Um caça F-5 da FAB que pousou sem pilotos em 2016 voltou a aparecer em uma situação bem diferente daquela que o tornou conhecido. O F-5FM de matrícula FAB 4806 foi arrematado em um leilão militar realizado em agosto de 2024 e, segundo reportagem de março de 2026, estava sendo restaurado por um colecionador em Porto Alegre.
O comprador é Luciano André Schneider, ex-marceneiro que reúne dezenas de aviões e helicópteros retirados de serviço. Em reportagem publicada pela Tecnologia & Defesa em 3 de março de 2026, Gabriel Centeno encontrou o antigo caça apoiado sobre pneus, à espera de trabalhos de restauração. A venda e o novo destino da aeronave representam a continuação de uma história que começou muito antes.
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FAB vendeu o F-5FM 4806 junto com outro caça que nunca chegou a operar no Brasil
O leilão de agosto de 2024 incluiu o F-5FM 4806 e o FAB 4885, uma aeronave comprada anteriormente da Jordânia que não entrou em serviço operacional na Força Aérea Brasileira. De acordo com a apuração publicada em 2026, Schneider arrematou ambos os exemplares.
Os aviões foram negociados na condição de sucata aeronáutica, com exigências de descaracterização que impedem o retorno às condições de voo. O objetivo do colecionador é trabalhar na preservação das estruturas e componentes para exibição estática e recuperação histórica, não recolocar os caças na ativa.
O 4806 tem uma trajetória particularmente incomum: passou décadas na aviação de caça, sobreviveu a um pouso sem tripulantes e permaneceu guardado durante anos antes de receber outro destino.
Dois capitães se ejetaram e o caça deslizou sozinho por cerca de 100 metros no Rio

Em 5 de julho de 2016, o F-5FM 4806 realizava um voo de treinamento na Base Aérea de Santa Cruz, na zona oeste do Rio de Janeiro. Na aproximação final, uma falha impediu o acionamento adequado do trem de pouso, tornando a aterrissagem normal insegura.
Os então capitães Fabio Guimarães de Mello Jr. e Gustavo Freitas de Souza permaneceram voando para consumir combustível e depois acionaram os assentos ejetáveis. Ambos sobreviveram.
Sem ninguém a bordo, o jato iniciou uma curva descendente e tocou a área gramada da base. Segundo a reconstrução da Tecnologia & Defesa, deslizou por aproximadamente 100 metros, com danos no nariz, na asa direita, no estabilizador horizontal e no tanque ventral. As equipes encontraram a estrutura preservada, sem incêndio ou desintegração.
Caça ficou no Campo de Marte e apareceu marcado para alienação em 2022
Depois do acidente, o avião foi levado para o Parque de Material Aeronáutico de São Paulo (PAMA-SP), no Campo de Marte. A possibilidade de recuperação foi estudada, mas o caça não retornou à operação.
Em outubro de 2022, uma reportagem do Poder Aéreo registrou o 4806 no hangar, com uma indicação de que estava “em processo de alienação”. O registro precedeu em quase dois anos a venda efetiva a Schneider.
O F-5FM era a versão de dois lugares da família Tiger II utilizada pela FAB. A aeronave havia sido adquirida usada dos Estados Unidos em 1988, chegou ao Esquadrão Pampa em 1989 e foi posteriormente modernizada.
Ex-marceneiro reuniu cerca de 35 aeronaves, entre elas 15 caças-bombardeiros AMX
O novo proprietário passou 32 anos trabalhando com marcenaria, sem carreira militar ou formação em engenharia aeronáutica. Na infância, construiu um pequeno avião de madeira; décadas depois, começou a comprar aeronaves desativadas.
Schneider contou que seu primeiro avião foi um Grumman P-16 Tracker, comprado por R$ 9 mil em 2016. Com novas negociações e trocas, expandiu a coleção e transformou a recuperação de peças aeronáuticas em atividade profissional.
Em março de 2026, o acervo reunia aproximadamente 35 aeronaves. A relação incluía 15 A-1 AMX, três helicópteros UH-1 Huey, cinco aparelhos da família C-95/P-95, um jato Learjet U-35, dois F-5E/F e a cabine de um Douglas C-47.
Em um pátio da zona norte de Porto Alegre, os aparelhos dividem espaço com carenagens, painéis, instrumentos, asas e ferramentas de oficina. O 4806, conhecido por entusiastas como “Zero-Meia”, tornou-se um dos exemplares em restauração.
Comprar um caça em leilão exige transporte especial, guindastes e desmontagem
O valor do lance não encerra o trabalho. Para transportar as estruturas, Schneider precisa organizar carretas, guindastes, desmontagens técnicas e a documentação necessária depois da retirada dos materiais das instalações militares.
“Tu compras e aí começa a novela”, afirmou o colecionador à Tecnologia & Defesa. Na oficina, máquinas de solda, ferramentas de marcenaria e equipamentos de pintura permitem recuperar peças que, sem esse trabalho, poderiam permanecer inutilizadas.
Parte da renda vem do comércio de peças e de serviços de restauração para proprietários particulares. Outra parte da rotina é dedicada à preservação de aeronaves militares históricas em instalações da FAB.
Enchente atingiu depósito com 4,5 metros de água e provocou prejuízo de R$ 280 mil
Durante as enchentes de maio de 2024 no Rio Grande do Sul, um depósito de Schneider em Eldorado do Sul ficou sob 4,5 metros de água. O restaurador estimou perdas de aproximadamente R$ 280 mil com ferramentas, peças e estrutura.
Mesmo depois da inundação, continuou trabalhando voluntariamente na Base Aérea de Canoas, onde colaborou na recuperação de exemplares como o Gloster Meteor, o TF-33, o F-5 e o C-95.
Em reportagem publicada pelo Aeroin em julho de 2024, o então comandante da base, tenente-coronel aviador Thiago Romanelli Rodrigues, reconheceu a contribuição do restaurador para manter os monumentos aeronáuticos da unidade.
Plano do colecionador é criar espaço aberto ao público para visitar aviões militares
Schneider pretende transformar parte do acervo em um espaço de visitação semelhante a um museu interativo. A ideia relatada à Tecnologia & Defesa é permitir que crianças e adultos vejam instrumentos, entrem em algumas aeronaves e conheçam equipamentos que durante anos fizeram parte da aviação brasileira.
Até a reportagem de março de 2026, não havia data anunciada para a abertura. O FAB 4806 permanecia em restauração no acervo de Porto Alegre, com finalidade de preservação estática.
O caça que encerrou seu voo de 2016 sem tripulação e passou anos aguardando uma decisão no PAMA-SP pode terminar preservado fora das pistas militares. Você acha que aeronaves históricas da FAB deveriam ficar acessíveis ao público depois da retirada de serviço? Comente sua opinião.