A marca de abate de F-22 mais famosa do mundo foi pintada depois de um treino em Nellis, em 2009, e nunca teve confirmação oficial americana.
Em 12 de junho de 2026, a Força Aérea Brasileira encerrou na Base Aérea de Anápolis duas semanas de treino de combate aéreo visual, aquele em que os pilotos se enxergam e brigam a poucos quilômetros. Voaram o F-39E Gripen, o F-5M, projeto dos anos 1960 modernizado, e o A-1M. A parte final foram cenários de 2 contra 1, com aviões de tipos diferentes de cada lado.
Treino igual a esse, feito nos Estados Unidos, rendeu a fotografia que volta a circular a cada poucos meses: um avião da Marinha americana com a silhueta de um caça F-22 pintada abaixo da cabine, a marca de abate. A cena é de 2009. O F-22 é o caça mais caro já construído, US$ 334 milhões por unidade na conta que divide o programa pelo número de aviões entregues, ou R$ 1,72 bilhão pelo dólar de 23 de setembro de 2026.
A silhueta pintada na cabine é real. A data quase nunca aparece
A foto é de Stephen Trimble, então repórter da FlightGlobal, feita na Joint Base Andrews em 2009. O avião é o EA-1, primeiro dos dois F/A-18F do Lote 27 convertidos em protótipo do EA-18G Growler.
Pelo relato de Trimble, ela se referia a um treino em Nellis, em Nevada, com disparo simulado de AIM-120 AMRAAM, o míssil ar-ar guiado por radar. Perguntado como conseguiu o tiro, o piloto não quis responder. A data exata do engajamento nunca foi publicada.
O site americano 19FortyFive republicou esse material com títulos novos pelo menos quatro vezes em 2026, em fevereiro, maio, agosto e em 10 de setembro. A versão de setembro, assinada por Brandon Weichert, trata do Rafale francês, também de 2009. Nenhuma das quatro traz fato novo.
O avião que marcou o abate não é um caça barato
O EA-18G Growler é um Super Hornet de dois lugares adaptado para guerra eletrônica, feito para cegar radar inimigo, e custa perto de US$ 68 milhões, R$ 349,6 milhões de hoje. Não é o caça agressor pequeno que circula nas versões do caso.
O F-22 foi construído para matar longe, antes de ser visto, e os Estados Unidos aceleram agora a produção do AIM-260, o míssil de maior alcance dos caças furtivos. Levar um avião desses para uma briga a dois quilômetros é testá-lo onde ele não foi projetado para ganhar.
Por que US$ 334 milhões e US$ 143 milhões são o mesmo avião
O número das manchetes é uma conta de jornalismo, não um preço da Força Aérea americana: ele divide o programa inteiro, pesquisa, desenvolvimento e produção, pelo número de aviões entregues. A ficha técnica oficial do F-22 no site af.mil não abre, e devolve erro 403.
O valor de fábrica que circula a partir dessa ficha, US$ 143 milhões em dólares de cerca de 2009, mede o custo de produzir mais uma unidade. São R$ 735,2 milhões pela PTAX de venda de 23 de setembro de 2026, a R$ 5,1414 por dólar. Nenhum dos dois é corrigido pela inflação.
Winslow Wheeler, do Project On Government Oversight, refez a conta em 2009 com o Selected Acquisition Report do Pentágono e chegou a US$ 350,1 milhões por avião, dividindo US$ 64,540 bilhões por 184 aeronaves. O que empurra a conta para cima é o corte: a Força Aérea queria 750 caças furtivos e recebeu 187.
Em exercício, quem escreve a regra escolhe quem ganha
Exercício de combate aéreo não é campeonato. Quem monta o treino define a distância inicial, quem começa vendo quem, quantos aviões ficam de cada lado e o que cada um pode usar. O próprio 19FortyFive escreve que o F-22 foi forçado a um combate visual pré-determinado, em ambiente controlado.
A configuração muda o resultado. No Red Flag do Alasca de 2012, os F-22 voavam com tanques externos, que estragam a assinatura de radar e pesam na manobra. Os pilotos alemães disseram que, sem os tanques, o Typhoon se saía melhor no combate visual.
Sensor e arma entram limitados por regra, parte por segurança da informação, parte para forçar o treino que se quer. O F-22 esconde no ar de exercício o que tem de melhor, e segue recebendo equipamento novo: em setembro de 2026 apareceu na Califórnia com pods furtivos sob as asas.
