O maior exercício naval multinacional das Américas ganha em 2026 uma fase lacustre e uma componente dedicada de ciberdefesa, além das fases marítima, anfíbia e amazônica, esta última conduzida na região de Iquitos
Motor a diesel queima combustível com o oxigênio que entra pela admissão.
A 3.800 metros de altitude o ar tem cerca de dois terços da densidade que tem no nível do mar, e o mesmo motor perde potência sem que nada tenha quebrado.
É esse problema que o maior exercício naval multinacional das Américas vai levar ao lago Titicaca em setembro.
A fase que nunca existiu
O UNITAS 2026 será conduzido no Peru, em Ancón, Salinas e outras localidades, com participação de mais de 18 países, segundo o Diálogo Américas.
Pela primeira vez a programação inclui uma fase lacustre, no Titicaca, na fronteira entre Peru e Bolívia.
O objetivo declarado é verificar como motores a diesel e motores de popa funcionam com menor concentração de oxigênio.
Não é curiosidade técnica.
Marinha de rio e de lago em altitude existe na América do Sul, e nenhum manual escrito para o nível do mar responde por ela.
Peru e Bolívia mantêm forças navais no próprio Titicaca, com embarcações de patrulha e apoio a comunidades das margens.
A Bolívia, sem litoral desde 1879, concentra parte relevante do seu poder naval em rios e nesse lago, e é um dos países cujos navios de guerra o Brasil autorizou a entrar em portos nacionais.
O que a altitude faz com o material
A perda de rendimento é a parte visível.
Motor aspirado a 3.800 metros pode entregar bem menos do que a potência nominal, o que altera velocidade, autonomia e capacidade de carga da embarcação.
Há efeitos menos óbvios.
A refrigeração fica menos eficiente porque o ar leva menos calor embora, e o ponto de ebulição da água cai, o que muda o comportamento do sistema de arrefecimento.
A tripulação também rende menos.
Esforço físico em altitude reduz o tempo de trabalho contínuo, e isso entra no planejamento de escala e de embarque.
Há ainda o efeito sobre o próprio combustível e sobre a partida a frio, porque a noite no altiplano chega a temperaturas negativas mesmo em plena estação seca.
Testar tudo isso num exercício controlado é mais barato do que descobrir em operação real.
As outras quatro fases
Além da lacustre, o exercício mantém as fases marítima, anfíbia e amazônica, e ganha em 2026 uma componente dedicada de ciberdefesa.
A parte cibernética é a segunda estreia da edição.
Ela existe para proteger sistemas de comunicação e infraestrutura crítica enquanto as demais fases correm ao mesmo tempo.
A fase amazônica é conduzida na região de Iquitos, no alto Amazonas peruano, e é a que mais se aproxima do teatro em que a Marinha do Brasil opera todos os dias.
O comando é dividido
A condução cabe à Marinha de Guerra do Peru em conjunto com o Comando de Forças Navais dos Estados Unidos para a América do Sul, a Quarta Frota.
O UNITAS é o exercício naval mais antigo em atividade contínua no mundo, e a edição de 2026 coincide com o bicentenário peruano.
A rotatividade de sede é parte do desenho.
Cada país anfitrião imprime ao exercício o cenário que domina, e o Peru trouxe a altitude e o rio.
Em edições anteriores, sediadas em outras costas, o eixo era outro, mais voltado à guerra de superfície e à defesa de comboio em mar aberto.
O que já começou a se mover
O deslocamento de meios para o Peru já está em curso.
A Armada Argentina desdobrou o contratorpedeiro ARA Almirante Brown, que partiu rumo ao Peru para participar do UNITAS.
A saída aconteceu enquanto a mesma força montava um grupo de tarefas para receber navios brasileiros no Mar Argentino, o que dá a dimensão do esforço simultâneo de uma marinha de porte médio.
Para as marinhas da região, setembro concentra compromissos, e a agenda de manutenção de cada navio precisa ser negociada meses antes.
Um contratorpedeiro empenhado no Pacífico é um contratorpedeiro ausente do Atlântico Sul pelo tempo da viagem somado ao tempo do exercício.
Por que isso interessa ao Brasil
A fase amazônica do UNITAS acontece a montante da fronteira brasileira, no mesmo sistema fluvial que desce até o Solimões.
Brasil, Colômbia e Peru já treinam juntos naquela bacia em outro formato, como mostrou a Operação Bracolper, que chegou à 52ª edição neste ano.
Procedimento comum entre marinhas vizinhas é o que permite, na emergência, que um navio de bandeira diferente entre numa operação sem parar tudo para acertar rádio, sinalização e regra de aproximação.
A rotina de mandar navio para longe
Participar de exercício multinacional é decisão logística antes de ser decisão diplomática.
Cada navio empenhado sai da escala de manutenção e da disponibilidade da própria costa.
A Marinha do Brasil tem feito essa conta com frequência, e a Fragata Independência voltou recentemente ao país depois de 84 dias no Atlântico Norte com 260 militares a bordo.
No sentido inverso, o Brasil autorizou recentemente a entrada de navios vizinhos em portos nacionais, movimento simétrico ao que agora leva meios da região ao Peru.
O calendário
A edição de 2026 está marcada para setembro, com atividades distribuídas por Ancón, Salinas e outras localidades peruanas, além do Titicaca e da região de Iquitos.
A fase de planejamento foi concluída no Peru ainda no primeiro semestre, com conferências que definiram cenário, meios e regras de engajamento simulado.
Nessas conferências entram detalhes que não aparecem no comunicado final, como frequência de rádio compartilhada, código de manobra e o idioma de trabalho de cada fase.
É o trabalho que transforma navios de bandeiras diferentes numa única força-tarefa por algumas semanas.
Sem esse acerto prévio, cada aproximação entre dois navios vira negociação improvisada no rádio.
O lago Titicaca fica a 3.812 metros acima do nível do mar e é o lago navegável mais alto do mundo.
Sua superfície passa de 8 mil quilômetros quadrados, repartida entre território peruano e boliviano.
A profundidade máxima registrada passa de 280 metros.
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