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FAB queria reduzir dependência de tecnologia estrangeira e ajudou a criar as condições para o surgimento de empresa brasileira que hoje desenvolve sistemas de controle aéreo exportados para outros países

Software brasileiro criado a partir da busca da FAB por autonomia ajuda a gerenciar o tráfego aéreo. Conheça a Atech, do grupo Embraer, e seus sistemas no Brasil, na Índia, África do Sul, Paraguai e Venezuela.

Noel Budeguer
Por Noel Budeguer 11/10/2026 às 17:37
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FAB queria reduzir dependência de tecnologia estrangeira e ajudou a criar as condições para o surgimento de empresa brasileira que hoje desenvolve sistemas de controle aéreo exportados para outros países
Controladores de tráfego aéreo operam estações de rastreamento no APP-Rio, em registro de 2016. Foto: DECEA/SRPV-SP.

A Força Aérea Brasileira (FAB) ajudou a criar as condições para o nascimento de uma empresa que hoje desenvolve tecnologia de controle aéreo utilizada no país e em outras regiões do mundo. A Atech, integrante do grupo Embraer, fornece sistemas que processam planos de voo, antecipam gargalos e permitem acompanhar aeronaves em tempo real.

A história tem uma contradição: o Brasil, que dependia de fornecedores estrangeiros para atualizar programas de vigilância do espaço aéreo, passou a exportar soluções dessa mesma área para países como Índia, África do Sul, Paraguai e Venezuela. A evolução reúne décadas de conhecimento acumulado, projetos da Aeronáutica e contratos de tecnologia crítica.

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O funcionamento dessas soluções foi detalhado em reportagem publicada pelo UOL em 11 de outubro. Documentos do DECEA, informações da Embraer e contratos internacionais ajudam a compreender a dimensão militar e tecnológica do trabalho.

FAB dependia de fornecedores estrangeiros e buscou formar especialistas brasileiros

Na década de 1970, o controle do espaço aéreo brasileiro utilizava programas contratados de empresas estrangeiras. As dificuldades para corrigir, atualizar e modificar esses sistemas revelavam um problema estratégico: sem domínio do software, a FAB dependia das decisões de terceiros para modernizar uma estrutura essencial ao país.

Nos anos 1980, profissionais brasileiros participaram de projetos conjuntos e processos de transferência de tecnologia. A experiência foi decisiva para formar uma equipe capaz de desenvolver novas ferramentas de controle e vigilância, segundo a história relatada pela própria companhia.

A Atech nasceu em 1997, com profissionais ligados a esses sistemas e ao projeto Sivam, de vigilância da Amazônia. A Embraer adquiriu participação no negócio em 2011 e concluiu a compra em 2013, mantendo a marca da subsidiária.

Sigma recebe planos de voo e permite prever congestionamentos antes da decolagem

Antes de um avião sair do solo, pilotos e companhias apresentam um plano com destino, rota, horário e outras informações operacionais. O Sigma, desenvolvido pela Atech, processa esses dados e compara a demanda prevista com a capacidade de aeroportos, rotas e setores do espaço aéreo.

Quando muitos voos pretendem usar um mesmo trecho ou aeroporto em determinado horário, o gerenciamento de fluxo permite organizar a programação e aplicar medidas para reduzir atrasos. Também recebe dados de planos repetitivos, utilizados por empresas que operam rotas regulares.

O FPL-BR simplifica a entrega eletrônica dos planos. Segundo Marcos Resende, vice-presidente de negócios de gerenciamento de tráfego aéreo da Atech, pilotos passaram a transmitir pela internet informações que antes dependiam de contato telefônico ou formulários apresentados presencialmente.

Oficiais da FAB acompanham dados meteorológicos em grande painel eletrônico na Sala Master do gerenciamento aéreo.
Militares acompanham informações meteorológicas na Sala Master do Centro de Gerenciamento da Navegação Aérea em 2016. Foto: 2S Rocha/III COMAR – DECEA.

Sagitário integra radares e meteorologia nas telas dos controladores da FAB

Após a decolagem, a aeronave pode ser acompanhada por órgãos de controle de aproximação, os APP, e, durante o percurso, por centros de controle de área, os ACC. O Sagitário reúne dados de vigilância, planos de voo e informações meteorológicas em interfaces utilizadas pelos controladores.

