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A tecnologia que enriquece o urânio queimado em Angra 1 foi desenvolvida pela Marinha para o submarino nuclear, a décima cascata já cobre 70% da recarga da usina, e o reator do protótipo começou a ser montado em Iperó

A tecnologia que enriquece o urânio queimado em Angra 1 foi desenvolvida pela Marinha para o submarino nuclear, a décima cascata já cobre 70% da recarga da usina, e o reator do protótipo começou a ser montado em Iperó
A usina nuclear de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. Foto: Rodrigo Soldon, via Wikimedia Commons (CC BY 2.0).

O enriquecimento por ultracentrifugação saiu do centro tecnológico da Marinha em São Paulo, em parceria com o IPEN. Hoje ele abastece a geração elétrica civil enquanto o protótipo em terra do reator naval é montado no interior paulista.

A usina que gera energia elétrica em Angra dos Reis funciona com combustível enriquecido por uma tecnologia que não nasceu no setor elétrico. Nasceu na Marinha.

O processo de ultracentrifugação usado no Brasil foi desenvolvido pelo centro tecnológico da Força em São Paulo, em parceria com o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, e o objetivo original era abastecer um reator de submarino.

Hoje ele abastece a rede.

A décima cascata de ultracentrífugas em operação na fábrica de Resende, no Rio de Janeiro, já cobre cerca de 70% da recarga anual de Angra 1, como a ampliação do enriquecimento já registrou.

O que é uma cascata de ultracentrífugas

O urânio natural tem pouquíssimo do isótopo que interessa para gerar energia. Enriquecer significa aumentar essa proporção, e o método usado no Brasil é mecânico: girar o gás de urânio em altíssima rotação para separar os isótopos pela diferença de massa.

Uma centrífuga sozinha separa muito pouco. Por isso elas são ligadas em série, e o conjunto recebe o nome de cascata. A saída de uma alimenta a entrada da seguinte, e o teor sobe a cada etapa.

Contar cascatas é, portanto, contar capacidade instalada. Cada nova cascata que entra em operação amplia quanto o país consegue enriquecer por ano sem recorrer ao exterior.

De onde veio a tecnologia

O domínio da ultracentrifugação foi obtido dentro do programa nuclear da Marinha, conduzido pelo centro tecnológico da Força em São Paulo com o IPEN.

Isso coloca o Brasil no grupo restrito de países que dominam a rota tecnológica de enriquecimento por centrífuga. É um clube pequeno, e a entrada nele não se compra.

O ponto que costuma passar despercebido é a direção da transferência. Não foi o programa civil que cedeu tecnologia ao militar. Foi o contrário.

Até quanto o país pode enriquecer

A instalação de Resende é licenciada para produzir urânio enriquecido até 5% em massa do isótopo 235. É o teor usado no combustível das usinas de geração elétrica.

Concluída a segunda fase da usina, a expectativa é atender integralmente a demanda de Angra 1 e Angra 2, e depois também Angra 3, que segue em fase final de construção.

Item Registro
Cascatas em operação Dez
Cobertura da recarga anual de Angra 1 Cerca de 70%
Limite de enriquecimento licenciado 5% do isótopo 235
Local do enriquecimento Fábrica de Resende, no Rio de Janeiro
Local do protótipo do reator naval Centro Experimental Aramar, em Iperó (SP)
Início da montagem do reator do protótipo Outubro de 2025
Onde está cada etapa do ciclo.

O protótipo em terra, em Iperó

A outra ponta do programa fica no interior de São Paulo. No Centro Experimental Aramar, em Iperó, está o LABGENE, o laboratório onde é construído o protótipo em terra da planta de propulsão nuclear que vai equipar o submarino.

A montagem do reator desse protótipo começou em outubro de 2025. A lógica é testar em terra, em escala real, aquilo que depois será instalado dentro do casco.

Concluídos os testes, um reator semelhante ao montado no LABGENE será instalado no submarino Álvaro Alberto, no complexo naval de Itaguaí.

O combustível do submarino segue outra regra

Reator naval precisa de núcleo compacto e de longa duração, porque trocar combustível dentro de um casco fechado é operação de estaleiro. Essa exigência costuma empurrar o enriquecimento para cima.

As marinhas americana e britânica resolveram isso com urânio altamente enriquecido. O projeto brasileiro trabalha com urânio de baixo enriquecimento, e essa escolha não é só técnica.

Combustível de baixo enriquecimento reduz o atrito com o regime internacional de não proliferação, e é um dos argumentos que o Brasil apresenta quando o programa é questionado fora do país. O submarino Álvaro Alberto é o destino final desse arranjo.

Existe ainda uma frente própria de fabricação do elemento combustível para uso naval, tocada em conjunto pelas empresas e centros ligados ao programa, que é o que fecha o ciclo do lado militar.

Os contratos com o grupo francês

Em junho de 2025, a Marinha assinou dois contratos com o grupo naval francês ligados a essa etapa. Um deles, de 246,3 milhões de euros, cobre a montagem eletromecânica do edifício auxiliar controlado do LABGENE.

O outro, de 282,1 milhões de euros, trata de consultoria técnica para sistemas adicionais do submarino. Somados, passam de meio bilhão de euros.

O calendário já escorregou três vezes

A data original de conclusão do submarino era 2024. Foi empurrada para 2033 e hoje a projeção corrente é 2037.

A meta intermediária é tornar o sistema de propulsão plenamente funcional entre 2027 e 2028, o que permitiria iniciar de fato a construção do casco com a propulsão integrada.

Um bloqueio de R$ 1,43 bilhão já atingiu o submarino nuclear, as fragatas e a manutenção da frota. A Marinha alerta que o programa corre risco de suspensão parcial sem aporte adicional de R$ 1 bilhão, valor que considera o mínimo para manter o ritmo atual.

Por que isso também é assunto de energia

Quem olha o programa apenas pela lente da defesa perde metade da conta. A mesma cadeia que produz combustível para submarino reduz importação de urânio enriquecido para geração elétrica.

O urânio brasileiro entrou na agenda de governo como tema de energia, e não apenas de armamento.

Potências estrangeiras se aproximam do mesmo setor. A Rússia apresentou propostas para construir usinas nucleares no país.

Concluída a ampliação prevista, o efeito prático é duplo: o país deixa de enviar urânio para enriquecer no exterior e passa a controlar o calendário das próprias recargas, que hoje depende de contrato com fornecedor de fora. Autonomia, nesse setor, se mede em prazo, não só em preço.

Há ainda um efeito industrial menos visível. Fabricar centrífuga exige usinagem de precisão, material especial e controle de qualidade que poucos setores no país praticam, e essa cadeia de fornecedores foi montada do zero para atender ao programa.

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Jefferson Silva

Jefferson Silva

Atuo na Sociedade Militar trazendo análises e conteúdos relacionados a Geopolítica, Tecnologia militar, Industria de Defesa e Inteligência Artificial.