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Pela primeira vez em mais de 70 anos, tropas dos EUA são bombardeadas por caças inimigos — ex-chefe da Força Aérea chama episódio de “constrangedor”

Três caças F-5 iranianos teriam voado a baixíssima altitude até o Kuwait e lançado bombas contra Camp Buehring, rompendo uma sequência histórica que remontava à Guerra da Coreia

Pela primeira vez em mais de 70 anos, tropas dos EUA são bombardeadas por caças inimigos — ex-chefe da Força Aérea chama episódio de “constrangedor”
Caças F-5 iranianos teriam realizado um ataque em baixa altitude contra uma instalação militar utilizada pelos Estados Unidos no Kuwait. Imagem ilustrativa criada por IA.

A Força Aérea do Irã conseguiu atingir tropas terrestres dos Estados Unidos com caças, em um episódio que, segundo um ex-comandante americano, não ocorria havia mais de sete décadas. O detalhe que tornou o caso ainda mais incômodo para Washington é o tipo de aeronave envolvida: três F-5, caças de origem americana cuja concepção remonta aos anos 1950 e 1960 e que estão em serviço iraniano há décadas.

O reconhecimento mais contundente veio do general reformado Glen VanHerck, ex-chefe do Comando Norte dos Estados Unidos (USNORTHCOM) e do NORAD. Durante um painel sobre defesa contra drones no Space & Missile Defense Symposium, realizado em Huntsville, Alabama, em 12 de agosto, ele descreveu o episódio sem amenizar o impacto.

“Isso é constrangedor para mim, como aviador”, afirmou VanHerck ao abordar o fato de forças americanas terem voltado a sofrer um ataque aéreo desse tipo.

Segundo relato publicado pelo EurAsian Times, o general disse que três F-5 decolaram do Irã, seguiram em voo de baixa altitude e lançaram bombas contra uma base aérea. A declaração dá novo peso a informações que vinham circulando desde os meses anteriores, mas que não haviam recebido confirmação pública detalhada das Forças Armadas dos Estados Unidos.

F-5 iranianos teriam atravessado as defesas e atacado Camp Buehring

O alvo apontado nos relatos é Camp Buehring, no Kuwait, uma das principais instalações utilizadas pelos Estados Unidos para apoiar suas operações militares no Oriente Médio. Em capacidade máxima, a base pode acomodar cerca de 14 mil militares, embora não esteja claro quantos estavam no local no momento do ataque.

A missão teria ocorrido em 1º de março de 2026, menos de 24 horas depois dos ataques realizados por Estados Unidos e Israel contra o Irã em 28 de fevereiro.

A NBC News havia noticiado anteriormente danos provocados pelo Irã em instalações militares americanas, citando autoridades dos Estados Unidos sob anonimato. O ataque realizado pelos F-5, porém, permaneceu cercado por dúvidas porque o Pentágono não havia apresentado publicamente uma confirmação detalhada da incursão.

Meses depois, a televisão estatal iraniana exibiu entrevistas com três pilotos de F-5 que disseram ter participado da missão. Segundo os militares iranianos, o planejamento começou imediatamente após os ataques contra o território do país.

Um dos pilotos, cuja identidade não foi revelada, afirmou que Camp Buehring foi escolhido por sua importância estratégica e pela concentração de tropas e meios militares.

O aspecto mais relevante do episódio não está apenas no fato de bombas terem sido lançadas. Está na maneira como aeronaves antigas aparentemente conseguiram penetrar um espaço protegido por radares, sistemas de defesa aérea e vigilância regional.

Voando abaixo de 50 pés para desaparecer dos radares

Os pilotos iranianos afirmaram que a principal aposta da missão foi o voo extremamente baixo.

Segundo um dos relatos, os F-5 chegaram a voar abaixo de 50 pés — cerca de 15 metros — do solo, passando em determinados momentos sob linhas de transmissão de energia. Para efeito de comparação, o próprio piloto destacou que altitudes de treinamento podem ficar na faixa dos 500 pés, aproximadamente 152 metros.

A estratégia tinha um objetivo conhecido na guerra aérea: explorar as limitações impostas pelo horizonte radar e pelo relevo para reduzir o tempo disponível para detecção, identificação e reação.

Camp Buehring não era, em tese, um alvo desprotegido. A região dispõe de uma arquitetura de defesa que inclui sistemas Patriot, armamentos de menor alcance, radares e redes de vigilância. Após o início da ofensiva americana contra o Irã, esses meios estariam em estado elevado de alerta diante da possibilidade de retaliações com mísseis balísticos e drones.

Mesmo assim, os F-5 teriam conseguido chegar ao objetivo.

Os iranianos disseram ter mantido silêncio de rádio durante a aproximação e utilizado rotas extremamente baixas, inclusive sobre áreas marítimas. Um dos pilotos afirmou que, em determinado trecho, as aeronaves passaram entre dois navios antes de alcançar o Kuwait.

Ao chegarem à base, realizaram o bombardeio.

É justamente esse ponto que transforma a incursão em algo maior do que uma curiosidade histórica. Sistemas modernos de defesa são frequentemente concebidos para enfrentar mísseis, drones e aeronaves sofisticadas. Um caça antigo, voando rente ao terreno e explorando geometria, surpresa e disciplina de emissão, continua capaz de criar um problema extremamente moderno.

Três F-15 americanos foram perdidos em meio à confusão

O ataque ainda teria coincidido com outro episódio grave.

Em 1º de março, o Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM) reconheceu a perda de três caças F-15 em um incidente atribuído à possibilidade de fogo amigo.

