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Exército perde nas duas pontas: ESA cai de 149 mil para 72 mil candidatos enquanto sargentos já formados deixam a Força e 440 vagas tentam atrair a próxima geração de oficiais

Felipe Alves da Silva
Por Felipe Alves da Silva 28/09/2026 às 09:57
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Exército perde nas duas pontas: ESA cai de 149 mil para 72 mil candidatos enquanto sargentos já formados deixam a Força e 440 vagas tentam atrair a próxima geração de oficiais
Queda de candidatos à ESA, formação de novos oficiais e relatos de sargentos buscando renda extra ilustram o desafio do Exército para atrair e reter profissionais.

A queda de 52% na procura pela carreira de sargento se encontra com outro problema na saída: militares já treinados trocam as Forças Armadas por outras carreiras enquanto o Exército abre uma nova disputa por 440 futuros oficiais

O Exército Brasileiro enfrenta hoje duas disputas diferentes pelo mesmo recurso: gente.

De um lado, está a porta de entrada. O concurso da Escola de Sargentos das Armas (ESA) chegou a reunir 149.302 candidatos em 2022, mas terminou 2025 com 72.008 inscritos. Em três anos, desapareceram da disputa mais de 77 mil candidatos, uma retração de aproximadamente 52%. A relação candidato/vaga também caiu de 135 para 1 para 64 para 1.

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Do outro lado está a retenção. Reportagens da Revista Sociedade Militar vêm registrando militares que, depois de formados e já inseridos na carreira, pedem para sair, prestam novos concursos ou aceitam até retornar à base hierárquica em outra corporação. Em uma turma da Polícia Militar do Distrito Federal, por exemplo, 29 novos policiais tinham vindo das Forças Armadas, sendo 18 do Exército.

No meio dessas duas pontas, o próprio Exército acaba de movimentar outra engrenagem: 440 vagas da Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx) colocam uma nova geração na disputa pela carreira de oficial combatente. As provas do atual ciclo foram realizadas nos dias 12 e 13 de setembro de 2026.

São três fotografias de momentos diferentes da mesma carreira militar: quem pensa em entrar, quem está sendo formado e quem já decidiu procurar a saída.

ESA perdeu mais da metade dos candidatos depois do pico de 2022

Foto: Divulgação/EB

A trajetória da ESA é particularmente significativa porque a queda não começou de uma base historicamente baixa.

Dados reunidos pela RSM mostram que o concurso tinha 103 mil inscritos em 2020 e avançou para cerca de 126 mil em 2021. Em 2022 veio o auge: 149.302 candidatos.

Depois disso, a curva mudou de direção.

Foram três anos consecutivos de retração até os 72.008 inscritos de 2025, menos da metade do registrado no pico. No mesmo período, a concorrência caiu de 135 candidatos por vaga para 64.

Há outro indicador que acompanha essa mudança. Segundo levantamento publicado pela RSM, a nota final necessária para que a redação fosse corrigida no concurso de Admissão Geral de 2025 chegou a 4,982 para homens da ampla concorrência, menor patamar registrado desde a adoção desse critério pela ESA.

Para 2026, a escola abriu 1.100 vagas nas áreas Geral/Aviação, Saúde e Música. As inscrições, inicialmente programadas para terminar em 4 de maio, foram prorrogadas até 18 de maio. Quando a RSM publicou seu levantamento em junho, o total de inscritos daquele concurso ainda não havia sido divulgado, diferentemente da prática observada em anos anteriores.

A fotografia disponível, portanto, termina em 2025. Não é possível afirmar, apenas com os dados publicados pela RSM até então, que a queda tenha continuado em 2026.

O que já está documentado é suficientemente expressivo: entre o melhor resultado recente e 2025, a ESA perdeu 52% de sua base de candidatos.

O jovem entra na ESA e começa a olhar para a vida de quem já chegou a sargento

A discussão sobre atratividade não começa apenas quando o militar recebe as divisas.

