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Comprados do Brasil em 1982, os 121 blindados Cascavel da Colômbia vão ser cortados e vendidos como sucata por menos do que o país gastou para mantê-los

Jefferson Silva
Por Jefferson Silva 24/09/2026 às 11:06
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Comprados do Brasil em 1982, os 121 blindados Cascavel da Colômbia vão ser cortados e vendidos como sucata por menos do que o país gastou para mantê-los
Blindado EE-9 Cascavel do Exército Nacional da Colômbia, com militares colombianos ao fundo. Foto: Taggen, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 3.0.

O Exército colombiano espera receber R$ 1,13 milhão pelo aço dos veículos que a Engesa entregou, e o Uruguai ainda dá curso de tiro com o mesmo blindado.

Em 1982 a Colômbia comprou 128 blindados EE-9 Cascavel de uma fábrica de São José dos Campos. Em 23 de setembro de 2026, o site Forças Terrestres detalhou o processo aberto pela Direção de Aquisições do Exército colombiano: a empresa contratada assume a custódia dos veículos, promove a destruição irreversível e entrega registro fotográfico da operação. A fabricante, a Engesa, faliu em 1993.

O que a Colômbia encerra é a participação dela na maior exportação de blindado do Brasil, o caminho inverso do material usado que o país compra hoje lá fora. O mapa dessa venda continua de pé sem ela: o Uruguai deu curso de tiro com o mesmo veículo em agosto de 2026, e o Chipre ainda discutia modernizar os seus em 2023.

O contrato manda cortar os blindados e fotografar o corte

O processo não é uma venda de material usado, e sim uma desmilitarização com prova documental do corte, que reduz a chance de algum reaparecer em outro exército. Entram na mesma lista os blindados de transporte EE-11 Urutu, os carros-oficina EE-15 e EE-25, peças e ferramentas.

O valor estimado da alienação é de 707 milhões de pesos colombianos. Pela taxa oficial de câmbio da Colômbia em 23 de setembro de 2026, de 3.208,66 pesos por dólar, são US$ 220.341, ou R$ 1,13 milhão pelo PTAX do mesmo dia. O número aparece só na publicação do Forças Terrestres, sem identificação do processo.

O dinheiro corre no sentido inverso ao de uma compra. A revista colombiana Semana noticiou em 14 de setembro de 2026, atribuindo a informação a fontes do Exército, que é o contratado quem paga à força pelo aço da desintegração, e falou em mais de 120 veículos sucateados.

O Exército colombiano já tinha concluído que recuperar ou modernizar o material não seria viável, pela idade dos veículos e pela dificuldade de sustentação logística. A Engesa parou de existir em 1993, e nenhuma linha de montagem produz reposição original para o EE-9 desde então.

Em 2007, manter esses mesmos veículos foi orçado em 13,37 bilhões de pesos

Em 6 de agosto de 2007, o Exército colombiano abriu o processo 20-JELOG-DIBLI-2007, de serviços e peças para a manutenção maior dos EE-9 Cascabel e EE-11 Urutu. A quantia a contratar registrada no portal de compras públicas da Colômbia é de 13.374.521.566 pesos, valor nominal de 2007, sem correção aplicada.

Em pesos nominais, o que a Colômbia orçou em 2007 para manter os veículos de pé é quase dezenove vezes o que espera receber pelo aço deles. A comparação é de ordem de grandeza, e a inflação colombiana no período só aumenta a distância, porque o gasto é antigo e a receita é de agora.

A baixa foi anunciada em 2025, e a sucata é de agora

Os Cascavel colombianos pararam de ser usados entre 2022 e 2023. A retirada de serviço foi noticiada em 7 de agosto de 2025 pelo Infodefensa, e em 14 de setembro de 2025 o Pucará Defensa detalhou o processo administrativo de desmilitarização.

O que mudou em 2026 foi a decisão de destruir o material. A licitação apareceu na Semana em 14 de setembro de 2026 e voltou ao noticiário em 23 de setembro, com o valor estimado. O EE-11 Urutu entrou na mesma fila, segundo o Zona Militar de 18 de julho de 2026.

Sem canhão de 90 mm, a Cavalaria colombiana fica com metralhadora

Os números da frota não fecham entre si. A Colômbia comprou 128 Cascavel em 1982 segundo o Pucará, o Zona Militar e o Forças Terrestres, enquanto o Infodefensa registra 125. Um inventário posterior apontou 121 veículos, e 63 ainda estavam em serviço antes da baixa.

