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Marinha estuda drones submarinos, veículos autônomos e sensores para proteger cabos que transmitem mais de 95% dos dados de internet entre o Brasil e o mundo

Marinha discute drones submarinos e aéreos, veículos de superfície e sensores acústicos para ampliar a proteção dos cabos que conectam o Brasil ao mundo.

Noel Budeguer
Por Noel Budeguer 19/09/2026 às 19:16
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Marinha estuda drones submarinos, veículos autônomos e sensores para proteger cabos que transmitem mais de 95% dos dados de internet entre o Brasil e o mundo
Marinha discute drones submarinos e aéreos, veículos de superfície e sensores acústicos para ampliar a proteção dos cabos que conectam o Brasil ao mundo.

A Marinha do Brasil passou a avaliar como veículos de superfície não tripulados, drones submarinos, aeronaves não tripuladas e sensores acústicos podem reforçar a vigilância de uma infraestrutura que quase nunca aparece para o usuário final: os cabos submarinos de comunicações.

Segundo a própria Marinha, os cabos instalados na plataforma continental brasileira transmitem mais de 95% dos dados de internet que conectam o Brasil ao mundo. A discussão ganhou forma no 3º Workshop sobre Proteção de Cabos Submarinos, realizado entre 23 e 25 de junho de 2026, no Rio de Janeiro.

O encontro não anunciou uma compra imediata de drones ou sensores. O que houve foi uma prospecção de tecnologias, procedimentos e formas de integração capazes de ampliar a consciência situacional sobre o fundo do mar e as áreas por onde passam essas conexões.

Workshop reuniu Marinha, empresas de telecomunicações, órgãos públicos e forças estrangeiras no Rio

O evento foi realizado no Centro de Adestramento Almirante Marques de Leão e contou com participação do Centro de Análises de Sistemas Navais, o CASNAV. A proposta foi aproximar militares, especialistas, empresas de telecomunicações, órgãos governamentais e Marinhas amigas em torno da proteção de infraestruturas críticas do Poder Marítimo.

O tema ultrapassa a defesa tradicional. Uma interrupção relevante em cabos pode afetar comunicações empresariais, transações financeiras, serviços digitais e outras atividades dependentes de conectividade internacional, mesmo que existam rotas alternativas e equipes especializadas em reparo.

Submarino da Marinha do Brasil aparece atracado ao lado de um navio de apoio, enquanto militares e viaturas se concentram no cais. A imagem ilustra a estrutura naval e logística empregada em operações de vigilância, proteção marítima e defesa de infraestruturas estratégicas. Crédito: Marinha do Brasil.
Submarino da Marinha do Brasil aparece atracado ao lado de um navio de apoio, enquanto militares e viaturas se concentram no cais. A imagem ilustra a estrutura naval e logística empregada em operações de vigilância, proteção marítima e defesa de infraestruturas estratégicas. Crédito: Marinha do Brasil.

Mais de 95% dos dados que ligam o Brasil ao exterior passam por cabos instalados no fundo do mar

A Marinha afirma que a plataforma continental brasileira abriga cabos submarinos responsáveis por transmitir mais de 95% dos dados de internet que interligam o país ao restante do mundo. O CASNAV, ao tratar da rede oceânica global, também cita a marca de aproximadamente 95% do tráfego internacional de dados.

Essa dependência explica por que os cabos passaram a ser tratados como infraestrutura crítica. Eles ficam fora da vista, podem percorrer milhares de quilômetros e conectam pontos de aterragem em diferentes países e continentes, formando uma rede física essencial para o funcionamento da internet internacional.

Pesca e fundeio aparecem como responsáveis por 85% dos rompimentos citados no workshop

O debate também mostrou que nem todo rompimento está ligado a sabotagem ou ação hostil. De acordo com o CASNAV, falhas humanas associadas a pesca e fundeio respondem por 85% dos rompimentos discutidos no contexto da rede oceânica.

Esse dado muda o foco da vigilância: proteger cabos exige observar tanto ameaças deliberadas quanto atividades marítimas comuns que podem gerar danos acidentais. A identificação de embarcações, rotas, fundeios e comportamentos anormais passa a ser parte do problema de monitoramento.

Veículos de superfície não tripulados poderiam patrulhar áreas e apoiar navios de reparo

Entre as soluções prospectadas pelo CASNAV estão os Veículos de Superfície Não Tripulados, os VSNT. Uma aplicação estudada é a realização de patrulhas preventivas em áreas de interesse e o apoio prévio a navios encarregados de reparar cabos danificados.

