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O paradoxo militar do Brasil: Lula e Dilma impulsionaram caças, submarino nuclear, blindados e mísseis; Bolsonaro levou militares ao centro do governo, mas grandes projetos continuaram reféns de cortes, atrasos e de um orçamento dominado por despesas com pessoal

Entre caças, submarinos, blindados, cargueiros e mísseis, os principais projetos militares do Brasil revelam como decisões políticas, transferências de tecnologia e restrições orçamentárias moldaram avanços, atrasos e retomadas ao longo de diferentes governos nas últimas décadas e desafios industriais permanentes.

O paradoxo militar do Brasil: Lula e Dilma impulsionaram caças, submarino nuclear, blindados e mísseis; Bolsonaro levou militares ao centro do governo, mas grandes projetos continuaram reféns de cortes, atrasos e de um orçamento dominado por despesas com pessoal
Gripen, KC-390, submarinos, Guarani e ASTROS avançam entre investimentos, cortes e retomadas que expõem os limites da Defesa brasileira. - Imagem: Reprodução

O Brasil conseguiu colocar em andamento alguns dos programas militares mais ambiciosos de sua história recente, envolvendo caças supersônicos, submarinos, blindados, cargueiros e sistemas de mísseis.

O país, porém, também transformou atrasos, renegociações e bloqueios orçamentários em parte recorrente dessa modernização.

Projetos como Gripen, KC-390 Millennium, ProSub, Guarani e ASTROS revelam um paradoxo da Defesa brasileira: decisões estratégicas atravessam diferentes governos, mas sua execução permanece vulnerável à falta de continuidade financeira.

Segundo o Diário de Pernambuco, esse movimento pode ser descrito pela expressão “stop and go”, utilizada para representar programas que recebem impulso político e financeiro em determinados períodos, mas depois desaceleram diante de cortes, contingenciamentos e mudanças de prioridade.

Projetos atravessam diferentes governos

A cronologia mostra que os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff tiveram participação decisiva na contratação ou estruturação de vários dos maiores programas militares ainda em execução.

O projeto do blindado Guarani ganhou um marco importante em 2007, quando o Exército contratou o desenvolvimento da nova viatura sobre rodas e de seu lote inicial.

Em 2008, Brasil e França assinaram o acordo que originou o Programa de Desenvolvimento de Submarinos, conhecido como ProSub.

O desenvolvimento do cargueiro KC-390 começou em 2009, a partir de requisitos estabelecidos pela Força Aérea Brasileira e de um contrato firmado com a Embraer.

Já o acordo para a aquisição de 36 caças Gripen foi assinado em 2014, durante o governo Dilma, com previsão de treinamento, apoio logístico, produção no Brasil e transferência de tecnologia.

Essas datas mostram que os governos Lula e Dilma tomaram decisões políticas e contratuais importantes para lançar, estruturar ou acelerar programas que permanecem em andamento.

Isso não significa, porém, que caças, submarinos, blindados, cargueiros e mísseis pertençam a um partido ou a uma administração específica.

As iniciativas nasceram de necessidades identificadas pelas próprias Forças Armadas, foram transformadas em políticas e contratos do Estado brasileiro e dependeram de recursos públicos, trabalho técnico dos militares, participação da indústria e aprovação orçamentária do Congresso.

Governos posteriores herdaram compromissos financeiros, cronogramas e etapas industriais já iniciadas.

Michel Temer, Jair Bolsonaro e o terceiro governo Lula tomaram decisões sobre pagamentos, quantidades, prazos, contratos e prioridades desses programas.

Por isso, é mais preciso afirmar que Lula e Dilma deram o impulso político e contratual inicial a uma parte importante dessas iniciativas, enquanto administrações posteriores participaram de sua execução, receberam equipamentos e mantiveram, reduziram ou reprogramaram investimentos.

Militares no governo Bolsonaro

O governo Jair Bolsonaro estabeleceu uma relação diferente com as Forças Armadas.

Em vez de ficar marcado principalmente pela criação dos grandes programas estratégicos citados, o período ampliou a presença de militares da ativa e da reserva em ministérios, secretarias, estatais, autarquias e cargos de assessoramento do Executivo.

Levantamentos públicos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada apontaram aumento da participação de militares em funções de direção e confiança no governo federal.

Generais assumiram ministérios e posições próximas à Presidência, enquanto oficiais de diferentes patentes passaram a ocupar postos civis em várias áreas da administração.

Essa presença colocou militares no centro das decisões políticas do governo, mas não rompeu o histórico de instabilidade financeira dos projetos de Defesa.

