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O Brasil comandou quase dez anos a única força naval de paz que a ONU já montou, deu ordens a navios de cinco outros países e fiscalizou mais de 71 mil embarcações no Líbano sem que nenhum deles deixasse de responder ao próprio país

O Brasil comandou quase dez anos a única força naval de paz que a ONU já montou, deu ordens a navios de cinco outros países e fiscalizou mais de 71 mil embarcações no Líbano sem que nenhum deles deixasse de responder ao próprio país
As fragatas Liberal (F43) e União (F45) no Mediterrâneo oriental durante a missão da UNIFIL: a marcação UN no casco identifica o navio cedido à força das Nações Unidas, enquanto a bandeira no mastro continua sendo a do país de origem. Foto: Marinha do Brasil (CC BY-SA 2.0).
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A Força-Tarefa Marítima da UNIFIL é o primeiro e único componente naval de uma missão de paz das Nações Unidas, e o Brasil foi o primeiro país de fora da OTAN a assumir aquele comando, em fevereiro de 2011.

Um contra-almirante brasileiro passou quase dez anos dando ordens a navios de guerra da Alemanha, da Turquia, da Grécia, de Bangladesh e da Indonésia.

Em nenhum momento aqueles navios deixaram de pertencer aos seus países, e em nenhum momento a tripulação deles passou a responder ao Brasil por indisciplina, promoção ou pagamento.

As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e é essa separação que sustenta qualquer força multinacional.

A Força-Tarefa Marítima da Força Interina das Nações Unidas no Líbano, conhecida pela sigla UNIFIL, é o primeiro e único componente naval que a ONU já colocou numa missão de paz.

Antes disso o país já havia mandado tropa para o Canal de Suez, mas nunca havia comandado uma força naval de outras nações.

O Brasil assumiu o comando dela em fevereiro de 2011 e só entregou em janeiro de 2021.

A única força naval que a ONU já colocou no mar

A Força-Tarefa Marítima nasceu em outubro de 2006, logo depois da guerra travada no Líbano naquele ano, no âmbito da Resolução 1701 do Conselho de Segurança.

A missão dela é auxiliar a Marinha libanesa a impedir o contrabando por mar, com atenção especial à entrada de armamento.

Não é patrulha simbólica.

A força aborda, identifica e questiona embarcações, e indica às autoridades do Líbano aquelas que precisam de inspeção mais detalhada em porto.

A parte final do trabalho é sempre libanesa, porque a soberania sobre os portos não foi transferida a ninguém.

O que significa comandar uma força que não é sua

Quando um país coloca um navio numa força multinacional, ele não entrega o navio.

Ele entrega o emprego do navio, por um prazo, para uma finalidade escrita no mandato.

A doutrina brasileira tem nome para esse movimento.

O Glossário das Forças Armadas, publicação MD35-G-01 do Ministério da Defesa, chama de adjudicação a transferência de comando ou de controle operacional de meios de uma Força para um comando combinado, feita conforme a necessidade identificada no planejamento.

O efeito prático é uma linha divisória.

De um lado fica o que o comandante da força pode determinar.

Do outro fica o que continua sendo assunto interno de cada país.

O que o almirante brasileiro podia determinar

Do lado operacional, a autoridade era ampla e imediata.

O comandante da força define em que setor cada navio patrulha, por quanto tempo, com que estado de prontidão e sob quais regras de emprego da missão.

Ele determina qual navio se aproxima de uma embarcação suspeita e qual permanece em cobertura.

Determina também quando o contato deixa de ser tarefa da força e passa a ser tarefa da Marinha do Líbano.

É uma autoridade sobre a tarefa, não sobre a tropa.

O que continuava com o país do navio

Disciplina, punição, promoção, pagamento, manutenção do casco e escala de folga da tripulação nunca saíram das mãos de origem.

Se um marinheiro turco cometesse falta a bordo, quem apurava e quem punia era a Turquia, com a lei turca.

O comandante da força pode informar, pode registrar e pode devolver o meio ao país que o cedeu.

O que ele não faz é abrir processo disciplinar contra militar estrangeiro.

Essa é a razão de a bandeira do mastro não mudar quando o navio entra numa força da ONU.

A antiguidade não resolve sozinha numa força multinacional

Dentro das Forças Armadas brasileiras existe uma régua conhecida para decidir quem comanda uma operação conjunta, e ela olha para a antiguidade entre postos equivalentes.

Numa força multinacional essa régua não basta.

O comando não sai da data de promoção do oficial mais antigo presente, e sim do acordo político que criou a força e do mandato das Nações Unidas.

Por isso o país que comanda pode ter, naquele momento, um oficial mais moderno do que o comandante de um dos navios subordinados.

A posição vem do arranjo entre governos, não do almanaque.

Os números de quase dez anos de comando

A Marinha do Brasil empregou mais de 3.600 militares na Força-Tarefa Marítima ao longo do período.

A força fiscalizou mais de 71.200 embarcações e indicou cerca de 14.100 delas às autoridades libanesas para inspeção.

Onze oficiais-generais brasileiros ocuparam o comando, em rodízios de aproximadamente um ano cada.

O primeiro foi o contra-almirante Luiz Henrique Caroli, que assumiu em fevereiro de 2011.

O Brasil foi o primeiro país de fora da Organização do Tratado do Atlântico Norte a liderar aquela força.

As fragatas que serviram de capitânia

O navio capitânia é onde o comandante da força embarca com seu estado-maior, e ele foi quase sempre brasileiro.

Passaram por essa função as fragatas Liberal, União, Constituição e Independência, além da corveta Barroso.

Cada rodízio levava cerca de 200 militares só no navio capitânia.

A esses somavam-se oficiais brasileiros no estado-maior da própria força-tarefa e no quartel-general da UNIFIL, em terra.

Aquelas fragatas pertencem à geração anterior do poder naval brasileiro, construída entre os anos 1970 e 1990, e vinham de um desenho pensado para escolta oceânica.

A substituição delas começou a chegar bem depois, com as fragatas da classe Tamandaré.

A saída em janeiro de 2021

O último comandante brasileiro foi o contra-almirante Sérgio Renato Berna Salgueirinho.

Cerca de 200 brasileiros desembarcaram de volta em janeiro de 2021, encerrando a participação da Marinha na missão.

A decisão de sair não veio de fracasso operacional.

Veio da combinação entre custo de manter navio em operação a mais de nove mil quilômetros de casa e a disponibilidade de meios da esquadra naquele momento.

Militares brasileiros continuaram a servir em outras frentes das Nações Unidas, incluindo os que estiveram em missão no Haiti.

O que ficou no mar depois do Brasil

Com a saída brasileira, as tarefas no mar passaram a ser divididas entre militares de Bangladesh, Alemanha, Grécia, Indonésia e Turquia.

A composição continuou girando conforme cada país cede ou retira meios.

A Força-Tarefa Marítima segue no Mediterrâneo oriental como o único componente naval de uma missão de paz das Nações Unidas.

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Jefferson Silva

Jefferson Silva

Atuo na Sociedade Militar trazendo análises e conteúdos relacionados a Geopolítica, Tecnologia militar, Industria de Defesa e Inteligência Artificial.