O armamento principal do Cascavel colombiano era o canhão Engesa EC-90, de 90 milímetros, derivado do Cockerill Mk.3. Os veículos incorporados depois, entre eles o M1117 Guardian 4×4 e o LAV III 8×8, trazem metralhadora, não canhão de grosso calibre. A compra de veículo com canhão de 105 ou 120 milímetros não integra os planos confirmados, e o Zona Militar chamou a decisão de oportunidade perdida em 31 de maio de 2026.

A Engesa vendeu 1.738 Cascavel antes de quebrar

O EE-9 entrou em produção em 1974, em São José dos Campos, e a Engesa vendeu 1.738 unidades até o fim da empresa, no levantamento da revista Euro-SD de 13 de abril de 2023. A Tanks Encyclopedia registra 1.742 vendidos e menos de 1.800 produzidos.

A empresa entrou em concordata em fevereiro de 1990, com dívida estimada entre US$ 507 milhões e US$ 600 milhões, e teve a falência decretada em outubro de 1993. O calote do Iraque e o tanque Osório, que nunca passou do protótipo, estão entre as causas apontadas pela Lexicar Brasil.

A exportação brasileira de blindado não terminou com a falência. A fábrica de Sete Lagoas, em Minas Gerais, fechou 156 veículos para a Argentina e 28 para as Filipinas, quarenta anos depois. A diferença é que o cliente da Engesa comprou de uma fabricante que deixaria de existir onze anos depois da entrega.

Onde o Cascavel ainda aparece, país por país

Não existe levantamento público recente que diga quantos Cascavel estão de pé no mundo. O que há é uma colcha de inventários de datas diferentes: o IISS Military Balance de 2021, o SIPRI de 2009 e o Forecast International de 1995. Um número de 1995 prova que alguém comprou, não que o veículo roda hoje.

A evidência mais recente é uruguaia. O Exército do Uruguai publicou em 14 de agosto de 2026 que o Centro de Instrucción de Blindados y Mecanizados concluiu um curso de EE-9 Cascavel de duas semanas, com tiro, manutenção de torre e condução noturna. O SIPRI atribuía 15 veículos ao país em 2009, e o Chipre, que comprou 124 no início dos anos 80, ainda discutia modernização em 2023.

Abaixo dessa faixa vem o inventário sem confirmação de campo. O IISS de 2021 registra 20 veículos no Chade e 14 no Gabão, e o SIPRI de 2009 lista 75 na Nigéria, 28 a 30 no Paraguai, 24 na Bolívia, 24 na Tunísia, 20 no Catar e 22 a 32 no Equador. O Forecast International de 1995 traz 24 em Burkina Faso, 7 no Marrocos, 3 em Gana, 29 na Frente Polisário e de 6 a 18 na Guiana. Mianmar aparece com 150 unidades num relatório da Human Rights Watch de 2007.

Há ainda quem comprou muito e manteve pouco. A Líbia adquiriu entre 380 e 500 veículos e tinha 70 operacionais em 2011; o Iraque, que recebeu mais de 230, aparecia com 35 em 2008, e o Zimbábue tinha 10 ativos e 77 em reserva no mesmo ano.

O levantamento da Euro-SD fala em mais de 20 nações que ainda listam o veículo, sem verificação de campo. O que a fonte aberta sustenta é que o Cascavel ainda aparece no inventário de mais de 20 países, com dados que em vários casos são de trinta anos atrás.

A Colômbia achou a modernização inviável, e o Brasil está modernizando

O Exército Brasileiro chegou à conclusão oposta sobre o mesmo chassi. O programa Cascavel Nova Geração, da Akaer com o Consórcio Força Terrestre, põe computador balístico, ótica térmica, sistema antidrone e dois lançadores de míssil anticarro no veículo, e o primeiro lote-piloto, de sete unidades, é de 2026.

O protótipo concluiu o teste de durabilidade no Centro de Avaliações do Exército, no Rio, em 31 de agosto de 2026. A frota brasileira não tem número atual em fonte aberta: o Forças Terrestres falava em 409 Cascavel em 2010, e o Infodefensa em mais de 200 operacionais em 2018.

Os últimos Cascavel inteiros da Colômbia estão em pedestal

Algumas unidades escaparam da lista. O Forças Terrestres registra que parte dos veículos já tinha sido preservada como monumento e como guardião de entrada em quartéis, a máquina fora de serviço postada no portão. São esses os Cascavel que continuarão inteiros no país.

O resto vai ser cortado, pesado e vendido como aço, e a prova do serviço desde 1982 será o registro fotográfico que o contratado tem de entregar. Quarenta e quatro anos depois da compra, o comprovante final de um negócio brasileiro de exportação é um álbum de veículos destruídos.

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