O candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro Wagner Coelho, militar da Marinha do Brasil, publicou um vídeo em frente ao Hospital Naval Marcílio Dias (HNMD), no bairro de Lins de Vasconcelos, Zona Norte do Rio. Nele, relata ter sido retirado do local na semana anterior por militares da Força porque panfletava perto da unidade. Segundo ele, no mesmo trecho, apoiadores de candidatos civis circulavam com bandeiras e não eram incomodados.
O vídeo foi gravado essa semana. Wagner Coelho concorre pelo partido Democracia Cristã ao cargo de Deputado Federal e aponta o que considera tratamento desigual. Ele também cita a presença de flanelinhas que, segundo seu relato, “achacam” motoristas que estacionam nas imediações do hospital, frequentado diariamente por militares da reserva, dependentes e pensionistas.
O que disse o candidato
A fala foi gravada na porta do hospital. “Bom dia, bom dia, tropa. Eu estou aqui na porta do Marcílio Dias. Semana passada eu fui retirado daqui deste local. Por quê? Porque eu estava panfletando muito próximo. Mas o engraçado é que o civil lá atrás, ó, vocês vão ver… tem civis com bandeira ali atrás, e ninguém fala nada”, afirmou.
Em seguida, o candidato chama atenção para o entorno. “A gente vê aqui os flanelinhas ali achacando a galera… Tudo isso pode, mas o candidato militar é difícil para a gente, a gente não pode. E olha que eu nem estou com bandeira.”
Ele encerra dizendo que um apoiador de outro candidato teria entrado no hospital e tirado fotos sem ser abordado. “O paisano foi lá dentro, tirou foto ali dentro, e ninguém… até agora não apareceu ninguém. Mas o Wagner não pode.”

O que diz a legislação eleitoral
A Lei nº 9.504/1997, a Lei das Eleições, proíbe no artigo 37 a propaganda eleitoral de qualquer natureza em bens públicos e em bens de uso comum. Um hospital militar é bem público sob administração da Marinha. Entretanto, pelo que se sabe, a calçada e a rua em frente ao portão, porém, não fazem parte das dependências do hospital. São vias públicas do município, fora da área sob administração militar.
Um militar ouvido pela reportagem menciona que acredita que não é area sob juridisção da Marinha: “se fosse da responsabilidade da Marinha as autoridades militares não permitiriam camelôs, ambulantes, tráfico de drogas, esses homens trafegando de motocicleta sem placas e os flanelinhas, que não deixam nem a gente chegar aqui direito… “.
O artigo 38 da mesma lei permite a distribuição de folhetos, adesivos, volantes e outros impressos, sem necessidade de licença municipal ou autorização da Justiça Eleitoral. Na prática, o panfletaço em calçadas e vias públicas é permitido, desde que não ocorra dentro de bens públicos nem atrapalhe a circulação.
A legislação é a mesma para candidatos civis e militares. Nenhum dispositivo da Lei das Eleições prevê regra de distância específica para militares candidatos em frente a organizações militares. O que o relato de Coelho questiona é justamente se o critério aplicado no portão do HNMD foi o mesmo para todos.
A situação do militar candidato
A Constituição Federal, no artigo 14, parágrafo 8º, estabelece que o militar alistável é elegível. Se tiver menos de dez anos de serviço, deve se afastar da atividade. Se tiver mais, será agregado pela autoridade superior e, se eleito, passará para a inatividade no ato da diplomação.
Enquanto agregado, o militar da ativa continua sujeito ao Estatuto dos Militares (Lei nº 6.880/1980) e aos regulamentos disciplinares da Força. Esse vínculo costuma gerar dúvidas sobre os limites da atuação de campanha perto de organizações militares, sobretudo quando o candidato é conhecido do público interno.
Um entorno marcado pela violência
O Hospital Naval Marcílio Dias é a principal unidade hospitalar da Marinha e fica cercado por comunidades com presença de grupos armados ligados ao tráfico de drogas. Confrontos na região afetam com frequência a rotina de pacientes, acompanhantes e servidores.
Em dezembro de 2024, uma médica militar da Marinha, na Força desde 1995, foi atingida por um disparo dentro do hospital durante um tiroteio ligado a uma operação policial nas proximidades. Ela morreu em decorrência do ferimento. Segundo levantamento divulgado à época, foi a 105ª vítima de bala perdida na Grande Rio naquele ano.
Após a morte da oficial, a Marinha anunciou que intensificaria a segurança no entorno da unidade. Um suspeito de participação no episódio foi morto posteriormente pelo Bope, e a perícia investigou a casa de onde teria partido o tiro.
Flanelinhas e dependentes
A queixa sobre flanelinhas repete relatos de usuários do hospital, que precisam estacionar nas ruas próximas para consultas, exames e visitas a internados. A cobrança irregular por vagas em via pública é problema recorrente no Rio de Janeiro.
Por ficar fora da área sob administração militar, a fiscalização desse tipo de conduta não é atribuição direta da Marinha. O ponto levantado pelo candidato está no contraste: a abordagem a um militar que distribuía panfletos, enquanto outras situações no mesmo trecho seguem, segundo ele, sem qualquer intervenção.
O que falta esclarecer
Não há, até o momento, manifestação pública da Marinha sobre o episódio. Também não se sabe se houve registro formal da abordagem ou se algum candidato acionou a Justiça Eleitoral. O espaço está aberto para manifestação do Centro de Comunicação Social da Marinha e do Hospital Naval Marcílio Dias.
As eleições gerais de 2026 terão o primeiro turno em 4 de outubro. Até lá, o entorno do Marcílio Dias, um dos pontos de maior concentração de eleitores militares e dependentes no Rio, deve continuar sendo disputado por candidatos de todas as origens.
A reportagem entrou em contato com a Marinha do Brasil e ainda não recebeu resposta sobre a abordagem, se houve abertura de inquérios e se a força também impede candidatos civis de realizarem campanah política na rua Cézar Zama, onde fica a entreda principal da instituição.