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Memorando confidencial revela pressão dos EUA por tropas brasileiras no Vietnã na mesma reunião em que Castelo Branco foi informado de empréstimo de US$ 150 milhões

Documento secreto mostra que os EUA pressionaram Castelo Branco por tropas brasileiras para o Vietnã na mesma reunião em que comunicaram empréstimo de US$ 150 milhões; Brasil acabou enviando apenas café e material médico.

Marcos
Por Marcos 05/10/2026 às 07:37
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Memorando confidencial revela pressão dos EUA por tropas brasileiras no Vietnã na mesma reunião em que Castelo Branco foi informado de empréstimo de US$ 150 milhões

Os Estados Unidos fizeram em dezembro de 1965 uma pressão direta sobre o presidente Humberto de Alencar Castelo Branco para tentar obter tropas brasileiras para a Guerra do Vietnã. O pedido apareceu em um memorando secreto enviado a Lyndon B. Johnson e foi levado ao brasileiro na mesma reunião em que o embaixador Lincoln Gordon comunicou um empréstimo de US$ 150 milhões ao país.

O registro, hoje disponível no arquivo oficial do Departamento de Estado dos Estados Unidos, diz que Gordon fez uma pressão “muito forte” pelo envio de tropas e deixou claro a Castelo Branco quanto o tema importava ao presidente americano. O governo dos EUA havia decidido separar formalmente o empréstimo da questão militar, mas colocou os dois assuntos na mesma conversa.

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Castelo Branco respondeu que estudaria o pedido e apontou um obstáculo imediato: pela Constituição brasileira, o envio de tropas ao exterior dependia de aprovação do Congresso. Naquele momento, o Legislativo só voltaria a se reunir em março. Mesmo assim, Washington decidiu continuar trabalhando pela participação brasileira.

Empréstimo de US$ 150 milhões foi aprovado dias antes do pedido por tropas

Quatro homens de terno reunidos em torno de documentos durante um encontro oficial em 1965.
Registro de 1965 identificado pelo Acervo Arquivo Nacional como encontro envolvendo Lincoln Gordon e o governo Castelo Branco. Crédito: Domínio público / Acervo Arquivo Nacional.

A sequência registrada nos documentos mostra como as duas agendas correram lado a lado. Em 3 de dezembro de 1965, o secretário de Estado Dean Rusk enviou a Johnson um memorando recomendando um programa de crédito de US$ 150 milhões para o Brasil em 1966. O objetivo declarado era financiar importações e apoiar o programa econômico do governo Castelo Branco.

Johnson aprovou o empréstimo em 11 de dezembro. Na mesma documentação, porém, aparece a urgência americana para conseguir uma contribuição brasileira para o Vietnã. Harriman informou a Gordon que o crédito não estava condicionado ao envio de forças, enquanto o Departamento de Estado pedia orientação para abordar Castelo Branco sobre uma possível participação militar.

Gordon reagiu com cautela. Segundo a nota histórica do memorando de Dean Rusk, o embaixador alertou que uma ligação entre o empréstimo e o Vietnã poderia provocar forte ressentimento no presidente brasileiro. Washington aceitou tratar os temas separadamente, mas determinou que Gordon levasse o pedido de contribuição militar em caráter oficial, em nome de Johnson.

Conversa de 15 de dezembro foi longa e séria

Quatro dias depois da aprovação do crédito, Gordon se reuniu com Castelo Branco. Um segundo documento secreto, assinado por Averell Harriman em 23 de dezembro, descreveu a conversa de 15 de dezembro como “longa e séria”. O embaixador explicou em detalhes o que Washington queria e afirmou que, embora o empréstimo não dependesse de tropas brasileiras, esperava-se que o presidente fizesse todo o esforço possível para ajudar no Vietnã.