Em 2026, a Revista Sociedade Militar reuniu relatos de alunos e familiares sobre desligamentos durante o período básico da Escola de Sargentos das Armas. Desistências durante a formação não são novidade: a adaptação envolve disciplina rígida, desgaste físico, pressão psicológica, serviços e uma mudança intensa de rotina.

O elemento diferente relatado naquele momento apareceu naquilo que os próprios alunos enxergavam pela frente.

Segundo os relatos publicados pela RSM, estudantes passaram a questionar o futuro profissional ao ouvir histórias de sargentos já formados trabalhando como motoristas de aplicativo, inclusive Uber, fora do expediente para complementar a renda. Em alguns casos, também teriam ouvido dos próprios militares reclamações sobre dificuldades financeiras e desgaste acumulado ao longo da carreira.

Uma mãe de aluno relatou à época que três estudantes teriam deixado a formação em um único dia. Outros relatos mencionavam desligamentos sucessivos mesmo depois da chamada “Semana Zero”, período tradicionalmente associado às maiores dificuldades de adaptação. Esses dados vieram de alunos e familiares e não representam uma estatística oficial da ESA sobre as causas de cada desligamento.

Essa diferença é importante. Não se pode afirmar que um aluno deixou a escola simplesmente porque viu um sargento trabalhando como Uber. O que a reportagem documentou foi que a imagem do sargento recorrendo a uma segunda atividade entrou no debate dos próprios alunos sobre salário, carreira e perspectiva profissional.

A questão voltou a aparecer em outras reportagens da RSM. Em junho, uma discussão envolvendo um influenciador militar e integrantes das Forças Armadas mostrou que o incômodo não estava necessariamente no trabalho de motorista de aplicativo em si, mas na percepção de que um militar de carreira poderia precisar de uma segunda jornada depois do expediente para complementar a renda.

Em setembro, a revista voltou ao assunto ao mostrar que os relatos de “sargento Uber” já haviam chegado ao ambiente de formação da ESA e participado das conversas sobre remuneração e futuro profissional entre os alunos.

O efeito simbólico é forte: o aluno suporta meses de adaptação e olha justamente para o profissional que representa uma das etapas do futuro que pretende alcançar. Quando encontra esse sargento buscando renda adicional fora do quartel, a pergunta deixa de ser apenas “consigo terminar o curso?” e passa a ser também “é essa a carreira que quero ter depois de formado?”

O jovem que entra na ESA começa recebendo R$ 1.309

A discussão sobre atratividade ganha outro contorno quando se observa o início da carreira.

De acordo com tabela publicada pela RSM para 2026, o aluno da Escola de Formação de Sargentos recebe soldo de R$ 1.309. Já um terceiro-sargento tem soldo de R$ 4.177. A remuneração efetiva pode ser superior ao soldo porque incorpora adicionais e outras parcelas previstas na estrutura remuneratória militar.

O problema não está simplesmente em comparar o salário de um aluno com o de um profissional formado. A formação militar oferece alojamento, alimentação, fardamento e estrutura de ensino, algo que altera a comparação direta com um emprego civil.

A questão aparece mais adiante, quando o profissional já formado passa a comparar sua carreira com outras oportunidades públicas.

A própria RSM registrou relatos de alunos que deixaram a formação da ESA e publicou depoimentos relacionando a decisão a remuneração, progressão profissional e percepção sobre o futuro da carreira. Essas reportagens são baseadas em relatos e não substituem uma estatística oficial de evasão da escola, mas mostram que a discussão chegou até quem já havia vencido a primeira barreira do concurso.

É justamente aí que as duas pontas começam a se encontrar: não basta atrair o jovem para o concurso se, depois de ingressar, ele passa a observar outras carreiras como alternativa.

Depois de formado, o sargento também olha para fora do quartel

Em setembro de 2026, a RSM mostrou um exemplo concreto dessa disputa por profissionais.

