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Após Pearl Harbor, os EUA recrutaram artistas de Hollywood às pressas para camuflar fábricas inteiras em território americano com bairros, casas e ruas cenográficos temendo bombardeios japoneses

Fernando B.
Por Fernando B. 16/10/2026 às 12:44
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Após Pearl Harbor, os EUA recrutaram artistas de Hollywood às pressas para camuflar fábricas inteiras em território americano com bairros, casas e ruas cenográficos temendo bombardeios japoneses
A fábrica da Boeing em Seattle recebeu um bairro inteiro sobre suas instalações, apelidado de "País das Maravilhas". Foto: Reprodução

O ataque japonês à Frota do Pacífico dos Estados Unidos em Pearl Harbor, no Havaí, em dezembro de 1941, não só foi um passo decisivo para que os EUA entrassem de vez na Segunda Guerra Mundial, mas acendeu um temor que até então passava incólume aos cidadãos norte-americanos desde o início do conflito em 1939: um ataque das forças do Eixo ao seu território agora era uma possibilidade real.

A rapidez com que os japoneses mobilizaram suas forças no Pacífico sem que a inteligência de defesa americana conseguisse detectar a ameaça até que fosse tarde demais era uma prova de que novos bombardeios poderiam acontecer na porção continental do país, especialmente na Costa Oeste, vista como mais vulnerável ao Japão.

Essa ameaça provocou uma mudança radical na postura de defesa dos EUA a partir de dezembro de 1941, especialmente quanto a estruturas industriais valiosas. Fábricas de aviões, refinarias e bases aéreas poderiam se tornar alvos dos ataques japoneses, assim como já acontecia na Europa.

A destruição de uma instalação importante poderia reduzir a produção de aeronaves e suprimentos militares justamente quando a demanda crescia rapidamente para manter as forças americanas em combate.

Foi então que o Exército americano passou a se inspirar na defesa aérea do Reino Unido contra os bombardeios alemães para ocultar instalações estratégicas, recorrendo até mesmo a artistas de Hollywood para criar verdadeiras cidades fantasmas.

EUA recrutam o “mestre da camuflagem”

A corrida para proteger ativos importantes dos EUA, especialmente na Costa Oeste, teve um nome que entraria pela história como o pioneiro de técnicas de camuflagem militar do Exército: o Coronel John F. Ohmer Jr., engenheiro e, segundo alguns relatos, familiarizado com truques de ilusionismo.

O Coronel já havia estudado como os britânicos conseguiram ocultar suas instalações durante a Batalha da Grã-Bretanha, quando a força aérea da Alemanha, a Luftwaffe, fez seguidos ataques à Inglaterra, que se desdobrou para proteger os céus com a sua Força Aérea Real (RAF).

Embora suas ideias para sistemas de camuflagem tenham sido inicialmente rejeitadas, após o ataque a Pearl Harbor em 1941, o Coronel americano recebeu autorização para utilizar todos os meios necessários para proteger fábricas e instalações estratégicas americanas.

Foto mostra as dimensões da fábrica da Lockheed na Califórnia durante a Guerra. Foto: Reprodução

Uma das primeiras missões do “mestre das camuflagens” seria encontrar uma maneira de disfarçar a fábrica da Lockheed, em Burbank, na Califórnia, um complexo responsável pela produção de diversos modelos cruciais de aeronaves militares para os Aliados, como o caça P-38 Lightning, além de diversos tipos de aviões de transporte e protótipos.

Com a proximidade da Costa Oeste, o bombardeio de uma instalação crucial para força militar dos EUA e seus aliados na campanha contra o Eixo seria um golpe duro a favor dos inimigos, do qual podia-se levar anos para uma recuperação.

O desafio de Ohmer era reproduzir um disfarce em grande escala: não se tratava de um único prédio, mas uma planta fabril com milhares de metros quadrados, pátios e pistas de pouso. Para isso, ele iria contar com quem já tinham expertise em criar ilusões: recrutou artistas, cenógrafos e pintores de estúdios cinematográficos das proximidades, incluindo Disney, Paramount e 20th Century Fox na famosa Hollywood.

Campos de alfafa e árvores falsas

Conforme documenta a própria Lockheed, campos de aviação e os estacionamentos da Lockheed foram pintados de verde e receberam plantas para que se parecessem com campos de alfafa. Enquanto isso, a fábrica principal foi coberta por uma estrutura feita de tela de arame, redes e lonas pintadas, projetada para se misturar à vegetação ao redor.