Abate em exercício é um disparo declarado no rádio e arbitrado depois. Fox 2 é o código do míssil infravermelho, e Fox 3, do míssil guiado por radar. Nenhum metal sai do trilho.
Antes do Growler, o Rafale francês e o Typhoon alemão
Em novembro de 2009, caças F-22 treinaram em Al Dhafra, nos Emirados Árabes Unidos, ao lado de Rafale franceses. Em dezembro, o Ministério da Defesa da França divulgou imagens da câmera frontal de um Rafale com um F-22 em posição desfavorável, e pilotos americanos contestaram a leitura, sem documento oficial.
Em 2012, a Luftwaffe levou oito Eurofighter Typhoon ao Red Flag do Alasca para combate manobrado contra o F-22. Em 18 de julho daquele ano, o fotógrafo Dietmar Fenners registrou em Neuburg dois Typhoon com marcas de abate de F-22 na deriva. Cinco dias antes, em Farnborough, um piloto alemão disse que na véspera eles tinham comido salada de Raptor no almoço.
A frase da salada viajou o mundo. A do major Marco Gumbrecht, um dos pilotos alemães, não: ele disse no mesmo ano que, com tudo certo no combate além do alcance visual, não chegaria a menos de 20 milhas do F-22, cerca de 37 quilômetros. O coronel Andreas Pfeiffer chamou de esmagadoras as capacidades do F-22 fora da briga curta.
Em Anápolis, o Brasil treina exatamente isto
O exercício brasileiro tem nome e dono: chama-se Exercício Técnico de Combate Aéreo Visual Dissimilar, foi conduzido pelo Comando de Preparo da FAB e terminou em 12 de junho de 2026. O site da FAB também devolve erro 403, mas o informe está reproduzido na publicação Força Aérea, que credita a FAB.
Voaram o Esquadrão Jaguar, com Gripen, o Jambock e o Pampa, com F-5M, e o Esquadrão Poker, com A-1M. O treino partiu dos fundamentos e terminou em cenários dissimilares de 2 contra 1, para avaliar características, vantagens, limitações e aplicações táticas de cada plataforma. Um piloto de Gripen resumiu que o aprendizado das duas semanas foi imensurável.
Ninguém no Brasil saiu de Anápolis escrevendo que o Gripen é ruim porque um caça dos anos 1960 marcou um lance contra ele. É treino de limitação, não disputa de melhor avião. O mesmo Gripen voou de 11 a 29 de maio de 2026 no Escudo-Tínia, na mesma base, e entre 29 de junho e 11 de julho estreou fora do país, com seis F-39E no Salitre 2026, no Chile.
Um lance ganho não é uma guerra ganha
O que esse resultado prova é real e útil: um caça de quarta geração, sabendo onde o adversário está e colocado perto de um F-22 restrito de configuração e de sensor, pode ganhar um lance. O que ele não prova é que o F-22 seja ruim, caro à toa ou perdedor em combate.
David Cenciotti, do The Aviationist, que publicou as fotos das marcas alemãs, escreveu que abates simulados em combate manobrado dissimilar não provam que um avião é melhor que outro, e são quase sem sentido sem que se conheçam as regras de engajamento e o cenário do treino. A ressalva vale para alemães, franceses e Anápolis.
Abate de verdade tem outra aparência. Em 1999, uma bateria sérvia operando radar soviético dos anos 1960 derrubou um F-117 sobre a Iugoslávia. O primeiro abate aéreo real de um EA-18G só veio em julho de 2024, pelo VAQ-130, do porta-aviões USS Dwight D. Eisenhower, contra um drone, em episódio confirmado pela Marinha americana.
Nada disso se confunde com o F-15E americano atingido em 2026, primeiro por fogo amigo kuwaitiano e, um mês depois, por um míssil iraniano. Aquilo foi combate real. Exercício e guerra usam o mesmo vocabulário e não são a mesma coisa.
A silhueta pintada no Growler segue sendo a imagem mais compartilhada da discussão, e segue sem data ao lado. A data é 2009, e o engajamento nunca ganhou nota oficial nem placar publicado. O que tem data, esquadrões e objetivo escrito é o treino que terminou em Anápolis em 12 de junho de 2026.