Dados obtidos pela revista junto à Polícia Militar do Distrito Federal revelaram que 29 integrantes de uma turma de formação da PMDF eram egressos das Forças Armadas.

A divisão chama atenção: 18 vieram do Exército, 6 da Força Aérea e 5 da Marinha.

Em alguns casos, a mudança produz uma inversão difícil de ignorar. Um militar que já chegou à condição de sargento nas Forças Armadas pode deixar uma graduação conquistada para iniciar outra carreira pela base hierárquica da Polícia Militar.

O fenômeno também apareceu fora de Brasília.

Outra apuração da RSM junto à Polícia Militar do Rio de Janeiro constatou 29 egressos das Forças Armadas entre 518 alunos de uma turma do Curso de Formação de Praças iniciada em agosto de 2025, aproximadamente 6% daquele grupo.

Os dados não permitem afirmar que exista uma saída generalizada de todos os sargentos do Exército para as polícias militares. Também não mostram quantos militares deixam a Força a cada ano exclusivamente por causa do salário.

Mostram algo mais específico: outras instituições públicas estão conseguindo recrutar profissionais que o sistema militar federal já selecionou e, em alguns casos, já formou.

Para uma organização que depende de carreiras longas, o problema de pessoal não termina quando a vaga do concurso é preenchida.

Enquanto a ESA encolhe, a EsPCEx disputa 440 futuros oficiais

Cadetes da AMAN durante treinamento operacional do Exército Brasileiro para guerras híbridas e operações estratégicas.
Redução no número de inscritos da EsPCEx reacende discussões sobre carreira militar e formação de oficiais do Exército Brasileiro.

Na outra grande porta de entrada da Força Terrestre, o cenário é diferente.

O concurso da EsPCEx oferece 440 vagas para quem pretende seguir a carreira de oficial combatente do Exército. A edição anterior havia reunido 18.742 inscritos, segundo levantamento publicado pela RSM.

Quem vence essa disputa começa uma formação de cinco anos: primeiro na EsPCEx, em Campinas, e depois por quatro anos na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende.

A RSM mostrou que uma turma de exatamente 440 jovens iniciou essa formação em fevereiro de 2026, em cerimônia acompanhada pelo comandante do Exército.

Financeiramente, é uma carreira com um contraste muito grande entre formação e conclusão.

O aluno da EsPCEx recebe soldo de R$ 1.294 nos anos iniciais e R$ 1.309 no último ano. Durante os primeiros anos como cadete da AMAN, o soldo chega a R$ 1.457, avançando para R$ 1.780 no último ano.

Quando termina o ciclo e é declarado aspirante a oficial, o soldo passa para R$ 7.988. Como segundo-tenente, sobe para R$ 8.179.

A diferença é parte da lógica própria da carreira: durante os cinco anos, o militar está em formação e conta com uma estrutura custeada pelo Estado.

Mas existe uma pergunta inevitável quando esses números são colocados ao lado dos dados de evasão: quanto desse investimento permanece dentro da Força depois da formatura?

O Exército não perde apenas praças

A discussão fica maior quando se observa o oficialato.

Entre 1º de junho e 22 de julho de 2026, levantamento da RSM encontrou 48 oficiais das três Forças envolvidos em processos de saída: 40 já haviam sido demitidos e oito estavam agregados após pedidos de demissão.

Na distribuição apresentada pela revista, 11 eram do Exército, 15 da Marinha e 14 da Aeronáutica entre as demissões analisadas, além dos casos ainda em processo. Engenheiros, aviadores e médicos apareciam com destaque entre os perfis atingidos.

Nem todos representam evasão voluntária. A própria apuração separou as situações: das 40 demissões concluídas, 28 ocorreram a pedido e 12 de ofício. Parte dos desligamentos de ofício estava relacionada à posse em cargo público permanente fora da carreira militar; outros tinham fundamentos distintos.

Essa distinção importa porque números brutos podem produzir uma leitura errada.

