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33 mil bolivianos pagaram para ter a caderneta militar sem servir, enquanto no Brasil a multa custa quase nada

Jefferson Silva
Por Jefferson Silva 11/10/2026 às 11:34
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33 mil bolivianos pagaram para ter a caderneta militar sem servir, enquanto no Brasil a multa custa quase nada
Recrutas bolivianos em formação, com fuzis, numa rua de Cochabamba. Foto: Israel_soliz, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

A taxa boliviana equivale a R$ 1.684 e ficou mais barata em dólar com o fim do câmbio fixo; aqui, multa e Taxa Militar têm o mesmo valor, de poucos reais.

Pelo menos 33.783 bolivianos pagaram, de 2021 ao início de setembro de 2026, para receber a caderneta do serviço militar sem ter servido, segundo dados da Dirección General Territorial Militar da Bolívia passados com exclusividade ao site Erbol. A taxa é de 4.000 bolivianos, cerca de R$ 1.684, mais 200 bolivianos por ano de atraso. No Brasil, onde todo homem precisa se alistar aos 18 anos, quem perde o prazo paga uma multa de poucos reais.

Em janeiro, essa multa estava em R$ 6,46, segundo o jornal Tribuna de Jundiaí, valor cerca de 260 vezes menor que a taxa boliviana. A conta em reais usa a PTAX de venda de 9 de outubro (R$ 4,9892 por dólar) e o câmbio oficial boliviano do mesmo dia (11,85 bolivianos por dólar), o que dá R$ 0,4210 por boliviano.

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Seis anos de pagamentos, ano a ano

O ano com mais pagamentos foi 2021, com 6.679 redenções, nome que os bolivianos dão ao trâmite. Depois vieram 6.000 em 2022, 5.335 em 2023 e 5.028 em 2024, segundo a Erbol. O número voltou a subir em 2025, para 5.829, e chegou a 4.912 em 2026 até o início de setembro.

A redenção vale para quem já passou da idade militar, a partir dos 23 anos, e é feita nas regiões militares. “Todos os que já estão fora da idade militar necessariamente têm de fazer um trâmite de redenção”, disse à Erbol o diretor-geral Territorial Militar, Miguel Ángel Coronado.

A reportagem é assinada por Karem Mendoza G. e foi publicada no sábado, 10 de outubro. Somados, os seis números batem com o total de 33.783 informado pela direção militar.

O fim do câmbio fixo barateou a taxa em dólar

Até junho, o boliviano tinha câmbio fixo de 6,96 por dólar, e os 4.000 bolivianos da redenção equivaliam a cerca de US$ 575. Em 26 de junho de 2026, o Banco Central de Bolivia adotou o câmbio flexível pela Resolução de Diretório 88/2026.

Na tabela oficial do banco, o dólar fechou em 11,85 bolivianos em 9 de outubro. Com isso, a mesma taxa caiu para cerca de US$ 338, ou R$ 1.684, e cada ano de atraso soma uns R$ 84. Quem passou cinco anos da idade paga 5.000 bolivianos, perto de R$ 2.105.

Os pagamentos de 2021 a junho de 2026 foram feitos no câmbio fixo e, em valores nominais da época, saíam mais caros em dólar. A conversão pelo câmbio de hoje serve só para comparar com o Brasil agora.

No Brasil, o alistamento no prazo é de graça

A Lei do Serviço Militar, nº 4.375, de 1964, manda todo brasileiro se apresentar no ano em que completa 18 anos, no parágrafo único do artigo 13. O regulamento, o Decreto 57.654, de 1966, fixa esse prazo nos primeiros seis meses do ano, e o site de alistamento do Exército informa que o alistamento nesse período é gratuito.

Quem perdeu o prazo cai no artigo 46 da lei, que manda cobrar a multa mínima de quem não se apresenta a tempo. O jovem fica em débito com o serviço militar até pagar, segundo o mesmo site do Exército, e só então se alista na Junta.

Uma multa presa a um índice que acabou em 2000

O artigo 175 do regulamento, na redação do Decreto 627, de 1992, diz que a multa mínima vale 1,3 Ufir, a Unidade Fiscal de Referência criada em 1991. A Ufir foi extinta em 2000, quando valia pouco mais de R$ 1, e o valor passou a ser corrigido desde então.

O Exército não publica o número no site de alistamento e diz apenas que a multa é corrigida de três em três meses. Os R$ 6,46 de janeiro foram informados pela Tribuna de Jundiaí, em reportagem de 7 de janeiro de 2026, sem citar a origem do valor.

Taxa militar custa o mesmo que a multa

A maioria dos brasileiros alistados não chega a servir e recebe o Certificado de Dispensa de Incorporação. Pelo artigo 69 da lei, quem ganha esse certificado ou adia a incorporação paga a Taxa Militar, cobrada pelo valor da multa mínima.

O parágrafo único do mesmo artigo isenta quem provar que não pode pagar. O regulamento, no artigo 225, aceita para isso atestado de pobreza dado por serviço de assistência social oficial ou pela autoridade policial.

No Brasil, portanto, a dispensa e o atraso custam alguns reais cada. Na Bolívia, o homem que passa dos 23 anos sem servir paga, de uma vez, o equivalente a mais de R$ 1.600 para ter o documento.

Pagar não é objeção de consciência

A Erbol deixa claro que a redenção não é objeção de consciência. A Constituição boliviana, no artigo 249, obriga todo boliviano a prestar o serviço militar, e Coronado disse que a lei atual não prevê a objeção. Existem serviços alternativos de busca e resgate na Força Aérea e na Marinha, com formação de dois anos.

A reportagem lembra dois casos. Alfredo Díaz Bustos, testemunha de Jeová, obteve a caderneta por acordo com o Estado nos anos 2000, e José Ignacio Orías pediu em 2015 para não servir por razões de consciência. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos admitiu a denúncia de Orías contra a Bolívia em 2020.

No Brasil, a regra é outra. O artigo 143 da Constituição manda as Forças Armadas atribuírem serviço alternativo a quem, depois de alistado, alegar imperativo de consciência em tempo de paz.

As outras portas para a caderneta

A redenção não é o único caminho para o documento. No mesmo período, a direção militar registrou 5.426 cadernetas por deficiência e 5.178 de oficial da reserva, segundo a Erbol.

Outras 3.206 saíram na chamada série P, que a direção agrupa com outras modalidades auxiliares ao serviço militar. A reportagem não explica o que define essa série.

O serviço obrigatório é dividido em dois escalões e recebe cerca de 30 mil jovens por ano nas Forças Armadas. Mais de 18 mil estudantes fazem ainda o serviço pré-militar voluntário, de acordo com os dados passados à Erbol.

Quase 5 mil redenções num ano de luto nos quartéis

As 4.912 redenções de 2026 foram contadas num ano em que explosões no Regimento Bolívar, em Viacha, deixaram 14 mortos em setembro, 13 deles conscritos, segundo a Erbol. O site cita ainda levantamento do jornal Opinión com a plataforma Connectas que identificou 62 conscritos mortos entre 2011 e 2023.

Mesmo assim, Coronado defende que o serviço continue obrigatório enquanto o país não tiver dinheiro para manter Forças Armadas só com soldados profissionais. Até lá, quem passa da idade sem servir continua pagando 4.000 bolivianos pela caderneta.

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