônego Domingos Maltez e Desidério Antônio Coelho.
Prisão de aliado dos franceses levou Caiena a enviar uma expedição armada
O conflito ganhou um novo elemento com Trajano Benitez, aliado das autoridades francesas na região do Cunani. Ele entrou em choque com a junta local e acabou preso por determinação de Cabralzinho. O histórico oficial da Prefeitura de Amapá relata que Trajano também sofreu castigos físicos durante a prisão.
O governador francês de Caiena, Charvein, ordenou uma missão para libertá-lo. A mesma fonte municipal atribui ao capitão Lunier o comando de 130 soldados, enviados para resgatar Trajano, capturar Cabralzinho e levá-lo à capital da colônia francesa. A vila era então um dos principais centros habitados da região contestada.
Capitão Lunier morreu durante luta com Cabralzinho e começou o tiroteio
Em 15 de maio de 1895, a força francesa chegou à Vila do Espírito Santo. Um estudo histórico do Museu de Astronomia e Ciências Afins identifica o navio francês Bengali como a embarcação que fundeou diante da localidade. O objetivo era prender o líder da comunidade e libertar os homens detidos.
Quando Lunier tentou capturar Cabralzinho, houve uma luta corporal. Segundo o relato apresentado à Comissão de Educação do Senado, o brasileiro tomou o revólver do oficial e disparou contra ele. Lunier morreu, e soldados franceses e defensores locais passaram a trocar tiros.

Os brasileiros contavam com armamento limitado e ficaram sem munição. Cabralzinho e parte de seus companheiros se retiraram para a floresta, enquanto os militares franceses permaneceram na vila. A resistência era organizada por lideranças locais e moradores armados, e não por uma grande unidade regular do Exército brasileiro.
Jornal da época registrou 21 casas incendiadas e moradores mortos após o combate
O pior episódio veio depois do recuo dos defensores. Soldados franceses atacaram residências, provocaram incêndios e mataram moradores que não participavam da luta. O relato oficial do município registra mortes de mulheres, crianças e idosos, além de saques e destruição.
Uma reportagem da Gazeta da Tarde, de 17 de julho de 1895, preservada pela Biblioteca Nacional, trouxe uma contagem particularmente detalhada: 35 pessoas assassinadas depois do combate, 12 feridas, três presas, 21 casas incendiadas e outras 16 seriamente danificadas. O jornal mencionou ainda cinco brasileiros mortos durante a troca de tiros.
Esses números pertencem ao relato jornalístico produzido naquele ano. A soma e a classificação das vítimas variam entre registros históricos, mas as fontes concordam sobre o ataque a moradores e a destruição de casas depois da retirada dos combatentes brasileiros.
Senado registra 38 brasileiros e seis franceses mortos na tragédia
Mais de um século depois, uma exposição histórica durante reunião do Senado, em setembro de 2021, registrou 38 brasileiros mortos e seis militares franceses. O episódio passou a ser conhecido como a Tragédia da Vila Amapá, ou Massacre do Amapá.
O total difere da contagem divulgada pela Gazeta da Tarde em 1895. A reportagem antiga separava os mortos durante a luta dos assassinados posteriormente, enquanto o relato parlamentar apresentava um balanço consolidado. As divergências impedem que os números sejam somados como se descrevessem grupos inteiramente distintos.
O massacre provocou reações no Pará e no Rio de Janeiro. Deputados cobraram providências, e o caso virou um problema diplomático entre o Brasil e a França, que já discutiam havia décadas os limites do território ao norte do rio Araguari.
Brasil e França levaram a disputa à Suíça, e o Oiapoque virou fronteira
Em 1897, os dois países assinaram um tratado de arbitramento para solucionar a Questão do Amapá. A defesa brasileira ficou sob responsabilidade de José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco, que reuniu documentos e mapas para sustentar a posição nacional.
O presidente suíço Walter Hauser divulgou o chamado Laudo Suíço em 1º de dezembro de 1900. A decisão reconheceu o rio Oiapoque como limite entre o Brasil e a possessão francesa, encerrando oficialmente a disputa territorial. A definição diplomática ocorreu cinco anos depois da tragédia.

O confronto de 1895 não decidiu sozinho a posse da região. A arbitragem examinou argumentos históricos, tratados e cartografia; a decisão preservou para o Brasil a área reivindicada ao sul da fronteira reconhecida.
Cabralzinho virou símbolo da resistência no Amapá
Nascido em Belém, em 1861, Francisco Xavier da Veiga Cabral tornou-se um personagem central da memória amapaense. Sua liderança no confronto foi celebrada no país, e um relato no Senado registra que recebeu o título de general honorário do Exército Brasileiro. Em Macapá, seu nome e sua figura permanecem em monumentos e espaços públicos.
O episódio também aparece em debates sobre a história das disputas entre Brasil e França, embora a fronteira fixada em 1900 permaneça reconhecida. Na Vila do Amapá, as mortes e as casas queimadas ficaram como a face mais dura de uma disputa que acabou resolvida pela diplomacia.
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