O Paraguai comprou seis aviões militares fabricados no Brasil. Agora, negocia 15 jatos com Taiwan e assinou um acordo com os Estados Unidos para trocar dados de radares e inteligência. Movimentos diferentes, mesmo cenário: a defesa aérea do vizinho está mudando.
Há outro detalhe sensível para os brasileiros. Um representante de Washington visitou uma unidade antiterrorista recém-criada em Ciudad del Este, na Tríplice Fronteira, diante de Foz do Iguaçu. Não há ameaça anunciada ao Brasil, mas a influência de potências estrangeiras na segurança do vizinho está crescendo.
Paraguai quer voltar a operar jatos depois de mais de 20 anos
Desde que aposentou os Embraer AT-26 Xavante, em 2003, o Paraguai não opera jatos militares. Segundo fontes da Força Aérea Paraguaia ouvidas pelo Pucará Defensa, o país deverá receber 15 AT-3 de Taiwan.
Os aviões começariam a chegar desmontados em 2027. Quatro poderiam voar até o fim daquele ano; todos seriam montados até 2028.
Mas os AT-3 são jatos antigos de treinamento e ataque leve, não caças modernos comparáveis ao Gripen brasileiro. E o negócio ainda não foi anunciado oficialmente pelos governos.
Brasil vendeu seis Super Tucano; Taiwan pode fornecer mais quinze aviões
A ironia está no papel brasileiro. Em 5 de outubro, o Paraguai recebeu o sexto A-29 Super Tucano comprado da Embraer, encerrando a renovação dessa frota.
Os Super Tucano servem para patrulhar e interceptar aviões lentos. Os AT-3 ofereceriam treinamento em jato e maior velocidade. Não substituem os aviões brasileiros: complementam a frota.
O governo paraguaio também informou que já utiliza dois radares móveis modernizados e aguarda um radar de longo alcance. A mudança, portanto, não envolve apenas aviões: envolve a capacidade de enxergar melhor o que acontece no céu.
Nova base militar entra nos planos, mas ainda não saiu do papel
A reportagem sobre os jatos também menciona a intenção de reativar o 1º Esquadrão de Caça e reabrir uma base aérea em Mariscal Estigarribia, no Chaco, região oeste do Paraguai.
A instalação poderia reunir AT-3, Tucano e Super Tucano. Mas é importante fazer uma distinção: essa base não fica na linha de fronteira com o Brasil, e sua reabertura ainda é um plano, não uma obra concluída.
Mesmo assim, reorganizar aviões, radares e unidades militares amplia a capacidade de vigilância do Paraguai. E isso interessa ao Brasil.
EUA assinam acordo para trocar dados de radar com o Paraguai
Em 19 de outubro, Washington e Assunção assinaram um acordo de cooperação para interceptar aeronaves civis suspeitas de atividades ilegais. O documento prevê troca de dados de radar, inteligência e assistência técnica.
Os Estados Unidos também anunciaram US$ 5,5 milhões para iniciativas ligadas ao combate ao terrorismo e à segurança, além de US$ 6,25 milhões contra o crime organizado transnacional. Não há indicação de que esse dinheiro financiará os jatos taiwaneses.
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O acordo aéreo ainda precisa cumprir uma etapa diplomática para entrar em vigor. Tampouco há prova de que Washington terá acesso aos radares brasileiros. A discussão real é sobre a influência que os EUA poderão ganhar na vigilância aérea de um país que faz fronteira com o Brasil.
Enviado dos EUA visita nova unidade antiterrorista diante de Foz do Iguaçu
Em 21 de outubro, o presidente Santiago Peña e o vice-secretário de Estado americano, Christopher Landau, visitaram uma companhia antiterrorista recém-criada em Ciudad del Este, na Tríplice Fronteira.
Ciudad del Este fica diante de Foz do Iguaçu, ligada à cidade brasileira pela Ponte da Amizade. É uma região em que decisões de segurança tomadas de um lado da fronteira podem influenciar a cooperação policial e militar do outro. Por isso, a visita tem uma importância que ultrapassa a política interna paraguaia.
A unidade pertence às Forças Armadas paraguaias. A visita não significa que os EUA instalaram ali uma base militar ou passaram a comandar operações. Mas mostra o interesse direto de Washington por uma das regiões de fronteira mais sensíveis para o Brasil.
Taiwan, EUA e uma questão que o Brasil não pode ignorar
O Paraguai é o único país da América do Sul que mantém relações diplomáticas formais com Taiwan, cuja soberania é reivindicada pela China. Com jatos taiwaneses em negociação e acordos de segurança com Washington, Assunção aprofunda laços com dois parceiros importantes.
O combate ao crime organizado pode beneficiar brasileiros e paraguaios. O problema seria tratar toda essa movimentação como um assunto sem consequências para Brasília. Quem compartilha informações, quem decide sobre interceptações e como o Brasil participa da cooperação regional são questões que merecem transparência.
Por enquanto, os 15 jatos e a base continuam no campo dos planos. Os seis Super Tucano já chegaram, e o pacto com os EUA foi assinado. Não há sinal de ameaça militar paraguaia ao Brasil. Há, sim, uma mudança estratégica acontecendo do outro lado da fronteira, e ignorá-la seria um erro.