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Auxílio-invalidez dos militares das Forças Armadas segue com piso de R$ 1.520 após 14 anos: cobrança voltou à Presidência em junho após manifestações da Marinha, Exército e Aeronáutica, mas lei continua sem mudança

Auxílio-invalidez dos militares mantém piso de R$ 1.520 desde 2012. Em 2026, nova cobrança chegou à Presidência após análises no Ministério da Defesa e manifestações das três Forças, mas a lei segue sem mudança.

Flavia Marinho
Por Flavia Marinho 24/09/2026 às 12:57
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Auxílio-invalidez dos militares das Forças Armadas segue com piso de R$ 1.520 após 14 anos: cobrança voltou à Presidência em junho após manifestações da Marinha, Exército e Aeronáutica, mas lei continua sem mudança
Militares das Forças Armadas diante do Congresso Nacional em imagem que representa a discussão sobre o auxílio-invalidez, cujo piso permanece em R$ 1.520 desde 2012, mesmo após novas cobranças por reajuste em 2026.

O auxílio-invalidez dos militares das Forças Armadas chegou a setembro de 2026 carregando um número que não muda há 14 anos: R$ 1.520. É o mesmo piso nominal estabelecido em julho de 2012, apesar das mudanças nos soldos e das sucessivas discussões sobre seu reajuste.

Em 2026, o assunto voltou oficialmente ao governo. Uma nova indicação parlamentar foi encaminhada à Casa Civil em fevereiro e, em junho, a Presidência da República enviou resposta à Câmara dos Deputados. Antes disso, o próprio Ministério da Defesa havia analisado uma proposta de alteração, com manifestações de Marinha, Exército e Aeronáutica. (Portal da Câmara dos Deputados)

Nada disso, até agora, mudou o número escrito na lei. A Lei nº 11.421/2006 continua determinando que o auxílio seja pago no valor de 7,5 cotas de soldo ou R$ 1.520, o que for maior. O piso de R$ 1.520 foi introduzido pela Lei nº 12.702/2012, com efeitos a partir de 1º de julho daquele ano. (Planalto)

Assim, a discussão de 2026 vai além de constatar que o valor permanece congelado. Congresso, Presidência da República, Ministério da Defesa e comandos militares voltaram a tratar do assunto, mas setembro chegou sem uma nova regra para o piso.

Auxílio-invalidez não é pago automaticamente a todo militar reformado

O nome do benefício pode levar à impressão de que qualquer militar reformado por incapacidade passa automaticamente a recebê-lo. A legislação estabelece condições bem mais específicas.

A Lei nº 11.421/2006 destina o auxílio ao militar que necessite de internação especializada, assistência ou cuidados permanentes de enfermagem, situação que precisa ser constatada por Junta Militar de Saúde.

O benefício também pode ser pago quando o tratamento ocorre na própria residência, desde que exista prescrição médica homologada por Junta Militar de Saúde e permaneça a necessidade de assistência ou cuidados permanentes.

Na prática, não se trata simplesmente de um adicional incorporado à remuneração militar. O auxílio está ligado a situações nas quais a condição de saúde do militar exige assistência continuada. A própria Marinha descreve o benefício nesses termos em material destinado a veteranos e pensionistas.

R$ 1.520 nasceram praticamente no mesmo patamar do soldo de Cabo Engajado

A comparação entre o auxílio-invalidez e o soldo de Cabo Engajado tem origem na própria história da legislação militar.

A antiga Lei nº 5.787/1972 determinava expressamente, no § 6º do artigo 126, que o auxílio-invalidez não poderia ser inferior ao soldo de Cabo Engajado.

Essa vinculação direta deixou de existir posteriormente. Em 2006, a Lei nº 11.421 estabeleceu um piso nominal de R$ 1.089.

