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Após ameaças de envenenamento contra indígenas em Mato Grosso do Sul, governo Lula anuncia estratégia de segurança por decreto enquanto projeto para ampliar atuação das Forças Armadas está parado há mais de 3 anos no Senado

Ameaças à vida, disputas por terras e milícias ligadas a interesses do agronegócio expõem a violência contra comunidades tradicionais.

Miguel Ángel Scovenna Rivero y Hornos
Por Miguel Ángel Scovenna Rivero y Hornos Atualizado em 02/11/2026 às 21:04·publicado em 02/11/2026
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Após ameaças de envenenamento contra indígenas em Mato Grosso do Sul, governo Lula anuncia estratégia de segurança por decreto enquanto projeto para ampliar atuação das Forças Armadas está parado há mais de 3 anos no Senado
Ministro Eloy Terena durante coletiva sobre a proteção de comunidades indígenas em Mato Grosso do Sul. Foto: Rony Eloy / Governo Federal.

O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, anunciou nesta segunda-feira (2), em entrevista ao programa Bom Dia MS, uma nova iniciativa do governo Lula para proteger comunidades ameaçadas em diferentes regiões do Brasil. A proposta poderá criar uma estratégia nacional de segurança pública por decreto presidencial, enquanto uma mudança nas atribuições das Forças Armadas permanece travada no Senado há mais de três anos.

A intenção é estabelecer uma resposta permanente, capaz de enfrentar ameaças que hoje exigem operações emergenciais. Mas o anúncio levanta uma questão: até onde o governo poderá avançar por decreto sem alterar as competências militares previstas em lei?

Em entrevista divulgada pelo Primeira Página, o ministro explicou que o plano está em elaboração desde 2023 e deverá ser apresentado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Ameaças de envenenamento levam governo a mobilizar 145 agentes federais

Agentes da Força Nacional e da Polícia Federal participam de atividade com representantes indígenas em uma comunidade tradicional.
Agentes da Força Nacional e da Polícia Federal durante atividade de segurança e diálogo com representantes indígenas. Foto: Divulgação / Funai.

O episódio mais recente ocorreu em Tacuru, Mato Grosso do Sul, onde áudios divulgados após as eleições sugeriam envenenar a água consumida por indígenas da Aldeia Sassoró.

Dois servidores municipais reconheceram ter gravado as mensagens e foram afastados das funções. A Polícia Federal investiga o caso. Não há confirmação de que a água tenha sido contaminada.

Diante das ameaças, o governo federal mobilizou 145 agentes da Força Nacional para reforçar a proteção das comunidades indígenas. A operação também envolve outros órgãos federais e autoridades estaduais.

O ministro Eloy Terena, indígena e jurista que assumiu o comando da pasta em abril de 2026, defende uma atuação conjunta de ministérios, estados e municípios. O objetivo é adaptar a proteção às ameaças enfrentadas em cada território.

Na Amazônia, por exemplo, comunidades convivem com conflitos ligados ao garimpo ilegal. Já nas regiões de fronteira, a presença de organizações criminosas amplia os desafios de segurança.

O governo ainda não apresentou o texto definitivo nem estabeleceu uma data para o decreto. Em Mato Grosso do Sul, a Força Nacional permanecerá por tempo indeterminado.

Projeto para ampliar atuação das Forças Armadas está parado desde 2023

Enquanto o Executivo prepara a estratégia, o Senado mantém pendente uma proposta que ampliaria expressamente as atribuições militares na proteção dos povos indígenas.

O Projeto de Lei Complementar 117/2022 pretende permitir que Exército, Marinha e Força Aérea Brasileira (FAB) atuem, em caráter subsidiário, na prevenção e repressão de crimes contra direitos coletivos dessas comunidades.

A iniciativa surgiu após os assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, em 2022.

Desde 10 de agosto de 2023, o projeto permanece sob a relatoria do senador e general da reserva Hamilton Mourão, na Comissão de Segurança Pública, sem novos avanços legislativos registrados.

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Senador Hamilton Mourão durante reunião da Comissão de Segurança Pública do Senado Federal, onde atua como relator de projeto sobre as Forças Armadas.
Senador Hamilton Mourão, relator do projeto que prevê ampliar a atuação das Forças Armadas na proteção dos povos indígenas, durante reunião no Senado. Foto: Agência Senado.

A diferença entre os dois caminhos é fundamental.

O decreto poderá organizar a atuação de órgãos públicos dentro de suas competências atuais. Já o projeto do Senado pretende alterar a legislação para ampliar expressamente as atribuições das Forças Armadas.

Portanto, a estratégia anunciada pelo governo não concede automaticamente novos poderes militares nem substitui a aprovação de uma lei complementar.

Milícias, agronegócio e fronteiras expõem dimensão da violência territorial

A disputa pelo controle de terras também aparece em investigações sobre organizações armadas e interesses econômicos.

No oeste da Bahia, uma operação revelou a atuação de uma milícia de estrutura paramilitar investigada por intimidar moradores e expulsar famílias de comunidades tradicionais.

O caso levou à prisão de um tenente-coronel da Polícia Militar suspeito de ligação com a organização, que movimentou quase R$ 30 milhões.

Investigadores também identificaram repasses de empresários ligados ao agronegócio ao suspeito de comandar o grupo. Os pagamentos estão sob apuração e não comprovam, isoladamente, participação em crimes.

Não há ligação investigativa conhecida entre essa milícia e as ameaças aos indígenas de Mato Grosso do Sul. Os episódios, porém, ilustram diferentes manifestações da violência em disputas territoriais.

O desafio também envolve áreas estratégicas para a segurança nacional.

Segundo levantamento do Ministério da Justiça, 61% das terras indígenas classificadas com alta vulnerabilidade estão localizadas na faixa de fronteira, onde o isolamento geográfico e as atividades criminosas dificultam a proteção territorial.

O diagnóstico integra o programa Território Seguro, Amazônia Soberana, lançado em maio de 2026, com R$ 209 milhões previstos para ações de segurança. O programa é distinto da estratégia anunciada nesta segunda-feira.

A proposta de Eloy Terena poderá ampliar a coordenação nacional da segurança pública. Entretanto, a possibilidade de atribuir novas competências às Forças Armadas continua dependendo de uma decisão do Congresso, onde o projeto permanece sob relatoria de Hamilton Mourão desde 2023.

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