Programas iniciados anteriormente continuaram avançando durante o período.

A FAB recebeu a primeira unidade de série do KC-390 em 2019, realizou o primeiro voo do Gripen no espaço aéreo brasileiro em 2020 e incorporou novas aeronaves nos anos seguintes.

Na Marinha, o submarino Riachuelo foi transferido ao setor operativo em 2022, representando um dos maiores marcos do ProSub até aquele momento.

Essas entregas mostram que o governo Bolsonaro participou da continuidade e da execução de programas estratégicos.

No entanto, a maior presença política de militares não eliminou cortes, restrições fiscais, redução de encomendas e renegociação de contratos.

O paradoxo permaneceu: as Forças Armadas ganharam espaço dentro do governo, mas os projetos continuaram submetidos ao mesmo modelo orçamentário irregular.

Submarinos avançam lentamente

O ProSub prevê a construção de quatro submarinos convencionais da classe Riachuelo e do primeiro submarino brasileiro de propulsão nuclear.

O programa também exigiu a construção de estaleiros, uma base naval e estruturas industriais em Itaguaí, no Rio de Janeiro.

A parceria com a França envolve transferência de conhecimento para o projeto e a construção dos submarinos convencionais.

O reator nuclear, o combustível e partes sensíveis do futuro submarino de propulsão nuclear permanecem sob responsabilidade brasileira.

A complexidade do programa ajuda a explicar por que sua execução atravessa décadas e depende de financiamento contínuo.

Gripen e KC-390 transformaram a FAB

Na Força Aérea, Gripen e KC-390 representam dois modelos diferentes de desenvolvimento tecnológico.

O programa do caça sueco envolve transferência de tecnologia, treinamento de profissionais brasileiros e montagem de aeronaves no país.

O KC-390, por outro lado, foi desenvolvido pela Embraer a partir de requisitos definidos pela FAB.

O cargueiro passou a cumprir missões de transporte, reabastecimento em voo, evacuação aeromédica, lançamento de cargas e apoio humanitário.

Seu sucesso internacional também mostrou como uma encomenda inicial das Forças Armadas pode ajudar a criar um produto brasileiro competitivo no mercado externo.

Ainda assim, os dois programas sofreram alterações de cronograma, reprogramações financeiras e discussões sobre a quantidade de aeronaves que o Brasil terá condições de adquirir.

Guarani e ASTROS dependem de encomendas

No Exército, o Guarani foi criado para substituir gradualmente famílias antigas de blindados e servir como plataforma para diferentes versões militares.

Sua produção envolve a Iveco Defence Vehicles e uma cadeia de fornecedores instalada no Brasil.

O Sistema ASTROS representa outra capacidade estratégica.

A plataforma pode utilizar diferentes tipos de foguetes e mísseis e integra um programa de modernização que inclui o desenvolvimento de novas munições.

A crise da antiga Avibras mostrou como a falta de contratos contínuos pode atingir diretamente uma empresa considerada estratégica.

A companhia entrou em recuperação judicial, enfrentou paralisações, atrasos salariais e dificuldades para manter trabalhadores especializados.

Em 2026, a Avibras Aeroco iniciou uma nova fase industrial, retomando ativos, tecnologias e parte do portfólio da estrutura anterior.

Sem encomendas regulares do Estado, empresas de Defesa podem perder profissionais, fornecedores e conhecimentos que levaram décadas para serem desenvolvidos.

Pessoal domina o orçamento

O problema não está apenas no tamanho do orçamento destinado à Defesa, mas na forma como os recursos são distribuídos.

Despesas com militares da ativa, aposentadorias, reformas e pensões consomem a maior parte do dinheiro disponível.

O percentual varia de acordo com o exercício e com a metodologia utilizada, mas costuma permanecer próximo de quatro quintos do orçamento.

Isso reduz o espaço para investimentos, manutenção, pesquisa, desenvolvimento e aquisição de equipamentos.

Como as despesas obrigatórias não podem ser interrompidas com facilidade, os bloqueios costumam alcançar justamente as parcelas destinadas aos projetos estratégicos.

O Brasil consegue desenvolver equipamentos avançados, mas enfrenta dificuldades para assegurar o ritmo industrial, o número de unidades e os prazos inicialmente planejados.

O resultado é um sistema no qual caças, submarinos, blindados, cargueiros e mísseis avançam, mas quase nunca na velocidade imaginada quando os contratos foram anunciados.

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Alisson Ficher

Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 13 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com.