O Brasil chegou a avançar, em 1951, na negociação de uma força terrestre de tamanho muito maior do que uma missão simbólica para a Guerra da Coreia. Um rascunho classificado como “secret” pelo governo dos Estados Unidos previa que o país formaria uma divisão de infantaria, organizada nos moldes americanos, com efetivo 20% acima da dotação normal e preparação para embarque em até seis meses.
O documento, datado de 27 de setembro de 1951 e hoje disponível no arquivo oficial do Departamento de Estado dos Estados Unidos, ia além da formação inicial da tropa. O planejamento calculava uma reposição mensal equivalente a 10% do efetivo, exigindo no Brasil um fluxo contínuo de militares treinados para substituir baixas, feridos, doentes e outros afastamentos ao longo da campanha.
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A proposta dependia de aprovação do Congresso brasileiro e fazia parte de uma negociação mais ampla entre os dois países. Washington oferecia treinamento, instrutores, transporte, equipamento e apoio logístico no teatro de operações, enquanto Brasília buscava reforço militar e condições para ampliar sua própria capacidade de defesa.
Divisão brasileira seria preparada em seis meses para seguir à Coreia
O rascunho determinava que o treinamento especial de combate começaria sem demora. A meta era deixar a divisão pronta para movimento ao exterior seis meses depois, com organização semelhante à de uma divisão de infantaria dos Estados Unidos e um efetivo superior ao padrão para absorver perdas e manter a unidade funcionando em combate.

O Brasil entregaria uma lista detalhada das carências de equipamento. Os Estados Unidos forneceriam material adicional disponível para treinamento e, quando a força chegasse ao teatro de guerra, completariam as faltas usando estoques existentes, buscando equipar os brasileiros no mesmo padrão adotado para unidades americanas equivalentes.
Instrutores americanos poderiam atuar na preparação da tropa, enquanto militares brasileiros receberiam vagas em escolas do Exército dos Estados Unidos. Depois do treinamento, o transporte da divisão sairia do Brasil em coordenação com Washington, que também assumiria o apoio logístico durante a permanência no conflito.
Plano exigia reposição de 10% dos homens todos os meses
Para fins de planejamento, o Brasil deveria preparar substitutos treinados em ritmo equivalente a 10% da divisão por mês. A taxa final seria ajustada pela experiência em combate, mas o número já colocava sobre o país a obrigação de manter uma cadeia permanente de reposição enquanto a força estivesse no exterior.
O material de treinamento fornecido pelos Estados Unidos permaneceria no Brasil por empréstimo enquanto fosse necessário preparar os contingentes de reposição. Isso criaria duas frentes simultâneas: uma divisão empregada no exterior e uma estrutura de formação em território brasileiro capaz de alimentar continuamente essa força.
Em agosto daquele ano, uma reunião secreta registrada pelo Departamento de Estado já mostrava a escala da proposta. Representantes americanos disseram ao general Pedro Aurélio de Góes Monteiro que esperavam receber preferencialmente uma divisão e que forneceriam o necessário para equipá-la, treiná-la e transportá-la. O Brasil ficaria responsável pela reposição de pessoal, enquanto feridos e incapacitados seriam trazidos de volta ao país.
Vargas colocou estabilidade interna e desenvolvimento antes do envio de tropas
A negociação militar esbarrava em condições políticas e econômicas apresentadas pelo governo de Getúlio Vargas. Em 17 de agosto de 1951, Góes Monteiro levou instruções que colocavam a estabilidade interna como primeira prioridade brasileira. Enquanto essa situação não estivesse assegurada, o governo considerava impossível mandar tropas para a Coreia.

A segunda prioridade era o desenvolvimento econômico, com destaque para indústria, transportes e energia. O memorando registrou que a capacidade brasileira de participar da guerra dependeria da quantidade e da velocidade da ajuda econômica e militar recebida dos Estados Unidos. Quanto maior e mais rápida fosse essa assistência, mais cedo o Brasil poderia assumir compromissos externos.
Os americanos ofereceram um incentivo militar direto. Segundo o registro, a participação brasileira na Coreia elevaria o país da categoria seis para a categoria um dentro das prioridades de apoio dos Estados Unidos. A conversa mencionou ainda US$ 40 milhões que Washington buscava no Congresso para ajuda militar à América Latina, verba separada da operação coreana.
Acordo deveria permanecer secreto por pelo menos seis meses
Góes Monteiro afirmou que qualquer arranjo precisaria permanecer completamente secreto por pelo menos seis meses, especialmente para permitir a formação de opinião pública favorável no Brasil. A exigência dialogava diretamente com a necessidade de obter apoio político doméstico antes de oferecer uma divisão brasileira ao comando da ONU.
Em outubro, após a fase mais intensa das conversas em Washington, o Departamento de Estado ainda descrevia a obtenção de uma oferta brasileira como objetivo prioritário. Uma carta de 23 de outubro registrou que Góes Monteiro parecia disposto a voltar ao Brasil e defender o envio da divisão, mas o governo americano ainda não conhecia a reação final de Brasília ao projeto entregue em setembro.
Estados Unidos assumiriam transporte e logística, mas Brasil teria de reembolsar a ajuda
O apoio americano previsto era amplo. Os Estados Unidos transportariam a força brasileira até o teatro de guerra, manteriam o suporte logístico no mesmo padrão de suas próprias divisões e forneceriam equipamento existente para completar a dotação da unidade. Pagamento de pessoal e uniformes distintivos ficariam entre os itens tratados separadamente.
O acordo também previa que o Brasil reembolsaria os Estados Unidos pela assistência recebida. Os termos seriam negociados depois, seguindo princípios semelhantes aos aplicados a outros países que enviavam forças à Coreia. Washington tentava ampliar a participação de aliados e, ao mesmo tempo, definir como os custos de apoio seriam cobrados no futuro.
Documentos do período indicam que uma participação brasileira poderia produzir efeito sobre outros países latino-americanos. A Colômbia já havia enviado um batalhão e uma fragata, enquanto os Estados Unidos buscavam novas forças na região para dividir o esforço militar e político da campanha.
Em outubro de 1951, a operação ainda dependia da resposta política de Brasília e da aprovação do Congresso brasileiro. Até aquele ponto, porém, já estavam desenhados o tamanho da força, o prazo de preparação, a reposição mensal, o treinamento, o transporte, a logística, o equipamento e a futura cobrança da assistência americana.
Setenta e cinco anos depois, os registros permitem medir até onde a negociação chegou antes da decisão política final. Você acredita que uma divisão brasileira na Guerra da Coreia teria mudado a posição militar e diplomática do país nas décadas seguintes? Deixe sua opinião nos comentários e compartilhe a matéria.