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Veteranos das Malvinas levam para Ensenada o canhão do destróier que abriu o desembarque argentino de 1982, o único Tipo 42 construído fora do Reino Unido

Jefferson Silva
Por Jefferson Silva 19/10/2026 às 09:58
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Veteranos das Malvinas levam para Ensenada o canhão do destróier que abriu o desembarque argentino de 1982, o único Tipo 42 construído fora do Reino Unido
A torre do canhão de proa do destróier ARA Santísima Trinidad sobre um caminhão enfeitado com bandeiras argentinas, com cavaleiros ao fundo, na chegada a Ensenada. Reprodução: redes sociais.

A peça de 114 mm do ARA Santísima Trinidad, que a Justiça impediu de virar sucata, agora fica num museu a poucos quilômetros do estaleiro onde o navio nasceu.

Um caminhão enfeitado com bandeiras argentinas entrou em Ensenada, na província de Buenos Aires, na sexta-feira, 16 de outubro, levando a torre e o cano do canhão de proa do destróier ARA Santísima Trinidad. A peça foi instalada no Museo Héroes de Malvinas, mantido por veteranos da guerra de 1982, e a recepção estava marcada para as 17h, segundo o jornal Infocielo, de La Plata.

O navio que carregava esse canhão foi o primeiro a chegar às ilhas na noite de 1º de abril de 1982 e é o único destróier Tipo 42 construído fora do Reino Unido. Foi feito no Astillero Río Santiago, a poucos quilômetros do museu, e a volta da peça à cidade onde o casco nasceu virou assunto nas redes sociais de Ensenada no fim de semana.

“El cañón regresó a casa”

O vídeo da chegada foi publicado pela conta local @lapostaensenada2, no Instagram, com a frase “El cañón regresó a casa”, ou “o canhão voltou para casa”. Segundo o Infocielo, a postagem se espalhou em poucas horas e passou de uma centena de comentários de moradores que celebravam o retorno.

A transferência foi feita pelos veteranos que administram o museu, em conjunto com a prefeitura de Ensenada. Em nota reproduzida pelo Infocielo, o museu disse que a peça “descansará para sempre” ali, para que as próximas gerações possam conhecer, lembrar e honrar aquela história. O peso do conjunto não foi divulgado.

Um museu num hangar da Aviação Naval

O Museo Héroes de Malvinas funciona dentro de um hangar da Aviação Naval argentina no Fuerte Barragán, declarado Monumento Histórico Nacional. Em 2004, a prefeitura cedeu o terreno à associação de veteranos Soberanía y Memoria 1806-1982, segundo informação do governo da província de Buenos Aires citada pelo Infocielo.

São esses ex-combatentes das Malvinas que sustentam o espaço e negociaram a vinda do canhão. O nome da associação junta duas datas da memória local: a das invasões britânicas a Buenos Aires, que começaram em 1806, e a da guerra de 1982.

Um projeto britânico feito em estaleiro argentino

Em 1970, o governo argentino encomendou dois destróieres do projeto britânico Tipo 42, um para ser construído no Reino Unido e outro na Argentina, segundo o catálogo naval Navypedia. O ARA Hércules saiu do estaleiro Vickers, em Barrow, e foi lançado ao mar em 24 de outubro de 1972.

O gêmeo argentino teve a quilha batida em 11 de outubro de 1971 no estaleiro estatal de Río Santiago e foi lançado em 9 de novembro de 1974. Recebeu o nome do bergantim que o almirante Guillermo Brown comandou em 1815, informa o Infocielo, e só entrou em serviço em julho de 1981, segundo o Navypedia, depois de atrasos na transferência de tecnologia.

Houve também um atentado durante a obra. Em 22 de agosto de 1975, uma ação da organização Montoneros danificou o casco, segundo o Navypedia, e o Infocielo registra que o navio chegou a afundar parcialmente e que a construção atrasou cerca de um ano.

21h18 de 1º de abril de 1982

O Santísima Trinidad zarpou em 28 de março de 1982 com o resto da Frota de Mar argentina. Às 21h18 de 1º de abril, o primeiro grupo de botes com comandos anfíbios se soltou do casco rumo às ilhas, no início da Operação Rosario, de acordo com o histórico publicado pelo Infocielo.