Ainda assim, as 28 saídas voluntárias identificadas naquele intervalo inferior a dois meses mostram que o desafio de retenção não está restrito aos graduados.

É justamente a EsPCEx que começa a formar hoje alguns dos oficiais que o Exército precisará convencer a permanecer décadas dentro da instituição.

Formar é só metade do problema

Vista isoladamente, a queda de inscritos da ESA poderia ser tratada apenas como uma oscilação de concurso.

Os 29 egressos das Forças Armadas encontrados em uma turma da PMDF poderiam ser tratados como casos individuais.

As 440 vagas da EsPCEx poderiam virar somente mais uma notícia sobre concurso público.

Juntos, porém, esses números contam outra história.

O Exército precisa continuar atraindo candidatos suficientes, formar esses jovens durante anos e, depois, oferecer perspectivas capazes de mantê-los na carreira quando eles começarem a comparar sua remuneração, rotina e progressão com as oportunidades existentes fora dos quartéis.

Entre os 149 mil candidatos que disputavam a ESA em 2022 e o sargento que hoje aparece trabalhando como motorista de aplicativo ou prestando concurso para outra instituição existe todo o ciclo que o Exército precisa administrar: atração, formação e retenção. Os números publicados pela RSM mostram que a pressão aparece nas três etapas.

A ESA já mostrou uma mudança perceptível na primeira etapa dessa equação: 149.302 candidatos em 2022 se transformaram em 72.008 três anos depois.

Na outra ponta, militares formados aparecem entre os aprovados em concursos de outras corporações, inclusive aceitando recomeçar hierarquicamente como soldados.

E, entre uma ponta e outra, 440 candidatos da EsPCEx disputam agora o direito de iniciar uma formação de cinco anos para ocupar o oficialato do futuro.

O desafio, portanto, já não cabe apenas na pergunta sobre quantos jovens conseguem entrar.

A questão que os próprios números publicados pela RSM colocam é outra: quantos ainda vão querer entrar e, quantos dos que entrarem vão querer ficar?

guest
16 Comentários
Eduardo
Eduardo
28/09/2026 12:28

Um detalhe que me chamou atenção durante o serviço militar foi o nível dos sargentos formados pela ESA. O Exército deveria selecionar os formados ou formandos aproveitando-os através de um curso de complementação para oficiais ou integrando-os aos quadros da AMAN.

Eduardo
Eduardo
28/09/2026 12:20

Um detalhe que me marcou durante o serviço militar foi o nível dos sargentos da ESA. O Exército na minha opinião deveria aproveitá-los selecionando, em um quadro a parte de complementação para oficiais, ou integrando-os aos quadros da AMAN.

Alex
Alex
28/09/2026 12:13

Reflexo da decadência moral do alto comando das Forças

tjl
tjl
28/09/2026 10:25

Além das perguntas da RSM também pode-se perguntar o motivo para não se aproveitar os temporários…Sei que vai vir um monte de gente falando um monte de papagaiada, dizendo que a lei não permite, que a lei não prevê, no entanto, se houver vontade das FFAA, pode-se aproveitar dentro dos próprios quadros das FFAA e dar oportunidade para quem a FFAA formou

Garibaldi Pereira
Garibaldi Pereira
28/09/2026 16:10
Responder para  tjl

Se houver vontade, pode? E a lei? Esse raciocínio não colou nem na tentativa do golpe.

Alexandre Daniel Santos Rochstar defasado a anos.
Alexandre Daniel Santos Rochstar defasado a anos.
28/09/2026 10:24

Tem mesmo é que sair fora e ir para outro órgão como a PMDF,que paga muito melhor um SD ganha mais que um Sg das forças armadas kkkkkk

Oliveira
Oliveira
28/09/2026 10:18

Infelizmente a carreira de praças das das Armadas estão em decadência, baixos salários, interstício longos, desmotivação, sistema de saúde sucateados, sem credibilidade e com pires na mão. Muitos recorrendo a bicos pra complementar a renda.