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Argentina gastou US$ 301 milhões em 24 caças F-16 usados, mas denúncia de que o Reino Unido teria exigido radares “capados” para proteger as Malvinas levanta dúvidas sobre o verdadeiro poder de combate dos aviões

Noel Budeguer
Por Noel Budeguer 23/10/2026 às 12:46
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Argentina gastou US$ 301 milhões em 24 caças F-16 usados, mas denúncia de que o Reino Unido teria exigido radares “capados” para proteger as Malvinas levanta dúvidas sobre o verdadeiro poder de combate dos aviões
Os 24 caças adquiridos da Dinamarca possuem radares inferiores aos de versões mais modernas do F-16, enquanto uma denúncia de limitações impostas por Londres levanta dúvidas sobre a capacidade argentina de enfrentar ameaças nas Malvinas.

A Argentina gastou US$ 301,2 milhões na compra de 24 caças F-16 usados da Dinamarca, apresentando a aquisição como uma conquista histórica para sua defesa nacional. Entretanto, existe uma questão incômoda por trás dos aviões: seus radares pertencem a uma geração anterior à de outros F-16 em operação, inclusive na América do Sul, e uma denúncia afirma que suas capacidades teriam sido reduzidas por exigência britânica.

A suspeita envolve um suposto limite de apenas 111 quilômetros para os radares de tiro, que teria sido imposto para evitar que os caças representassem uma ameaça às posições britânicas nas Ilhas Malvinas.

A restrição não foi comprovada, mas a controvérsia ganhou novo fôlego em 2026, quando um oficial argentino da reserva analisou publicamente as limitações militares e políticas da compra.

Argentina comprou F-16 com radares de uma geração anterior

Os aviões argentinos pertencem às versões F-16AM/BM MLU, modernizadas ao longo de sua vida operacional. Utilizam radares da família AN/APG-66, desenvolvida décadas atrás e posteriormente atualizada.

O problema aparece quando esses equipamentos são comparados aos AN/APG-68(V)9 dos F-16C/D Block 50 operados pelo Chile ou aos modernos AN/APG-83 AESA instalados em versões F-16V.

Esses sistemas mais recentes oferecem melhorias em detecção, acompanhamento de alvos e processamento de informações. Isso não torna os aviões argentinos inúteis, mas revela uma diferença tecnológica importante entre caças que carregam o mesmo nome.

Caça F-16 da Força Aérea Argentina durante preparativos para voo. A compra de 24 aeronaves usadas da Dinamarca reacendeu a polêmica sobre o alcance de seus radares e as supostas restrições britânicas relacionadas às Ilhas Malvinas. Foto: Divulgação/Fuerza Aérea Argentina.
Caça F-16 da Força Aérea Argentina durante preparativos para voo. A compra de 24 aeronaves usadas da Dinamarca reacendeu a polêmica sobre o alcance de seus radares e as supostas restrições britânicas relacionadas às Ilhas Malvinas. Foto: Divulgação/Fuerza Aérea Argentina.

Enquanto radares de F-16 chilenos superam 300 km em referências publicadas, argentinos enfrentam denúncia sobre apenas 111 km

Segundo a publicação especializada Infodefensa, os F-16 Block 50 chilenos possuem radares AN/APG-68(V)9 com alcance de busca divulgado superior a 300 quilômetros.

Já uma referência técnica sobre a família AN/APG-66 menciona aproximadamente 150 quilômetros de alcance instrumentado para o modelo original.

Esses números não representam testes equivalentes e não permitem afirmar que um caça argentino detecte inimigos exatamente à metade da distância alcançada por um chileno. As condições de operação, o tipo de alvo e os modos utilizados alteram os resultados.

Entretanto, a diferença entre as gerações de equipamentos é real. E a controvérsia argentina acrescenta outra suspeita: a possibilidade de que um radar já menos avançado tenha recebido restrições adicionais por software.

Reino Unido teria exigido que os caças argentinos não ameaçassem as Malvinas

Em julho de 2025, o portal La Política Online publicou declarações de uma fonte militar argentina que afirmava existir uma exigência britânica para limitar os radares dos F-16 a 60 milhas náuticas, aproximadamente 111 quilômetros.

Segundo a denúncia, a medida impediria que os aviões representassem uma ameaça significativa às posições militares britânicas no Atlântico Sul.

