Deputado deixou a disputa pelo Rio de Janeiro, transferiu o domicílio eleitoral para Roraima por orientação de Jair Bolsonaro e apostou na ligação histórica com a família, mas terminou com 13,07% dos votos
Hélio Lopes (PL) transformou a eleição de 2026 em uma aposta política de alto risco. Deputado federal eleito pelo Rio de Janeiro, ele transferiu seu domicílio eleitoral para Roraima, lançou-se candidato ao Senado, recebeu apoio de integrantes da família Bolsonaro e tentou levar para a urna uma identificação que sintetizava boa parte de sua trajetória eleitoral: “Hélio Bolsonaro”.
A Justiça Eleitoral, porém, impediu o uso do sobrenome. Meses depois, nas urnas, Lopes terminou a eleição para o Senado em quinto lugar, com 78.856 votos, equivalentes a 13,07%, segundo os resultados divulgados após a votação de 4 de outubro. As duas vagas ficaram com Nicoletti (PL), com 22,88%, e Teresa Surita (MDB), com 19,21%.
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O resultado chama atenção não apenas pela derrota de um nome nacionalmente associado ao bolsonarismo. A candidatura reuniu três elementos pouco usuais em uma mesma disputa: mudança de estado para concorrer ao Senado, resistência dentro do próprio partido em Roraima e uma batalha judicial sobre o nome que apareceria diante do eleitor.
Justiça impediu que “Hélio Bolsonaro” aparecesse na urna
O Tribunal Regional Eleitoral de Roraima autorizou a candidatura de Hélio Lopes, mas rejeitou o pedido para que ele aparecesse na urna como “Hélio Bolsonaro”.
Com isso, a identificação eleitoral utilizada foi Hélio Fernando Barbosa Lopes, seu nome civil.
A discussão chegou ao Tribunal Superior Eleitoral. Em decisão sobre recurso apresentado pelo candidato, o ministro Ricardo Villas Bôas Cueva manteve, naquele momento, a restrição imposta pelo TRE-RR e considerou que não estavam presentes os requisitos para suspender a decisão regional.
O ponto central era a possibilidade de o nome escolhido provocar dúvida sobre a identidade do candidato. A legislação eleitoral permite prenomes, sobrenomes, cognomes e apelidos na urna, desde que não provoquem confusão para o eleitor.
Segundo a decisão do TSE, o TRE-RR havia considerado que “Hélio Bolsonaro” poderia gerar dúvida objetiva quanto à identidade do candidato.
A discussão não era inédita.
Em 2022, quando Hélio Lopes disputou novamente uma vaga de deputado federal pelo Rio de Janeiro, o TRE-RJ já havia rejeitado a tentativa de utilização de “Hélio Bolsonaro”. Na ocasião, o tribunal registrou que a amizade com a família Bolsonaro não era suficiente para fundamentar o uso eleitoral do sobrenome.
Esse detalhe importa porque o sobrenome não funcionava apenas como uma forma de identificação informal. Ele condensava, em duas palavras, uma associação política construída durante anos.
De deputado pelo Rio a candidato ao Senado por Roraima
A candidatura também começou distante do estado pelo qual Hélio Lopes acabaria concorrendo.
Ele havia sido eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro, mas transferiu seu domicílio eleitoral para Roraima para disputar uma das duas vagas ao Senado em 2026.
Segundo a CNN Brasil, a mudança ocorreu por orientação de Jair Bolsonaro. A movimentação provocou reação dentro do próprio diretório estadual do PL. Em março, dirigentes locais disseram ter sido surpreendidos e defenderam que Roraima precisava de representantes com conhecimento da dinâmica política, social e econômica do estado e vínculo efetivo com a população.
A resistência indicava um obstáculo que acompanharia a campanha: Hélio Lopes chegava com forte identificação nacional com o bolsonarismo, mas precisava transformar esse capital político em votos dentro de um eleitorado estadual específico.
Segundo o UOL, Lopes afirmou ter transferido seu título eleitoral para Roraima a pedido do ex-presidente e não havia morado anteriormente no estado.
Era uma estratégia que colocava à prova até onde a força de uma liderança nacional poderia ser transportada para uma eleição regional.
Família Bolsonaro entrou na campanha e Hélio foi apresentado como “06”
O vínculo com Jair Bolsonaro foi utilizado diretamente na construção da candidatura.
Hélio Lopes mantém relação pessoal e política com o ex-presidente há décadas e ganhou projeção nacional principalmente após as eleições de 2018.
Durante a campanha de 2026, recebeu manifestações de apoio de integrantes da família Bolsonaro. Eduardo Bolsonaro chegou a apresentá-lo como “06”, numa referência informal à sequência de filhos do ex-presidente, enquanto Flávio Bolsonaro também participou de seu palanque político.
O apoio de nomes como Nikolas Ferreira reforçou a tentativa de nacionalizar a candidatura e apresentar Lopes ao eleitorado de Roraima como representante direto do campo bolsonarista.
Ao mesmo tempo, havia um adversário dentro do próprio PL concorrendo às vagas do estado: Nicoletti.
No fim da apuração, justamente um candidato do mesmo partido terminou à frente.
78.856 votos colocaram Hélio Lopes apenas na quinta posição
A força das alianças nacionais não foi suficiente para assegurar uma cadeira no Senado.
Hélio Lopes recebeu 78.856 votos, correspondentes a 13,07%, e terminou em quinto lugar.
Nicoletti, também do PL, conquistou uma das vagas com 22,88%. A outra ficou com Teresa Surita, do MDB, que alcançou 19,21%.
O desempenho contrasta com um dos momentos mais marcantes da trajetória eleitoral de Lopes.
Em 2018, impulsionado pela associação política com Jair Bolsonaro, ele foi eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro com 345.234 votos, tornando-se naquela eleição o candidato mais votado para a Câmara no estado.
O cenário de 2026 era diferente. Lopes precisava conquistar um eleitorado novo, enfrentava lideranças já estabelecidas em Roraima e não conseguiu colocar na urna o sobrenome pelo qual parte significativa do público passou a reconhecê-lo politicamente.
Não é possível atribuir a derrota exclusivamente à proibição do nome “Bolsonaro”. Eleições estaduais envolvem estrutura partidária, alianças locais, rejeição, distribuição territorial do voto e força dos adversários. O que o resultado permite afirmar é que a associação política construída durante anos não bastou para colocar Hélio Lopes entre os dois candidatos mais votados do estado.
Nome de urna virou parte central de uma campanha que terminou sem vaga
A disputa jurídica sobre “Hélio Bolsonaro” acabou transformando o próprio nome de urna em um dos elementos mais visíveis da campanha.
O Ministério Público Eleitoral havia defendido que a utilização do sobrenome poderia gerar dúvida sobre a identidade do candidato e produzir uma vantagem decorrente da associação com a família Bolsonaro, descrita no processo como uma espécie de “efeito carona”.
Hélio Lopes contestou essa interpretação e tentou reverter a restrição.
Não conseguiu.
Em 4 de outubro, chegou às urnas identificado por seu nome civil e terminou fora das duas vagas disponíveis para o Senado por Roraima.
A tentativa de transferir para outro estado o capital político construído ao lado de Jair Bolsonaro encerrou a eleição com um resultado objetivo: quinto lugar e 13,07% dos votos.
Os resultados eleitorais e os dados sobre a campanha foram divulgados por UOL e Agência O Globo. A controvérsia sobre o nome eleitoral foi analisada pelo TRE-RR e pelo Tribunal Superior Eleitoral, enquanto a reação à transferência do domicílio eleitoral foi registrada pela CNN Brasil.