Árvores falsas também foram instaladas, com folhas feitas de penas de galinha pintadas com tinta spray. Algumas receberam pintura verde para representar o crescimento de novas folhas, enquanto outras foram pintadas de marrom para imitar áreas de vegetação seca e deteriorada.

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A camuflagem sobre as instalações da Lockheed na Califórnia, mesclada com a paisagem ao redor. Foto: Reprodução

O objetivo foi atingido com maestria: fotos aéreas de 1942 mostram a fábrica da Lockheed totalmente escondida embaixo da estrutura que imitava perfeitamente a área suburbana da cidade ao redor. Até mesmo casas cenográficas pequenas foram construídas para compor a paisagem sobre o teto da fábrica.

Além disso, os funcionários continuavam a realizar seu trabalho, mas esperava-se que colaborassem com a ilusão, pendurando e retirando roupas de varais durante seus intervalos para adequarem-se à encenação.

Quando o trabalho foi concluído, o Coronel Ohmer decidiu testar o resultado levando um general do Departamento de Guerra dos Estados Unidos para um voo de reconhecimento a cerca de 1.500 metros de altitude.

Ele pediu ao oficial que identificasse a fábrica, mas tudo o que o general afirmou enxergar foi uma sucessão de bairros residenciais típicos da Califórnia.

O “País das Maravilhas” da Boeing

Nos anos 1940, a fábrica da Boeing chamada de Plant II, em Seattle, estava instalada em um cenário urbano diferente da Califórnia, e iria exigir que a camuflagem fosse levada a um outro nível para fazer uma enorme planta fabril desaparecer visualmente em meio à paisagem urbana.

O parque fabricava aeronaves importantes como os bombardeiros pesados B-17 Flying Fortress e também estava em plena expansão da produção para suprir a entrada dos EUA na Segunda Guerra.

O projeto de camuflagem da Boeing foi ainda mais impressionante, e envolveu a construção de um verdadeiro bairro inteiro com mais de 100 mil metros quadrados, apelidado de Wonderland (País das Maravilhas).

Sobre o telhado industrial da fábrica, foram instaladas casas falsas, ruas simuladas, gramados artificiais e árvores construídas com armações metálicas e penas de galinha.

Detalhe de árvore e casas cenográficas sobre as instalações da Boeing. Foto: Reprodução

Segundo o arquivo histórico da própria Boeing, a cidade cenográfica ocupava cerca de 26 acres — aproximadamente 10,5 hectares, e foram utilizados cerca de 1 milhão de pés de tábuas de madeira, 1,5 milhão de pés quadrados de tela de arame e centenas de toneladas de estruturas de aço. Foram utilizados ainda 500 mil pés de cabos de sustentação e 500 toneladas de estruturas de aço para sustentar as partes mais elevadas.

A camuflagem se estendia para além da Plant II, alcançando o vizinho aeródromo Boeing Field, embora com uma decoração bem menos elaborada. O cenário do “País das Maravilhas” da Boeing somente seria removido em 1946 por engenheiros do Exército, exigindo uma operação de grande porte.

O projeto contou com a participação de John Stewart Detlie, cenógrafo e diretor de arte de Hollywood que havia trabalhado na MGM, e embora não tenha participação direta do Coronel John F. Ohmer Jr, também foi inspirado nas suas iniciativas de camuflagem na Lockheed e na Costa Oeste.

A ameaça era real, mas o ataque não aconteceu

A corrida pela camuflagem das instalações americanas foi impulsionada por uma avaliação de risco feita durante um período de grande incerteza. Os ataques japoneses haviam demonstrado que as forças americanas podiam ser surpreendidas, mas isso não significava que um bombardeio de grande escala contra as fábricas da Califórnia fosse inevitável.

Além da Costa Oeste e Seattle, outras instalações militares e fábricas também receberam projetos semelhantes de camuflagem, em Washington e outras regiões do país.

Não há indícios de que bombardeiros japoneses tenham chegado a sobrevoar o território continental dos EUA, mas ainda assim, a camuflagem era uma medida preventiva: seu sucesso potencial estava em dificultar a identificação dos alvos, e não necessariamente em repelir um ataque que pudesse ser documentado.

A resposta combinou engenharia militar e a criatividade de Hollywood para esconder a capacidade industrial americana sem paralisar a produção de guerra e ficou marcada em um período em que a tecnologia não era exatamente escassa, mas a criatividade acabou se unindo a canhões e baterias antiaéreas como um recurso de proteção de instalações cruciais.

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