Seis anos depois, em 2012, o valor mínimo foi elevado para R$ 1.520. Documento oficial do Senado registra que, naquele momento, o soldo do Cabo Engajado era de R$ 1.518 — apenas R$ 2 abaixo do novo piso do auxílio. A relação histórica entre os dois valores também aparece nas justificativas das iniciativas posteriores de reajuste.

Quatorze anos depois, essa proximidade desapareceu.

A Lei nº 15.167/2025 estabeleceu que, a partir de 1º de janeiro de 2026, o soldo do Cabo Engajado/Taifeiro-Mor passaria para R$ 2.869. O piso do auxílio-invalidez permaneceu nos mesmos R$ 1.520 de 2012.

A legislação atual não obriga que o auxílio acompanhe o soldo de Cabo Engajado. A comparação permanece porque essa referência já existiu expressamente na lei e voltou a aparecer nas propostas recentes para mudar o benefício.

Autoridades militares e tropas em cerimônia do Dia do Soldado
Autoridades militares e tropas em cerimônia do Dia do Soldado. Fonte: Ministério da Defesa.

Piso de R$ 1.520 pesa de maneira diferente conforme a graduação e a regra das cotas

Os R$ 1.520 são um piso, e não o valor único recebido por todos os beneficiários. A regra determina o pagamento de 7,5 cotas de soldo ou do mínimo legal, prevalecendo o valor maior. Isso significa que, dependendo do soldo e da regra aplicável ao caso, o resultado das cotas pode superar os R$ 1.520.

A reforma do Sistema de Proteção Social dos Militares também interferiu na forma de cálculo das cotas. A Publicação oficial do Serviço de Veteranos e Pensionistas da Marinha explica que, após a Lei nº 13.954/2019, o cálculo passou a considerar o tempo de serviço exigido para a transferência à inatividade, que pode chegar a 35 anos. Para benefícios enquadrados nessa sistemática, a cota pode corresponder a 1/35 do soldo.

Para quem já recebia o auxílio antes da publicação da Lei nº 13.954/2019, a Marinha informa que foi preservada, nas situações abrangidas pela regra anterior, a proporção de 1/30 do soldo.

Essa diferença faz o piso ganhar peso principalmente nas graduações com soldos menores. Na tabela vigente desde janeiro de 2026, o soldo de Suboficial ou Subtenente é R$ 6.737; o de Primeiro-Sargento, R$ 5.988; o de Segundo-Sargento, R$ 5.209; o de Terceiro-Sargento, R$ 4.177; e o de Cabo Engajado, R$ 2.869.

Dependendo da regra de cotas aplicada ao caso concreto, o piso de R$ 1.520 pode ser justamente o valor que prevalece no cálculo.

Por isso, não é correto afirmar que todos os beneficiários recebem R$ 1.520. Mas também não é correto tratar a manutenção desse piso desde 2012 como uma questão sem consequência prática para as graduações inferiores.

Cobrança pelo reajuste atravessou diferentes anos e governos

A tentativa de mudar esse valor não começou em 2025. Em 2017, uma Indicação nº 3.488/2017 apresentada na Câmara pelo então deputado Jair Bolsonaro sugeriu ao Poder Executivo uma proposição para atualizar o valor mínimo do auxílio-invalidez. A justificativa recuperava justamente a relação histórica entre o piso e o soldo de Cabo Engajado.

Em 2020, a senadora Mara Gabrilli apresentou a Indicação nº 4/2020, novamente sugerindo ao Presidente da República o reajuste do valor mínimo do benefício. O Senado registra que a proposição foi encaminhada à Casa Civil em abril daquele ano.

Cinco anos depois, em março de 2025, a parlamentar voltou ao assunto com a Indicação nº 10/2025. O documento foi apresentado como uma reiteração do pedido de reajuste e encaminhado à Presidência da República por meio da Casa Civil.

Na justificativa, o Senado voltou a destacar que o mínimo permanecia sem atualização desde 2012 e recuperou sua evolução em comparação com o soldo de Cabo Engajado.

