Lula usou a convenção nacional do PT, que oficializou sua candidatura em 2026, para colocar Defesa nacional e as terras raras no centro do discurso. Ele prometeu à militância tratar os minerais críticos como questão de soberania — não apenas como pauta econômica. Também afirmou que nem China nem EUA vão “meter a mão” nas riquezas minerais do Brasil.
Ao falar com a base do partido, Lula criticou o que chama de “preconceito” de parte da esquerda em relação à defesa. Em sua visão, enxergar defesa só como pauta de quartel é perigoso num cenário em que pressões externas e disputas entre grandes potências podem afetar decisões internas do país.
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Sem citar Trump, Lula mencionou o episódio da Venezuela, quando os EUA invadiram o país e prenderam o então presidente, Nicolás Maduro.
“A gente tem que estar preparado para não levarem o presidente como fizeram por aí. Quero estar preparado para a paz, não para a guerra. Para ninguém se fazer de bobo com a gente”, disse.
Lula Defesa 2026: a construção da nova imagem presidencial
Lula parece tentar construir a imagem de um “Lula Defesa 2026”. Essa persona quer trazer a política de defesa da periferia para compor o núcleo do projeto de governo.
Ao dizer que vai “levar muito a sério” o tema em um eventual quarto mandato, ele se contrapõe à caricatura de que a esquerda deixaria Forças Armadas e indústria de defesa de lado.
Essa sinalização obviamente interessa ao Exército, à Marinha e à Aeronáutica. O discurso aponta para uma integração maior entre decisões sobre mineração estratégica, tecnologia de ponta e política externa.
Os efeitos disso deverão vir em inteligência, guerra cibernética e proteção de áreas sensíveis do território — especialmente regiões com reservas de minerais críticos.
Terras raras: o ponto mais sensível do discurso de campanha
O ponto que Lula fez mais questão de enfatizar foi o das terras raras e minerais críticos. Ele afirmou que nem chineses nem americanos vão “meter a mão” nas terras raras brasileiras.
Para entender a dimensão do tema, é preciso lembrar o que são, de fato, as terras raras. Trata-se de um grupo de 17 elementos químicos (do lantânio ao lutécio, além de íítrio e escândio) essenciais para ímãs de alta potência, radares, mísseis guiados, sensores e sistemas de defesa de última geração.
Segundo o Serviço Geológico Brasileiro (SGB), o país detém a segunda maior reserva mundial desses minerais, com cerca de 21 milhões de toneladas — atrás apenas da China. O tema já foi detalhado pela Revista Sociedade Militar no artigo sobre o potencial brasileiro nesse setor.
Isso coloca os holofotes políticos na disputa global que envolve Estados Unidos, China e outras potências em torno desses insumos. Todos são essenciais para tecnologia, transição energética e sistemas de defesa de alta complexidade.
O petista mencionou negociações com Washington, em meio ao “tarifaço”, nas quais o governo norte‑americano pressionou o Brasil a limitar investimentos estrangeiros em terras raras e minerais críticos.
A resposta do presidente seguiu a mesma lógica. Segundo ele, exploração e industrialização dessas riquezas precisam servir ao povo brasileiro e a um projeto de desenvolvimento com agregação de conhecimento, não à repetição do papel de fornecedor barato de commodities.
Falta de marco legal trava o potencial mineral brasileiro
Nos últimos meses, Lula vem insistindo que o país deve deixar de ser apenas exportador de matérias‑primas e tornar‑se exportador de inteligência, usando minerais críticos como base para um polo de tecnologia e inovação.
Com reservas relevantes mapeadas em solo nacional, o Brasil tem margem para articular esses recursos com políticas de semicondutores, veículos elétricos e sistemas de defesa avançados.
Contudo, falta, segundo o próprio Lula, uma decisão política clara e um marco legal robusto, como trouxe uma publicação no Jornal do Comércio.
Rumo a uma política nacional de minerais críticos?
Esse discurso dialoga com movimentos internos do governo para consolidar uma Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e discutir o uso de estatais, como a Petrobras, em projetos ligados a esse setor.
A ideia de “soberania mineral” surge em falas nas quais Lula afirma que o Brasil é “dono do seu nariz” e não deve ceder quando o assunto são ativos estratégicos.
Na prática, isso significa tratar terras raras e minerais críticos como tema que passa diretamente pelo governo, por regras específicas e por acompanhamento próximo de transações acionárias, dados geológicos sensíveis e participação de empresas estrangeiras em empreendimentos de interesse nacional.
O objetivo declarado é evitar que decisões centrais sejam tomadas fora do radar do Estado brasileiro.
Inteligência artificial como extensão da soberania tecnológica
Lula também conectou soberania com tecnologia de ponta. Ao falar em ampliar investimentos em inteligência artificial, ele não se limita ao uso de IA em campanhas e redes sociais — tema que já apontou como central na disputa de 2026.
A proposta é fortalecer universidades e centros de pesquisa para formar mais profissionais em matemática, ciência e tecnologia, áreas que podem abastecer tanto projetos civis quanto programas militares de inovação.
Esse movimento tem impacto direto na defesa: IA, análise de dados e sistemas de comando e controle já fazem parte do cotidiano das forças armadas modernas.
Ao tratar de soberania tecnológica, Lula abre espaço para discutir autonomia em softwares, infraestrutura digital e segurança cibernética, em um ambiente em que o “inimigo” pode ser mais um algoritmo malicioso que um exército convencional.
Defesa, IA e minerais críticos: as três frentes da campanha
No conjunto, o discurso na convenção do PT costura três frentes que falam diretamente ao universo militar e de defesa.
Segundo publicação no site do Partido dos Trabalhadores, Lula recoloca a pauta de defesa como eixo da campanha de Lula em 2026.
Além de também inserir terras raras e minerais críticos na agenda de soberania, a campanha para o Lula 4 aponta que IA e formação em áreas científicas serão tratadas como instrumentos de autonomia nacional, não como modismos tecnológicos dissociados da estratégia de Estado.