A Marinha do Brasil firmou um acordo de cinco anos para participar de respostas a emergências radiológicas em todo o país, incluindo roubos de materiais radioativos, acidentes e contaminação de pessoas ou do meio ambiente. A parceria com a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) foi formalizada em 29 de outubro e prevê militares especializados em operações de isolamento e descontaminação.
O anúncio ocorreu semanas depois de um veículo que transportava actínio-225, substância usada em tratamentos contra o câncer, ser roubado na região de São Paulo. A carga foi encontrada intacta em 5 de outubro, mas sua busca mobilizou autoridades policiais e técnicos de segurança nuclear.
Marinha poderá isolar áreas contaminadas em emergências radiológicas
O acordo de cooperação técnica anunciado pela ANSN divide responsabilidades entre as duas instituições. A autoridade nuclear coordenará a avaliação dos riscos e a orientação das medidas de proteção no âmbito civil. Os Fuzileiros Navais entrarão com pessoal treinado, recursos operacionais e ações de campo.
As equipes militares poderão apoiar o isolamento de áreas, a contenção da contaminação e os trabalhos de descontaminação. A mobilização dependerá das características de cada ocorrência e das competências dos órgãos responsáveis, em articulação com as autoridades civis.
O instrumento reúne quatro frentes de atuação: capacitação, planejamento, resposta operacional e apoio técnico para avaliação radiológica. Inclui treinamento, troca de informações, preparação de procedimentos e acompanhamento das ações de recuperação após um incidente.
O documento foi assinado por Alessandro Facure, diretor-presidente da ANSN, e pelo contra-almirante Roberto Lemos, comandante de Proteção e Defesa Nuclear, Biológica, Química e Radiológica da Marinha. O comandante-geral do Corpo de Fuzileiros Navais, almirante Carlos Chagas, também participou do encontro.
Carga com actínio-225 foi encontrada intacta em terreno baldio de São Paulo
No início de outubro, o roubo de um furgão que transportava material destinado à medicina nuclear provocou um alerta das autoridades. O veículo levava actínio-225, radionuclídeo empregado em terapias direcionadas contra determinados tipos de câncer, inclusive em tratamentos estudados para tumores de próstata.

A ANSN confirmou a recuperação do volume na noite de 5 de outubro, em um terreno baldio no bairro São Rafael, na zona leste da capital paulista. A embalagem permanecia fechada, sem sinais de violação, e a autoridade não identificou indícios de perda de contenção da substância.
O material havia sido acondicionado para transporte médico e correspondia a uma pequena quantidade destinada a aplicação terapêutica. Segundo a avaliação oficial, a embalagem íntegra e as características do actínio-225 fizeram com que o episódio apresentasse baixo risco radiológico para a população.
A orientação divulgada durante as buscas era manter distância, não abrir o recipiente e comunicar imediatamente a localização às autoridades. O contato direto com materiais radioativos fora dos procedimentos de proteção pode provocar exposição desnecessária, mesmo quando a carga apresenta baixo risco nas condições de transporte.
Marinha capacitou 44 militares e mantém batalhões especializados
A Marinha já possui unidades destinadas à defesa nuclear, biológica, química e radiológica, conhecida pela sigla NBQR. O preparo vai além da atuação em navios: também envolve monitoramento, equipamentos de proteção e capacidade de apoiar respostas a incidentes em terra.
Em abril de 2026, o Centro de Instrução Almirante Sylvio de Camargo concluiu um curso de especialização com 44 militares, incluindo integrantes de organizações da Marinha e um oficial do Exército. As aulas abordaram riscos radiológicos, proteção individual e coletiva e procedimentos operacionais.
Em julho, outra turma começou a ser preparada no 3º Batalhão de Proteção e Defesa NBQR, em Brasília. O treinamento compreendeu identificação de ameaças, monitoramento, coleta de amostras, descontaminação e gerenciamento de incidentes, de acordo com informações publicadas pela própria Força.
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Fuzileiros poderão chegar por rios a localidades de difícil acesso
Durante a assinatura, o almirante Carlos Chagas destacou a dimensão do território brasileiro e a necessidade de alcançar regiões com acesso terrestre limitado. A capacidade anfíbia dos Fuzileiros Navais permite transportar pessoal e equipamentos por vias marítimas e fluviais, recurso considerado importante para deslocamentos em áreas remotas.
O apoio pode ser necessário tanto em áreas urbanas quanto em regiões afastadas dos grandes centros, dependendo do local do incidente. Antes de qualquer operação, técnicos precisam identificar o tipo de fonte radioativa, avaliar a exposição e orientar as medidas de segurança para os trabalhadores e a população.
Próximos passos incluem protocolo de acionamento e plano de resposta
A cooperação ainda terá etapas de implementação. ANSN e Marinha deverão elaborar um Protocolo de Acionamento Operacional e uma proposta de Plano de Resposta a Emergências Radiológicas, além de promover treinamento continuado e avaliações periódicas dos procedimentos.
Outro objetivo é melhorar a circulação de informações entre especialistas, autoridades e equipes enviadas ao local. Em ocorrências com suspeita de contaminação, a definição dos responsáveis por medições, isolamento e orientação ao público influencia a segurança da operação.
O acordo tem vigência prevista de cinco anos e amplia a coordenação entre o conhecimento técnico da autoridade nuclear e a estrutura operacional dos Fuzileiros Navais. Os primeiros resultados dependerão da criação dos protocolos e da preparação das equipes para acionamentos reais.