Ministério da Defesa chegou a discutir a volta da referência ao Cabo Engajado

A Indicação nº 10/2025 também provocou movimentação dentro do Ministério da Defesa.

Em reportagem publicada anteriormente pela Sociedade Militar, de Robson Augusto, foi apresentada a íntegra da Nota Técnica nº 14/CGPRM/DEPES/SEPESD/SG/MD/2025, vinculada ao Processo nº 00001.001716/2025-81.

A área técnica do Ministério da Defesa discutiu uma mudança objetiva: retirar o piso nominal fixo e estabelecer que o valor mínimo do auxílio correspondesse novamente ao soldo de Cabo Engajado.

Segundo a Nota Técnica obtida e reproduzida pela Sociedade Militar, Marinha, Exército e Aeronáutica apresentaram manifestações favoráveis à continuidade da proposta.

A Marinha estimou necessidade de suplementação de R$ 16,5 milhões em 2025 e R$ 37 milhões em cada um dos anos de 2026 e 2027.

O Exército informou concordar com a alteração e declarou que os impactos poderiam ser absorvidos pela ação orçamentária destinada ao pagamento de pessoal da própria Força.

A Aeronáutica também apresentou parecer favorável naquele processo e estimou impacto de aproximadamente R$ 10,29 milhões em 2025 e R$ 21,82 milhões em 2026 e em 2027, registrando disponibilidade orçamentária para a despesa.

A Coordenação-Geral de Política de Remuneração Militar do Ministério da Defesa também se alinhou à proposta, defendendo que o piso deixasse de ser um número fixo e passasse a acompanhar o soldo do Cabo Engajado.

O texto sugerido estabelecia que o auxílio fosse pago em 7,5 cotas de soldo ou no valor correspondente ao soldo de Cabo Engajado, prevalecendo o maior.

A discussão, portanto, já havia ultrapassado a fase de uma reivindicação genérica: houve estudo técnico, consulta aos três comandos, estimativa de impacto orçamentário e formulação de uma possível mudança legislativa.

Nova cobrança voltou ao Executivo em 2026

Plenário do Senado.Fonte: Senado Notícias.
Plenário do Senado.Fonte: Senado Notícias.

Depois dessa movimentação, outra iniciativa parlamentar colocou novamente o reajuste no caminho do governo federal.

A Indicação nº 3.141/2025, apresentada pelo deputado Aureo Ribeiro em dezembro de 2025, incluiu entre suas solicitações o reajuste do valor mínimo do auxílio-invalidez.

A tramitação oficial mostra que a Câmara enviou a indicação à Casa Civil da Presidência da República em 25 de fevereiro de 2026.

Pouco mais de três meses depois, em 1º de junho de 2026, a Câmara registrou o recebimento da resposta enviada pela Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República. Atualmente, a proposição aparece na Câmara como “Aguardando Remessa ao Arquivo”.

Uma indicação parlamentar não altera a lei. Esse instrumento é utilizado para sugerir que outro Poder ou órgão adote determinada providência.

Para que o piso de R$ 1.520 seja efetivamente substituído na legislação, é necessário percorrer o processo legislativo correspondente.

Aeronáutica reconheceu em 2026 que piso nominal não muda desde 2012

Entre os documentos da resposta de 2026 está um ofício do Comando da Aeronáutica datado de 8 de abril.

Nele, a própria Força reconheceu expressamente que “o piso nominal não tenha sido atualizado desde 2012”. Ao mesmo tempo, argumentou que o auxílio mantém relação com o soldo do militar e que os reajustes concedidos ao soldo ao longo dos anos podem atenuar eventual defasagem quando o cálculo pelas cotas resulta em valor superior ao mínimo.