A posição dos aviões aparece junto a alertas e outros dados que ajudam a perceber conflitos e possíveis desvios necessários diante de tempestades. É uma ferramenta de apoio a decisões tomadas por profissionais de controle de tráfego aéreo, não um sistema que pilota aeronaves de forma autônoma.

Em janeiro de 2021, o Centro de Controle de Área de Brasília passou por modernização do Sagitário, com novos equipamentos e testes de aceitação acompanhados pela Comissão de Implantação do Sistema de Controle do Espaço Aéreo.

Dois militares da FAB conversam diante de consoles e mapa digital com rotas de aeronaves no CGNA.
Oficiais da FAB acompanham telas de tráfego aéreo e consoles de gerenciamento no centro de controle, em 2016. Foto: 2S Rocha/III COMAR – DECEA.

Embraer aponta 22 milhões de km² de cobertura e 1,6 milhão de movimentos aéreos por ano

Na apresentação de seu portfólio de controle de tráfego, a Embraer informa alcance de 22 milhões de quilômetros quadrados para a área atendida pelas soluções, com aproximadamente 1,6 milhão de movimentos aéreos anuais.

A fabricante cita cinco centros de controle de área, 25 controles de aproximação e um centro de gerenciamento de fluxo que utilizam suas tecnologias no Brasil. Já a reportagem do UOL registra cinco ACC e 42 APP existentes no país. Os números não são contraditórios: nem todas essas unidades usam softwares da Atech.

O DECEA, órgão da FAB, coordena o uso de infraestrutura nacional que atende aeronaves civis e militares. A integração dos dados é fundamental para que centros diferentes acompanhem o mesmo voo conforme ele percorre o espaço aéreo brasileiro.

Paraguai e Venezuela utilizam Sagitário; a Índia adotou solução para gestão de fluxo

A expansão estrangeira não se limita a equipamentos vendidos para companhias aéreas. A Embraer identifica sistemas Sagitário no Paraguai e na Venezuela para apoiar o controle de aeronaves em rota e em aproximação.

Na Índia, a plataforma Skyflow se concentra no gerenciamento do fluxo: ajuda a organizar demanda e capacidade, conectando-se a sistemas que já existem no país. Cada operação precisa ser adaptada à estrutura, às regras e às fontes de informação do cliente.

O fato de países estrangeiros adotarem tecnologia desenvolvida por uma empresa brasileira é especialmente relevante em um setor no qual segurança operacional, manutenção e domínio dos programas exigem desenvolvimento especializado e contratos de longo prazo.

África do Sul contratou modernização do tráfego de Joanesburgo com entrega prevista para 2027

Em setembro de 2025, a Atech assinou acordo com a estatal Air Traffic and Navigation Services (ATNS), da África do Sul, para modernizar o gerenciamento de fluxo no Aeroporto Internacional O.R. Tambo, em Joanesburgo. O projeto prevê simulações, ambiente de treinamento e um centro de contingência.

Segundo os detalhes do contrato divulgados à época, o sistema deverá contribuir para organizar a operação de um país com cerca de 283 mil voos anuais, inclusive diante de situações de saturação e necessidade de reorganizar horários.

A previsão anunciada para concluir o projeto foi o terceiro trimestre de 2027. O compromisso inclui mecanismos de continuidade de serviço, necessários a operações nas quais interrupções tecnológicas podem afetar milhares de passageiros e tripulações.

Desenvolvimento também alcança programas da Marinha e novos contratos com o DECEA

A atuação da Atech ultrapassa o tráfego aéreo. No setor militar brasileiro, a empresa participa de projetos das fragatas da Classe Tamandaré, do sistema DACOM, de defesa e circulação operacional militar, e de iniciativas associadas ao LABGENE, programa tecnológico nuclear da Marinha.

Em informações financeiras referentes a 2025, a Embraer também relatou a assinatura de quatro novos contratos da Atech com o DECEA para desenvolvimento e modernização de sistemas de controle aéreo.

A companhia continua, assim, trabalhando em atualizações nacionais enquanto busca clientes internacionais. A história começou com a necessidade de reduzir a dependência externa e chegou a sistemas instalados além das fronteiras brasileiras.

Você considera que o Brasil deveria investir mais em tecnologia própria para a FAB e a defesa nacional? Deixe sua opinião nos comentários e compartilhe a reportagem.

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