Durante a operação, o destróier foi a nave capitânia da Força de Tarefas 40. Levava a bordo o comandante da Força de Tarefas Anfíbia, o seu estado-maior e o comandante do Teatro de Operações Malvinas, e foi dos rádios do navio que saíram as primeiras mensagens exigindo a rendição das autoridades britânicas.

O canhão de 114 milímetros

A arma que chegou a Ensenada é a única peça de artilharia principal do navio. O Navypedia descreve o armamento do Santísima Trinidad com um canhão de 114 milímetros, modelo Mark 8, em torre simples, ao lado dos mísseis antiaéreos Sea Dart, de dois canhões de 20 milímetros e de tubos de torpedo.

O mesmo catálogo dá ao navio 125 metros de comprimento, 4.100 toneladas de deslocamento carregado e tripulação de 270 pessoas. O irmão Hércules, construído na Inglaterra, levava o mesmo canhão, e foi para ele que seguiram as peças do Santísima Trinidad depois da guerra.

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Embargo, peças de reposição e um naufrágio no cais

Depois da guerra, o embargo britânico de peças de reposição travou a manutenção do destróier, que virou fonte de componentes para o gêmeo Hércules. A última navegação foi em 1989, segundo o Infocielo, e o Navypedia registra a baixa formal em 2006.

Em janeiro de 2013, a ruptura de uma válvula de seis polegadas fez o navio afundar parcialmente na doca da Base Naval de Puerto Belgrano. Ele ficou quase três anos assim até ser reflutuado em dezembro de 2015, de acordo com o Infocielo.

Decreto mandou vender, a Justiça segurou

O Decreto 1017, de 17 de dezembro de 2020, assinado pelo então presidente Alberto Fernández, declarou o navio em desuso e abriu caminho para a venda como sucata. Um cidadão, Jorge Eduardo Oliver, entrou com ação de amparo pedindo que o casco fosse tratado como patrimônio cultural e entregue à Fundación 20 de Noviembre para virar museu, segundo o site jurídico Diario Judicial.

A Sala II da Câmara Federal de Bahía Blanca manteve a suspensão da venda em 2021. “O interesse público a ponderar nem sempre é o que a administração persegue”, escreveram os juízes Leandro Sergio Picado e Pablo Larriera, conforme o Diario Judicial.

Em julho de 2024, a Sala I do mesmo tribunal voltou a confirmar a suspensão do leilão até que fossem retiradas as peças de interesse cultural previstas num acordo homologado, informou o portal Palabras del Derecho. A Armada alegou que o casco já tinha sido adjudicado à empresa Depósito Juncal S.A., que pagou o preço. O Infocielo liga a chegada do canhão a essa decisão, mas a lista das peças do acordo não foi publicada.

Brasil comprou o mesmo calibre de estaleiro britânico

A Marinha do Brasil seguiu caminho parecido na mesma década. As fragatas da classe Niterói foram projetadas pelo estaleiro britânico Vosper Thornycroft e entraram em serviço entre 1976 e 1980, segundo a Revista Marítima Brasileira, publicação da própria Marinha.

Elas também usam canhões de 114 milímetros, o mesmo calibre do Santísima Trinidad, que passaram por testes de tiro real com novos diretores de tiro na modernização descrita pela revista em 2002. Diferente do destróier argentino, os navios brasileiros ainda estavam em serviço e em modernização em 2002, 20 anos depois da Guerra das Malvinas.

Da torre de proa ao gramado do Fuerte Barragán

O Santísima Trinidad desceu ao rio em Ensenada em 1974, e é para lá que volta agora a peça que ficava na proa, à frente da ponte de comando. Foi desse navio que os botes desceram para as ilhas na noite de 1º de abril de 1982.

O canhão fica sob a guarda dos veteranos da associação Soberanía y Memoria, a poucos quilômetros do estaleiro de Río Santiago. O destino do resto do casco, vendido segundo a Armada e ainda preso à disputa judicial em Bahía Blanca, não foi informado.

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1 Comentário
Guilherme Simas
Guilherme Simas
19/10/2026 11:24

Eu lembro claramente desta história, eu era militar da MB turna 1/82 Tamandaré, e havia terminado treinamento no batalhão de Toneleiros nesta época. Esta peça é uma relíquia para nossos queridos irmãos Argentinos.