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Dois aviões de operações especiais dos EUA pousam em Puerto Ayacucho, cidade venezuelana a 345 km do Brasil, dois dias depois de chegarem a Caracas

Jefferson Silva
Por Jefferson Silva 19/10/2026 às 09:57
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Dois aviões de operações especiais dos EUA pousam em Puerto Ayacucho, cidade venezuelana a 345 km do Brasil, dois dias depois de chegarem a Caracas
Trajeto dos aviões C-146A da Força Aérea dos EUA entre Caracas e Puerto Ayacucho em 18 de outubro de 2026. Reprodução: ADS-B Exchange.

Os C-146A da Força Aérea americana passaram seis horas sem sinal no sábado e foram vistos em solo no domingo, sem nota oficial de Washington nem de Caracas.

Às 16h38 de domingo, 18 de outubro, pelo horário de Brasília, o C-146A Wolfhound de matrícula 11-3016 da Força Aérea dos EUA decolou da pista do aeroporto Cacique Aramare, em Puerto Ayacucho, no sul da Venezuela. Cinco minutos depois subiu o segundo avião, o 12-3047, segundo os registros de posição do rastreador aberto ADS-B Exchange.

Puerto Ayacucho fica a 345 km em linha reta da fronteira com Roraima, e os dois aviões de operações especiais tinham chegado ao aeroporto de Maiquetía, que serve Caracas, na sexta-feira, 16. Nem o governo dos EUA nem o venezuelano explicaram publicamente o que as aeronaves fizeram no interior do país.

O que os registros de voo mostram em três dias

Os dados de rastreio foram baixados do arquivo histórico do ADS-B Exchange, que guarda as posições transmitidas pelo transponder de cada avião. O cadastro público do site adsbdb identifica os dois prefixos como C-146A da Força Aérea dos EUA, versão militar do bimotor turboélice Dornier 328, e o próprio ADS-B Exchange marca as duas aeronaves como militares.

Na sexta-feira, 16, o 12-3047 chegou a Maiquetía por volta das 15h40, vindo do litoral caribenho da Colômbia. O 11-3016 saiu da base aérea de Homestead, na Flórida, perto das 14h, parou em San Juan, em Porto Rico, e pousou em Maiquetía pouco depois das 20h. Todos os horários deste texto estão convertidos para Brasília, uma hora à frente da Venezuela.

Seis horas sem sinal no oeste venezuelano

No sábado, 17, os dois aviões decolaram de Maiquetía às 10h22 e às 10h26 e seguiram para sudoeste. Os últimos pontos registrados, às 11h29 e às 11h31, ficam perto de 7,9 graus norte e 71 graus oeste, a pouco mais de 100 km a sudoeste da cidade de Barinas.

O sinal só voltou às 17h42, já no caminho de volta, e os dois pousaram em Maiquetía por volta das 18h30. Foram pouco mais de seis horas sem posição transmitida, intervalo em que os dados não mostram onde os aviões estiveram.

O site venezuelano La Patilla relacionou esse trecho ao estado de Táchira, na fronteira com a Colômbia, mas é uma inferência a partir do rumo, e o próprio jornal admite que o rastreio não prova qual foi a missão. San Cristóbal, capital de Táchira, fica a 908 km em linha reta da fronteira brasileira.

No domingo, o rumo foi o sul

No domingo, 18, as decolagens de Maiquetía foram às 10h21 e às 10h30, agora com rumo sul. O sinal desapareceu às 11h24, perto do paralelo 7 norte, sobre a planície do Orinoco, e não há posição registrada nas cinco horas seguintes.

Os dois C-146A reapareceram parados no chão do aeroporto Cacique Aramare, o primeiro às 16h35 e o segundo às 16h42. As decolagens vieram às 16h38 e às 16h43, ou 15h38 e 15h43 no horário local, e os aviões estavam de volta a Maiquetía perto das 18h.

Os dados não dizem a que horas os aviões chegaram a Puerto Ayacucho nem quanto tempo ficaram em solo. Também não mostram quem embarcou ou desembarcou, e o rastreio de domingo para por aí.

