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Marinha do Brasil encara missão incomum no extremo Norte, mede o fundo do mar onde faltavam dados, calcula a maré ideal e cria uma rota de 45 km para salvar navio estrangeiro encalhado

Após perder a propulsão a cerca de 300 km de Santana, o Shri Ganesha encalhou no Amapá e só pôde ser retirado depois que a Marinha mapeou um corredor de 45 km e criou uma tábua de marés específica para a operação.

Noel Budeguer
Por Noel Budeguer Atualizado em 24/09/2026 às 18:21·publicado em 24/09/2026
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Marinha do Brasil encara missão incomum no extremo Norte, mede o fundo do mar onde faltavam dados, calcula a maré ideal e cria uma rota de 45 km para salvar navio estrangeiro encalhado
O Shri Ganesha aparece à frente durante a operação coordenada pela Marinha do Brasil na costa do Amapá. Crédito: Marinha do Brasil.

O Shri Ganesha no Amapá ficou sem propulsão, derivou sob ventos e correntes e terminou encalhado em uma região rasa onde não havia dados cartográficos suficientes para planejar uma retirada segura. Para tirar o mercante de bandeira da Tanzânia dali, a Marinha do Brasil precisou transformar o salvamento em uma operação de hidrografia: foram mapeados 45 km de corredor navegável até águas já conhecidas.

O pedido de socorro chegou ao SALVAMAR NORTE em 30 de agosto de 2026. Naquele momento, o navio apresentava alagamento na praça de máquinas, havia perdido a propulsão e levava nove tripulantes. Ele navegava a cerca de 161 milhas náuticas, aproximadamente 300 km, ao norte de Santana, no Amapá.

A resposta se estendeu por cerca de três semanas e mobilizou navios-patrulha, um navio hidrográfico, o Comando do 4º Distrito Naval, a Capitania dos Portos do Amapá, Petrobras, Bram Offshore e um rebocador empregado na Margem Equatorial. O reboque terminou em 21 de setembro, com os nove tripulantes em segurança e sem registro de dano ambiental.

Falha na praça de máquinas deixou o navio à deriva a cerca de 300 km de Santana

A emergência começou com uma avaria na praça de máquinas. Além da perda de propulsão, havia alagamento, o que levou a Marinha a mobilizar apoio para controlar a entrada de água e manter a tripulação abastecida enquanto a situação era avaliada.

Sem capacidade de manobra, o Shri Ganesha ficou sujeito às condições locais. Ventos fortes e correntes marítimas empurraram o mercante até uma área assoreada e de baixa profundidade, onde ele encalhou a cerca de 3,5 milhas náuticas, ou 6,4 km, da Ilha de Maracá.

Óleo combustível a bordo aumentava o risco enquanto o casco apoiava no fundo

O encalhe trouxe uma preocupação adicional. A embarcação transportava óleo combustível e permanecia apoiada no fundo durante parte do ciclo de maré. Esse movimento submetia o casco a esforços que poderiam provocar fissuras e abrir caminho para vazamento em uma área próxima à foz do Rio Amazonas.

Mesmo com a variação das marés, a falta de cartografia detalhada e o risco ambiental, os nove tripulantes permaneceram a bordo em segurança durante a operação. Não houve registro de feridos nem de poluição causada pelo episódio.

Tenente Castelo encontrou um corredor de 45 km onde faltavam dados sobre o fundo

O obstáculo para retirar o navio não era apenas encontrar força de reboque. Era preciso saber por onde um mercante avariado poderia passar sem voltar a tocar o fundo. O Navio Hidrográfico Balizador Tenente Castelo foi empregado para fazer sondagens e levantar a batimetria da região, principalmente nos períodos de baixa-mar.

As medições identificaram um corredor de 24,4 milhas náuticas, cerca de 45 km, ligando o ponto do encalhe a uma área previamente cartografada. A faixa segura tinha aproximadamente 450 jardas de largura, cerca de 411 metros.

Gráfico de sondagem hidrográfica nas proximidades da Ilha de Maracá com pontos de profundidade levantados pelo NHiB Tenente Castelo
Gráfico do levantamento feito pelo NHiB Tenente Castelo nas proximidades da Ilha de Maracá, usado no planejamento da rota segura para o Shri Ganesha. Crédito: Marinha do Brasil.

Esses dados deram aos responsáveis pela manobra uma rota concreta para planejar a saída do navio. Em vez de rebocar o mercante por uma área desconhecida, a equipe passou a contar com profundidades medidas durante a própria emergência.

Marinha criou uma tábua de marés específica para a área do Shri Ganesha

A profundidade disponível mudava com o ciclo de maré, então o levantamento do fundo precisava ser combinado com o comportamento da água. Observações feitas no local foram trabalhadas com o Centro de Hidrografia e Navegação do Norte, que permitiu elaborar uma tábua de marés específica para a região próxima ao navio.

O planejamento passou a considerar não apenas o caminho de 45 km, mas também as janelas em que a maré oferecia condições mais favoráveis para movimentar a embarcação. A operação de salvamento ganhou, assim, uma etapa hidrográfica criada especialmente para aquele encalhe.

Guarujá levou bombas de esgoto, água e alimentos enquanto Bocaina apoiou a logística

Enquanto o fundo era mapeado, outros meios mantinham a emergência sob controle. O Navio-Patrulha Guarujá saiu de Belém em 30 de agosto levando bombas de esgoto de grande porte para ajudar a conter o alagamento, além de água potável e alimentos para os nove tripulantes.

O Navio-Patrulha Bocaina também participou do apoio logístico. A operação reuniu ainda Petrobras e Bram Offshore, que disponibilizou o rebocador Mr. Chafic, embarcação empregada em atividades na Margem Equatorial.

Navio mercante Shri Ganesha ao lado de um rebocador durante a operação de retirada na costa do Amapá
O Shri Ganesha aparece ao lado de um rebocador durante a operação que terminou com a chegada do mercante a Belém. Crédito: Marinha do Brasil.

Mr. Chafic iniciou o reboque em 18 de setembro e levou o mercante até Belém

Com o alagamento controlado, a rota estudada e as condições de maré incorporadas ao planejamento, o Comando do 4º Distrito Naval e a Capitania dos Portos do Amapá coordenaram a retirada com as empresas envolvidas.

O Mr. Chafic começou o reboque na manhã de 18 de setembro. Três dias depois, em 21 de setembro, o Shri Ganesha chegou ao Porto de Outeiro, em Belém, onde passaria por reparos. A resposta completa, do pedido de socorro à chegada ao porto, consumiu cerca de três semanas.

Outro navio da Tanzânia já havia perdido propulsão na costa do Amapá em abril

O caso ocorreu poucos meses depois de outra emergência envolvendo um mercante de bandeira da Tanzânia na mesma região. Em abril de 2026, o M.V. Latifa também apresentou falhas no sistema de propulsão na costa do Amapá, ficou sem capacidade de manobra e precisou ser socorrido em uma operação coordenada pela Marinha.

Naquela ocorrência, o Latifa terminou rebocado até um terminal privado em Santana. No episódio do Shri Ganesha, a retirada exigiu uma combinação maior de controle de avaria, patrulha naval, hidrografia, observação de marés e apoio offshore para criar uma rota segura a partir de uma área sem cartografia suficiente.

O Shri Ganesha chegou a Belém com todos os nove tripulantes em segurança e sem dano ambiental registrado. Para a Marinha, a operação também deixou dados de profundidade e maré obtidos durante uma emergência em uma região de navegação complexa no extremo Norte do país.

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