Retrato oficial em preto e branco de homem usando terno escuro, faixa presidencial e gravata branca.
Retrato oficial de Humberto Castelo Branco, presidente do Brasil entre 1964 e 1967. Crédito: Governo do Brasil / Galeria de Presidentes, domínio público.

Castelo Branco prometeu considerar o assunto. O problema político, porém, era maior do que funcionários americanos esperavam. Além da exigência de aprovação do Congresso, o governo teria de administrar internamente a ideia de colocar militares brasileiros em uma guerra distante na Ásia, quando o país já vivia forte tensão política após a mudança de regime de 1964.

Washington colocou o Brasil como primeiro alvo na América Latina

O pedido brasileiro fazia parte de uma campanha muito mais ampla para aumentar o número de países envolvidos ao lado dos Estados Unidos e do Vietnã do Sul. No memorando de Harriman a Johnson, Washington discutia contribuições de governos europeus e asiáticos e buscava novas tropas, equipes médicas, apoio material e outras formas de participação.

Na América Latina, o texto é direto: “Brazil is the first case”. O Brasil vinha de uma atuação militar internacional recente na República Dominicana, onde havia fornecido um contingente relevante à Força Interamericana de Paz. Para Washington, esse histórico tornava plausível tentar obter outra contribuição fora do continente.

O general Vernon Walters, então adido militar americano no Brasil e próximo de Castelo Branco, foi colocado junto de Gordon no acompanhamento do tema. O memorando de 31 de dezembro enviado por McGeorge Bundy a Johnson registrou que os dois continuariam acompanhando o pedido e avaliavam que, com tempo, alguma forma de contribuição brasileira ainda poderia ser obtida.

Documento secreto chegou à mesa de Lyndon Johnson

Homens civis e militares sentados ao redor de uma mesa durante reunião oficial na Casa Branca em 1965.
Reunião sobre o Vietnã na Casa Branca em 27 de julho de 1965; a identificação da LBJ Library inclui Lyndon Johnson, McGeorge Bundy e Robert McNamara. Crédito: LBJ Library / Governo dos Estados Unidos, domínio público.

O grau de interesse presidencial aparece na própria circulação do material. O memorando de Bundy foi classificado como “Secret”, enviado a Johnson no Texas e, segundo a nota do arquivo oficial, visto pelo presidente. Bundy relatou que Gordon havia deixado claro a Castelo Branco quanto a questão das tropas importava pessoalmente ao chefe da Casa Branca.

A formulação usada no documento também separava cuidadosamente o dinheiro da exigência militar. O empréstimo seguia uma justificativa econômica e política própria, enquanto o pedido de tropas era tratado como uma demanda paralela de Washington. Os dois assuntos, contudo, chegaram ao presidente brasileiro no mesmo encontro, o que tornou aquela conversa de dezembro uma das passagens mais delicadas da relação bilateral naquele momento.

Brasil ficou fora da guerra e limitou ajuda a itens não militares

A insistência americana não produziu o resultado desejado. O Brasil não enviou tropas nem suprimentos militares ao Vietnã. O registro histórico do Departamento de Estado informa que a participação brasileira acabou restrita ao fornecimento de café e material médico.

O empréstimo de US$ 150 milhões seguiu outro caminho e foi formalizado entre Brasil e Estados Unidos em 10 de fevereiro de 1966. A guerra, por sua vez, continuou escalando, e Washington manteve esforços para ampliar a presença de aliados. A tentativa de obter soldados brasileiros terminou como uma negociação documentada nos arquivos americanos, mas sem transformar o Brasil em participante militar do conflito.

O episódio mostra até onde chegou a pressão diplomática dos Estados Unidos sobre Brasília no auge da Guerra Fria: um pedido oficial de tropas, acompanhado de contatos posteriores do embaixador e do adido militar, chegou diretamente a Castelo Branco e foi acompanhado pela Casa Branca. Você acha que o Brasil teria aprovado o envio se o tema chegasse ao Congresso? Deixe sua opinião nos comentários e compartilhe a matéria.

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