Essas embarcações podem receber sensores e sistemas de comunicação e operar remotamente ou com funções automatizadas. A Marinha já desenvolve tecnologias relacionadas a veículos autônomos em outros projetos, o que cria uma base de conhecimento que pode ser aproveitada em missões de proteção de infraestrutura submarina.

Drones submarinos e aéreos entram no conceito de vigilância em várias camadas

Veículo submarino operado remotamente é lançado ao mar a partir de uma embarcação durante atividade marítima. Equipamentos desse tipo podem ampliar a capacidade de inspeção e monitoramento de estruturas instaladas no fundo do oceano, como cabos submarinos. Crédito: Marinha do Brasil.
Veículo submarino operado remotamente é lançado ao mar a partir de uma embarcação durante atividade marítima. Equipamentos desse tipo podem ampliar a capacidade de inspeção e monitoramento de estruturas instaladas no fundo do oceano, como cabos submarinos. Crédito: Marinha do Brasil.

O workshop também discutiu a interoperabilidade entre veículos de superfície, drones submarinos do tipo UUV e aeronaves não tripuladas, os UAV. A ideia é combinar meios que observam diferentes partes do ambiente marítimo em vez de depender de uma única plataforma.

Um veículo submarino pode investigar pontos próximos ao leito oceânico, enquanto um drone aéreo amplia a observação da superfície e um VSNT pode permanecer por mais tempo em uma área de patrulha. O valor desse arranjo depende da capacidade de reunir as informações produzidas por todos esses sensores em um quadro único.

Sensoriamento acústico distribuído e SMART Cables também entraram no debate

Outra frente apresentada foi o sensoriamento acústico distribuído, conhecido pela sigla DAS. O CASNAV cita o uso dessa tecnologia pela Petrobras entre os exemplos discutidos no workshop. Sistemas desse tipo usam a própria fibra para detectar perturbações ao longo de grandes extensões, criando novas possibilidades de monitoramento.

O encontro também abordou os chamados SMART Cables, cabos capazes de incorporar sensores destinados a coletar informações adicionais do ambiente submarino. A adoção em maior escala envolve questões regulatórias, técnicas e de integração com a infraestrutura de telecomunicações existente.

Sistema CITRA pode ajudar o COMPAAz a reunir informações e ampliar a consciência situacional

O CASNAV ainda apontou a aplicação do Sistema CITRA nas operações do Comando de Operações Marítimas e Proteção da Amazônia Azul, o COMPAAz. A solução utiliza recursos de realidade aumentada para apoiar a visualização e a compreensão de informações operacionais.

A proteção dos cabos depende de saber o que ocorre ao redor deles e de correlacionar dados vindos de fontes distintas. Integrar rastreamento de embarcações, sensores, informações de drones e alertas em um centro de operações pode reduzir o tempo entre a identificação de um comportamento incomum e a decisão de investigar.

Marinha está estudando opções; não houve anúncio de compra nem confirmação de sabotagem no Brasil

O estágio atual precisa ser separado de uma capacidade já implantada. O workshop serviu para compartilhar conhecimento e prospectar soluções. As fontes consultadas não anunciam contrato de compra imediata de drones, sensores ou sistemas especificamente destinados à proteção dos cabos submarinos.

Também não há, no material usado para esta reportagem, confirmação de um caso brasileiro de sabotagem semelhante aos episódios que aumentaram a atenção internacional sobre essa infraestrutura. O foco da Marinha está na preparação, no desenvolvimento tecnológico e na construção de mecanismos capazes de ampliar a vigilância da Amazônia Azul.

Próximo desafio será transformar estudos em uma rede capaz de observar superfície, coluna d’água e fundo do mar

A discussão revela uma mudança importante: proteger os cabos deixa de ser apenas uma questão de reparar avarias depois que elas acontecem. O objetivo tecnológico é aumentar a capacidade de detectar riscos antes do dano, acompanhar contatos e direcionar meios de inspeção ou resposta quando necessário.

Para o Brasil, o peso do problema está no volume de dados que depende dessas conexões. Se mais de 95% da internet que liga o país ao exterior passa por cabos submarinos, a combinação de sensores acústicos, veículos de superfície, drones submarinos, aeronaves não tripuladas e centros de comando pode se tornar uma nova camada de proteção de uma infraestrutura essencial e quase invisível.

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