Os pilotos iranianos posteriormente apresentaram sua própria versão. Segundo eles, a incursão provocou confusão nas defesas e três F-15 americanos que decolaram durante a reação teriam sido confundidos com alvos hostis e abatidos.

Essa relação causal deve ser tratada com cautela. O reconhecimento americano da perda das aeronaves não significa, por si só, confirmação independente de todos os detalhes apresentados pelos pilotos iranianos.

A distinção importa. Em conflitos de alta intensidade, relatos operacionais rapidamente passam a integrar também a disputa de informação entre os envolvidos.

Os iranianos afirmaram ainda que executaram manobras de despistamento depois do bombardeio e conseguiram deixar o espaço aéreo do Kuwait sem que seus F-5 fossem interceptados, retornando posteriormente ao território iraniano.

Os F-5 usados pelo Irã nasceram de uma relação militar com os próprios Estados Unidos

Há uma ironia histórica difícil de ignorar.

O Irã começou a receber caças F-5 americanos ainda durante o governo do xá Mohammad Reza Pahlavi, quando Teerã era um dos principais aliados estratégicos de Washington no Oriente Médio.

As primeiras aeronaves chegaram na década de 1960. Nos anos seguintes, o país adquiriu versões mais avançadas, incluindo o F-5E/F Tiger II, e acumulou mais de 300 exemplares de diferentes variantes antes da Revolução Islâmica de 1979.

Quase meio século depois, aeronaves descendentes daquela frota continuam operando graças à manutenção local, adaptação de componentes e esforços iranianos para manter plataformas antigas em condições de combate apesar de décadas de sanções.

Que um desses aviões tenha conseguido atravessar uma rede moderna de vigilância e alcançar uma instalação americana torna o episódio particularmente simbólico.

Tecnologia superior pesa enormemente em uma guerra. Ela não elimina, porém, os efeitos de surpresa, planejamento de rota, falhas humanas e lacunas na cobertura defensiva.

O precedente americano remonta à Guerra da Coreia

A dimensão histórica aparece quando o episódio é comparado às guerras travadas pelos Estados Unidos desde a década de 1950.

Em 15 de abril de 1953, durante a Guerra da Coreia, dois soldados americanos morreram na ilha de Chodo depois que aeronaves norte-coreanas Po-2 realizaram um ataque noturno.

Os militares pertenciam a uma bateria de artilharia antiaérea responsável pela proteção da ilha e de posições próximas.

Historiadores da Força Aérea americana identificaram durante décadas aquele episódio como o último caso confirmado de pessoal terrestre dos Estados Unidos morto em consequência de um ataque realizado por aeronaves inimigas.

O padrão se manteve nos grandes conflitos seguintes.

Na Guerra do Vietnã, os MiG norte-vietnamitas enfrentaram principalmente aeronaves americanas em combates aéreos. Bases dos Estados Unidos sofreram repetidos ataques com foguetes, morteiros e incursões terrestres, mas não se tornou rotina ver caças inimigos realizando ataques convencionais contra posições americanas.

Na Guerra do Golfo de 1991, a coalizão rapidamente conquistou superioridade aérea e os caças iraquianos não conseguiram bombardear forças terrestres americanas.

O cenário se repetiu, com características diferentes, no Afeganistão e durante a invasão do Iraque em 2003.

Os Estados Unidos continuaram sendo atacados pelo ar, mas por outros meios. Mísseis balísticos iranianos atingiram bases americanas depois da morte do general Qasem Soleimani em 2020. Drones também se transformaram em uma ameaça constante às instalações militares dos EUA na região.

Um ataque executado por caças tripulados convencionais, porém, pertence a outra categoria.

O problema para Washington vai muito além da idade dos três caças

A declaração de Glen VanHerck ajuda a explicar por que o episódio chamou tanta atenção dentro da comunidade de defesa americana.

Não se trata simplesmente de três F-5 antigos conseguirem lançar bombas.

Durante décadas, a estrutura militar dos Estados Unidos foi organizada sob uma premissa extremamente poderosa: suas forças terrestres poderiam operar contando com superioridade aérea ou, no mínimo, com proteção suficiente para impedir que aeronaves inimigas chegassem livremente às posições americanas.

O ambiente estratégico mudou.

Drones baratos, mísseis de cruzeiro, armas balísticas, munições de ataque de longo alcance e agora a possibilidade demonstrada por aeronaves tripuladas voando extremamente baixo obrigam as forças americanas a olhar novamente para a defesa das próprias bases.

É por isso que VanHerck levantou o caso justamente durante uma discussão sobre proteção de instalações e defesa contra ameaças aéreas. O episódio expõe uma questão que vai muito além do Irã: bases construídas durante décadas de domínio aéreo quase incontestado precisam voltar a ser pensadas para um cenário no qual o céu pode não estar sob controle absoluto.

O ataque de março deverá alimentar esse debate dentro do Pentágono. A questão central agora será entender como três aeronaves concebidas há mais de meio século conseguiram chegar tão perto de uma instalação estratégica e quais mudanças serão necessárias para impedir que uma incursão semelhante volte a acontecer.

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Felipe Alves da Silva

Felipe Alves da Silva

Sou Felipe Alves, com experiência na produção de conteúdo sobre segurança nacional, geopolítica, tecnologia e temas estratégicos que impactam diretamente o cenário contemporâneo. Ao longo da minha trajetória, busco oferecer análises claras, confiáveis e atualizadas, voltadas a especialistas, entusiastas e profissionais da área de segurança e geopolítica. Meu compromisso é contribuir para uma compreensão acessível e qualificada dos desafios e transformações no campo estratégico global. Sugestões de pauta, dúvidas ou contato institucional: fa06279@gmail.com