Um avião feito para levar equipes pequenas

O C-146A é usado pelo Comando de Operações Especiais da Força Aérea dos EUA para levar equipes e carga a pistas curtas, longe de grandes bases. A Força Aérea americana não informou quem ou o que estava a bordo nos voos ao interior da Venezuela.

Puerto Ayacucho é a capital do estado venezuelano do Amazonas, à margem do rio Orinoco, que ali faz a divisa com a Colômbia. A cidade é a principal porta de entrada da Amazônia venezuelana, região que se estende até a fronteira com o Brasil.

Um general dos Fuzileiros na embaixada no mesmo dia

Na sexta-feira, 16, dia em que os dois aviões chegaram, o general Eric Smith, comandante do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, esteve na embaixada americana em Caracas. Segundo o jornal venezuelano El Diario, ele se reuniu com o encarregado de negócios John Barrett.

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A embaixada descreveu a visita, pela conta @usembassyve, como mais um passo para fortalecer as relações entre os dois países e impulsionar o chamado plano de três fases, segundo o El Diario. O jornal registra a chegada de duas aeronaves Wolfhound de operações especiais a Maiquetía junto com um Gulfstream C-37B, sem detalhar o que fariam.

A agenda do general não foi divulgada, e o El Diario diz que não se sabe se ele falou com as autoridades venezuelanas. Em maio, os EUA já tinham feito em Caracas um exercício com aeronaves Osprey, com presença do Comando Sul.

O silêncio oficial sobre os voos

Não há nota pública do Comando Sul dos EUA nem do governo venezuelano sobre os voos dos C-146A ao interior do país. A embaixada falou da visita do general, mas não dos aviões que pousaram em Puerto Ayacucho.

Por isso, o que se pode afirmar é o que está nos registros: dois aviões militares americanos saíram de Caracas, desligaram ou perderam o sinal por horas e foram vistos em solo a 345 km do Brasil. Qualquer missão atribuída a eles, por enquanto, é suposição.

Quanto Puerto Ayacucho está perto das cidades brasileiras

As distâncias foram calculadas em linha reta, por coordenadas. O ponto da fronteira brasileira mais próximo de Puerto Ayacucho, a 345 km, fica no extremo oeste de Roraima, em área da terra indígena Yanomami.

A região de Cucuí, no Amazonas, onde o Brasil encontra a Venezuela e a Colômbia, está a cerca de 496 km. São Gabriel da Cachoeira fica a 642 km, Pacaraima a 726 km, Boa Vista a 829 km e Manaus a 1.286 km.

Para comparar, Maiquetía, onde os aviões passaram as noites, está a 743 km da fronteira e a 1.111 km de Boa Vista. No domingo, portanto, os C-146A chegaram a menos da metade da distância que separa Caracas do território brasileiro.

Quem guarda o lado brasileiro dessa fronteira

Do lado de Roraima, a fronteira com a Venezuela é responsabilidade da 1ª Brigada de Infantaria de Selva, a Brigada Lobo D’Almada, do Exército. Segundo a página oficial da brigada, ela reúne o 7º Comando de Fronteira Roraima, o 18º Regimento de Cavalaria Mecanizado e o 1º Batalhão de Infantaria de Selva, entre outras unidades.

Na terra indígena Yanomami, a mesma área do ponto de fronteira mais próximo de Puerto Ayacucho, a brigada mantém o 4º Pelotão Especial de Fronteira em Surucucu e o Destacamento Especial de Fronteira de Waikás, em Alto Alegre. São pelotões onde não chega estrada e o acesso depende de avião.

Dois aviões no chão de uma cidade amazônica, e nenhuma explicação

A viagem de domingo durou perto de sete horas e meia, de Maiquetía a Puerto Ayacucho e de volta, e os dados mostram só o começo e o fim dela. No chão de Puerto Ayacucho, os dois C-146A ficaram visíveis para o rastreador por um a três minutos antes de decolar de novo.

A movimentação ocorre enquanto Washington discute com governos da região o Escudo das Américas, aliança que o Brasil ainda não integra. Sem nota de Washington ou de Caracas, a escala na capital do Amazonas venezuelano segue registrada apenas nos dados de rastreio.

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