Pela nota oficial, cada caça abateu um drone sobre o Mar Negro, mas a fala do ministro diverge em dois pontos; no Brasil, o Exército ainda testa bloqueadores e radares contra drones.
Os pilotos de alerta da Romênia tiveram dois minutos para derrubar o primeiro drone russo Geran que entrou no espaço aéreo do país no sábado, 17 de outubro. O segundo durou cinco minutos, e os dois caíram em águas territoriais romenas perto de Sulina, no Mar Negro, informa o Ministério da Defesa Nacional (MApN) nas notas de imprensa 336 e 337.
Na coletiva de domingo, o ministro interino da Defesa, Radu Miruță, disse que os drones voavam a 450 km/h e que a Romênia nunca tinha abatido um modelo assim. No Brasil, o Exército testou em agosto bloqueadores, radares e canhões contra drones num exercício que ele próprio apresenta como experimentação, e a compra do sistema antiaéreo europeu ainda não tem contrato.
Como foram os quatro minutos sobre o Mar Negro
O radar militar romeno indicou um grupo de alvos a cerca de 120 km a leste da Ilha das Serpentes, em rumo sudoeste. Dois F-16 da Base Aérea 86, em Borcea, perto de Fetești, decolaram às 17h43 locais, 11h43 em Brasília, numa missão de policiamento aéreo, registra a nota 336.
O primeiro alvo entrou no espaço aéreo romeno às 17h59 e caiu às 18h01, a sudeste de Sulina. O segundo entrou às 18h01 e caiu às 18h05, a leste da cidade. Pela nota 336, cada F-16 derrubou um dos drones.
Na atualização, a nota 337 identifica os alvos como drones de ataque da família Geran, com propulsão a jato. O ministério não informa qual arma os caças usaram.
A conta do tempo de reação
A 450 km/h, um drone percorre 7,5 km por minuto. Em dois minutos, são cerca de 15 km de voo, a distância que o primeiro Geran cobriu dentro do espaço aéreo romeno até ser atingido, se manteve a velocidade citada pelo ministro.
Na prática, os caças já estavam no ar quando os alvos cruzaram a linha. A decolagem aconteceu 16 minutos antes da primeira entrada, e o abate veio logo depois. Miruță chamou de inédito o fato de os drones terem caído poucos instantes depois de entrar no país, segundo a Digi24.
Por que o ministro fala em primeira vez
Não é o primeiro abate de drone sobre a Romênia em 2026. No fim de julho, as Forças Armadas do país derrubaram três drones em três dias, nos dias 24, 25 e 26, e o presidente Nicușor Dan identificou o primeiro como um Shahed.
A novidade, diz Miruță, é o modelo. Ele afirmou à Digi24 que a velocidade de 450 km/h “nos leva a pensar” em drones Geran-4 de origem russa, e completou que “é a primeira vez que derrubamos drones assim”. A identificação como Geran-4 é, portanto, uma dedução do ministro; a nota oficial fala só em “família Geran”.
O ineditismo vale para a Romênia. Na Ucrânia, o 1020º Regimento de Mísseis Antiaéreos derrubou um Geran-4 com um drone interceptador STING, da fabricante Wild Hornets, segundo o site ucraniano Militarnyi, em 3 de maio.
Onde a fala do ministro e a nota oficial não batem
Miruță listou três ineditismos na coletiva no distrito de Gorj, segundo a Digi24. Um deles seria o mesmo “echipaj”, a tripulação, ter derrubado os dois drones. A nota 336 diz outra coisa: um F-16 abateu o primeiro alvo e o outro F-16 abateu o segundo.
A segunda diferença está no motor. O ministro falou em drones “com turbopropulsor”, enquanto a nota 337 registra propulsão a jato. O Militarnyi descreve o Geran-4 com um turborreator, que é motor a jato, e não hélice.
Sobre o armamento, o ministro citou apenas “limitações de carga e de intervenção” dos caças, segundo a Digi24. O ministério não divulgou qual míssil ou canhão foi disparado.
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Quanto corre o Geran-4
O Militarnyi informa que o Geran-4 tem velocidade de cruzeiro de 350 a 500 km/h e alcance de até 850 km. O antecessor, o Geran-3, voa de 280 a 330 km/h e alcança 600 km, segundo o mesmo site ucraniano.
Os 450 km/h citados por Miruță ficam dentro da faixa do Geran-4. É uma vez e meia a velocidade do Geran-3, o que reduz o tempo que a defesa tem entre ver o alvo e disparar. O turborreator do novo modelo tem 160 kgf de empuxo, cerca do dobro do motor chinês usado no Geran-3, diz o Militarnyi.
Uma semana de alertas na fronteira
O abate de sábado fecha uma semana tensa. Segundo a nota 337, o radar romeno detectou alvos aéreos no espaço aéreo ucraniano perto da fronteira em oito ocasiões, e em quatro delas drones entraram por pouco tempo no território da Romênia.
No mesmo período, navios mercantes foram atingidos por drones no Mar Negro, alguns em águas territoriais romenas, registra o ministério. A pasta afirma que adapta de forma contínua os procedimentos para proteger o espaço aéreo e as águas do país.
Como é no Brasil
O Brasil não enfrenta drones de ataque na fronteira, mas o Exército começou a treinar contra eles. No Exercício Sagitta Primus 2026, no Campo de Instrução de Formosa, em Goiás, mais de 500 militares de 23 organizações militares fizeram a primeira experimentação de uma seção anti-SARP, informou o Exército pela Agência Gov em 7 de agosto.
A seção, coordenada pelo Centro de Doutrina do Exército, testou o abate físico e o corte das frequências que controlam o drone. Houve disparos do canhão do blindado Gepard e de metralhadoras .50 na viatura Guarani, com os radares SABER M60 e SABER M200.
Na guerra eletrônica, o 1º Batalhão de Guerra Eletrônica operou os bloqueadores SCE 0100, da IACIT, e SCJ 2000M, da AICOX. Esses testes de radares e bloqueadores são etapa de avaliação, e não compra de equipamento para as unidades.
A compra que ainda não fechou
Para alvos mais rápidos e mais altos, o Exército negocia o sistema europeu EMADS, da MBDA, numa compra de até R$ 3,4 bilhões. As conversas foram noticiadas pela CNN Brasil em dezembro de 2025, e não há contrato definitivo conhecido.
Hoje, portanto, o país não tem uma camada antidrone de curto alcance comprada e em operação, só equipamentos em teste. Na Romênia, a defesa contra o Geran ficou com os caças, que precisam estar no ar antes de o drone cruzar a fronteira.
Os próximos passos em Bucareste e em Brasília
Na nota 336, o MApN prometeu mais informações ao fim da missão, e a atualização ainda não diz qual arma foi usada nem confirma o modelo exato. A dedução de que eram Geran-4 segue como fala do ministro, que ocupa o cargo de forma interina.
No Brasil, o passo seguinte é a assinatura do contrato do EMADS, que ainda não tem data, e a avaliação dos equipamentos testados em Formosa. Até lá, a seção anti-SARP do Exército existe como experimento de doutrina, não como unidade.