A Aeronáutica também afirmou que a mudança do valor mínimo depende de lei em sentido formal, de iniciativa do Presidente da República, e que o Comando não poderia adotar autonomamente a alteração proposta. Consulte a resposta oficial do Comando da Aeronáutica na Câmara

Essa manifestação de 2026, isoladamente, não permite concluir que a Aeronáutica tenha revogado formalmente o parecer favorável apresentado durante a análise técnica anterior. Os dois documentos foram produzidos em contextos administrativos diferentes.

O que os registros permitem afirmar é que, em 2026, a Força reconheceu a ausência de atualização nominal desde 2012 e apontou que uma eventual mudança depende de alteração legislativa.

Quantos militares recebem hoje o auxílio-invalidez?

Os documentos públicos ainda deixam uma lacuna sobre a dimensão atual do benefício.

A Sociedade Militar não localizou, nas fontes oficiais consultadas, um quantitativo atualizado de 2026 mostrando quantos militares recebem atualmente o auxílio-invalidez e quantos deles dependem especificamente do piso de R$ 1.520.

Há, porém, um dado oficial anterior que mostra a escala alcançada pelo benefício.

Em auditoria referente às contas de 2021, o Tribunal de Contas da União identificou 8.595 beneficiários que já possuíam o auxílio-invalidez concedido.

O TCU apontou ainda R$ 1.839.914.295,96, cerca de R$ 1,84 bilhão, em despesas futuras com esses benefícios que não haviam sido reconhecidas adequadamente na mensuração do passivo atuarial.

O Tribunal registrou que a distorção contábil foi corrigida no exercício seguinte. Os 8.595 beneficiários correspondem à base examinada em 2021. Esse número não representa a quantidade atual de beneficiários em 2026.

O dado mostra que o auxílio já alcançava milhares de militares e deixa aberta uma pergunta que os documentos públicos atuais ainda não respondem: quantos recebem hoje o benefício e, entre eles, quantos dependem efetivamente do piso de R$ 1.520?

Depois de anos de cobranças e análises, a lei continua trazendo R$ 1.520

Na legislação, o resultado concreto permanece o mesmo. A redação vigente da Lei nº 11.421/2006 continua estabelecendo, em seu artigo 2º-A, que o auxílio-invalidez será pago em 7,5 cotas de soldo ou R$ 1.520, o que for maior.

Em torno desse mesmo valor, porém, acumulou-se uma longa sequência de movimentações.

O Congresso levou a questão ao Executivo em diferentes momentos. O assunto reapareceu formalmente em 2025. O Ministério da Defesa analisou uma alternativa. Os três comandos militares se manifestaram dentro desse processo. Houve estimativas de impacto financeiro. Em 2026, uma nova indicação chegou à Casa Civil e uma resposta oficial retornou à Câmara.

Mesmo depois de todo esse percurso, o piso escrito na lei continua sendo o mesmo de julho de 2012: R$ 1.520.

Os documentos públicos disponíveis também não sustentam afirmar que a proposta tenha sido “engavetada”, “abandonada” ou definitivamente rejeitada.

A própria Câmara informa que seu sistema não acompanha as providências adotadas fora da Casa Legislativa. O registro público mostra a remessa à Casa Civil, a resposta recebida em junho e o estágio atual da indicação, mas não permite transformar a ausência de uma nova lei em conclusão sobre eventuais providências internas de outros órgãos.

Até setembro de 2026, o que aparece nas bases legislativas consultadas é objetivo: não há alteração aprovada que substitua os R$ 1.520 previstos na Lei nº 11.421/2006.

Depois de 14 anos, a discussão já não se resume à perda de valor do piso ao longo do tempo. Congresso, Presidência da República, Ministério da Defesa e as três Forças já passaram novamente pelo tema, mas a legislação ainda não chegou a uma nova regra para o valor mínimo do auxílio-invalidez.

Você acha que o piso deveria voltar a acompanhar o soldo de Cabo Engajado? Deixe sua opinião nos comentários e compartilhe esta reportagem com outros militares, veteranos e familiares.

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