A reportagem, entretanto, também apresentou desmentidos. Fontes ligadas à Força Aérea e ao Ministério da Defesa afirmaram que os aviões não sofreram essa restrição e que a empresa responsável por atualizações de guerra eletrônica não modificava o radar.

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Não existe prova técnica pública de que esse bloqueio de 111 quilômetros tenha sido instalado.

Oficial argentino reacende discussão e questiona a autonomia dos F-16

A polêmica voltou a aparecer no Boletín del Centro Naval nº 867, publicado em 2026.

No artigo F-16 versus JF-17: un tema polémico, o capitão de navio da reserva Jorge Paulo Barrales examinou a escolha argentina e considerou plausível a hipótese de limitações políticas vinculadas aos interesses britânicos nas Malvinas.

O próprio autor reconheceu, porém, que a suposta restrição de radar não estava confirmada oficialmente.

Caça F-16 com o nariz aberto, revelando a antena do radar e seus componentes eletrônicos. A imagem mostra como o sistema de detecção é instalado na aeronave, permitindo visualizar a tecnologia utilizada para localizar e acompanhar alvos aéreos. Foto: Divulgação.
Caça F-16 com o nariz aberto, revelando a antena do radar e seus componentes eletrônicos. A imagem mostra como o sistema de detecção é instalado na aeronave, permitindo visualizar a tecnologia utilizada para localizar e acompanhar alvos aéreos. Foto: Divulgação.

Barrales também destacou uma vulnerabilidade concreta: a arquitetura eletrônica fechada dos F-16 limita modificações independentes e cria dependência dos Estados Unidos para suporte e atualizações.

Governo argentino nega restrições, mas não divulga testes públicos de alcance

Em abril de 2026, o Ministério da Defesa argentino respondeu ao Congresso, por meio do Informe nº 145, que o acordo de transferência não contém cláusulas limitando o deslocamento geográfico dos caças ou o emprego dos mísseis AMRAAM.

A resposta contraria a interpretação de que os aviões estariam formalmente proibidos de operar em determinadas regiões.

Entretanto, o documento não apresenta medições públicas do alcance real dos radares nem uma auditoria técnica destinada a esclarecer especificamente a denúncia de limitação por software.

Por que Argentina aceitou comprar esses aviões mesmo assim?

Existe uma explicação militar importante. Desde a retirada dos Mirage, em 2015, a Argentina havia perdido sua capacidade de interceptação supersônica. Os F-16 oferecem uma maneira de reconstruí-la sem comprar aeronaves novas de última geração.

O contrato inclui treinamento, simuladores, motores e suporte logístico. Os caças também podem empregar armamentos modernos, embora sua incorporação dependa dos respectivos programas de aquisição.

A decisão ainda ocorreu em meio à concorrência com o JF-17, desenvolvido por China e Paquistão. Na avaliação de Barrales, o alinhamento estratégico com Washington pesou fortemente na escolha argentina, além das vantagens de integração e sustentação oferecidas pelo F-16.

O custo não termina nos US$ 301 milhões e a dependência já apareceu na prática

Os US$ 301,2 milhões correspondem ao contrato dinamarquês, não ao custo integral de implantação da capacidade.

Os Estados Unidos também autorizaram uma possível venda de equipamentos, mísseis e serviços avaliada em até US$ 941 milhões, valor de autorização que não significa gasto efetivamente contratado ou realizado.

Outra limitação ficou evidente na chegada do segundo lote, em setembro de 2026. Os seis F-16 precisaram de dez reabastecimentos em voo por aeronave, realizados com aviões KC-135R norte-americanos. Os KC-130 argentinos não utilizam o sistema de abastecimento exigido pelos caças.

Até outubro de 2026, 12 dos 24 F-16 contratados haviam chegado à Argentina.

Para o Brasil, que já incorpora o F-39 Gripen equipado com radar AESA, a comparação evidencia diferentes níveis de tecnologia e modernização na aviação militar regional.

A Argentina recuperou uma capacidade aérea importante. Mas a discussão vai além da quantidade de aviões: envolve sensores, armamento, autonomia logística e liberdade para atualizar os equipamentos.

A denúncia dos radares “capados” permanece sem comprovação. A diferença tecnológica em relação aos F-16 mais modernos, entretanto, existe. E é justamente essa combinação que mantém aberta a controvérsia sobre o que Buenos Aires efetivamente comprou.

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