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Enquanto moderniza seus tanques TAM 2C-A2, Argentina prepara até 235 Stryker 8×8: entenda por que o Exército aposta ao mesmo tempo em lagartas e rodas

Felipe Alves da Silva
Por Felipe Alves da Silva 05/10/2026 às 10:17
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Enquanto moderniza seus tanques TAM 2C-A2, Argentina prepara até 235 Stryker 8×8: entenda por que o Exército aposta ao mesmo tempo em lagartas e rodas
Argentina moderniza o TAM 2C-A2 e prepara até 235 Stryker 8×8, combinando tanques sobre lagartas e blindados sobre rodas. Foto: Exército Argentino

A modernização argentina avança em duas frentes diferentes: o veterano TAM ganha sensores e controle de tiro modernos, enquanto uma nova família Stryker é preparada para dar mobilidade protegida às brigadas mecanizadas

O Exército Argentino está construindo duas capacidades blindadas ao mesmo tempo. De um lado, moderniza seus tradicionais carros de combate TAM para o padrão TAM 2C-A2, preservando a força baseada em veículos sobre lagartas. Do outro, abriu caminho para incorporar até 235 Stryker 8×8, uma família de blindados sobre rodas destinada a transporte de tropas, comando, evacuação médica e outras funções.

À primeira vista, os dois programas poderiam parecer concorrentes. Não são.

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O TAM 2C-A2 continua ocupando o espaço do carro de combate, concentrando poder de fogo, proteção e capacidade de acompanhar formações blindadas. O Stryker, por sua vez, amplia a mobilidade protegida da infantaria e permite formar unidades capazes de percorrer grandes distâncias com velocidade e menor exigência logística.

Essa diferença ajuda a explicar por que os dois tipos apareceram juntos justamente agora, quando veículos argentinos começaram a ser enviados ao Brasil para o Exercício Combinado Arandú 2026.

O que está surgindo na Argentina não é apenas uma frota renovada. É uma estrutura na qual lagartas e rodas deverão cumprir tarefas diferentes dentro da mesma força terrestre.

Argentina assina acordo que abre caminho para até 235 Stryker

Os primeiros quatro blindados Stryker M1126 ICV 8×8 destinados ao Exército Argentino desembarcaram no porto de Zárate, na província de Buenos Aires, em 25 de novembro de 2025. Foto: Exército Argentino
Os primeiros quatro blindados Stryker M1126 ICV 8×8 destinados ao Exército Argentino desembarcaram no porto de Zárate, na província de Buenos Aires, em 25 de novembro de 2025. Foto: Exército Argentino

A mudança de escala ocorreu em 21 de agosto de 2026, quando o Ministério da Defesa argentino assinou com os Estados Unidos a Letter of Offer and Acceptance (LOA) referente ao programa Stryker.

Segundo o governo argentino, o acordo permite avançar na incorporação de até 235 veículos da família Stryker. O planejamento contempla configurações destinadas ao transporte de infantaria, comando, evacuação médica e apoio de fogo, entre outras possibilidades.

É importante fazer uma distinção: a assinatura da LOA não significa que 235 veículos já estejam fisicamente incorporados às unidades argentinas.

O documento formaliza a aceitação da oferta dentro do processo de Foreign Military Sales dos Estados Unidos e abre as etapas necessárias para implementação e transferência dos veículos.

A escala, porém, mostra o tamanho da transformação pretendida.

Antes da nova LOA, documentos do próprio Exército mencionavam um planejamento de até 209 Stryker em diversas variantes, destinados à constituição de uma brigada mecanizada sobre rodas. Em agosto, o número divulgado oficialmente passou para até 235 unidades, indicando uma ampliação do horizonte do programa.

O Stryker não está chegando para substituir o TAM

Os primeiros quatro blindados Stryker M1126 ICV 8×8 destinados ao Exército Argentino desembarcaram no porto de Zárate, na província de Buenos Aires, em 25 de novembro de 2025. Foto: Exército Argentino
Os primeiros quatro blindados Stryker M1126 ICV 8×8 destinados ao Exército Argentino desembarcaram no porto de Zárate, na província de Buenos Aires, em 25 de novembro de 2025. Foto: Exército Argentino

Esse é provavelmente o ponto mais importante para compreender os dois projetos.

O Stryker não é equivalente ao TAM.

Os primeiros veículos incorporados pela Argentina são da versão M1126, concebida principalmente para transportar infantaria protegida. O modelo empregado pelo Exército Argentino tem tração 8×8, suspensão hidropneumática, autonomia superior a 500 quilômetros e velocidade máxima superior a 100 km/h, segundo informações técnicas publicadas pela própria Força.

Sua configuração transporta dois tripulantes e nove soldados equipados e utiliza uma estação de armas remota que pode receber armamento como metralhadoras e lançadores de granadas.

É uma lógica bastante diferente daquela de um tanque.

O TAM 2C-A2 existe para colocar no terreno um veículo sobre lagartas com canhão de 105 mm, capacidade de combate direto e sistemas preparados para aquisição, acompanhamento e engajamento de alvos.

Enquanto o Stryker leva a infantaria rapidamente até a área de operações, o TAM permanece como uma das peças de maior poder de fogo da força blindada argentina.

Colocar os dois programas lado a lado, portanto, não significa escolher entre rodas ou lagartas. Significa reconhecer que cada solução atende a uma necessidade diferente.

TAM nasceu nos anos 1970, mas recebeu um interior praticamente novo

O contraste tecnológico é curioso.

O projeto original do Tanque Argentino Mediano remonta ao final da década de 1970. Décadas depois, a Argentina decidiu não abandonar a plataforma, mas reconstruir boa parte de seus sistemas internos.

TAM 2C-A2 modernizado integra a renovação da força blindada argentina, com novos sistemas de observação, aquisição e rastreamento de alvos, controle de tiro e operação em baixa visibilidade. (Imagem: TAM 2C-A2/Exército Argentino)
TAM 2C-A2 modernizado integra a renovação da força blindada argentina, com novos sistemas de observação, aquisição e rastreamento de alvos, controle de tiro e operação em baixa visibilidade. (Imagem: TAM 2C-A2/Exército Argentino)

A versão TAM 2C-A2 recebeu um sistema digitalizado de controle de tiro, câmeras térmicas e recursos para combater durante o dia ou à noite e sob condições meteorológicas adversas.

Uma das mudanças mais importantes ocorreu no acionamento da torre.

O antigo sistema hidráulico foi substituído por um sistema elétrico, enquanto a estabilização permite realizar tiro em movimento compensando irregularidades do terreno. Também foram introduzidos recursos de rastreamento e localização automática de alvos.

A modernização procura resolver justamente o maior problema de manter um veículo criado há quase meio século: o casco pode continuar útil, mas sensores, eletrônica, visão e sistemas de tiro envelhecem muito mais rapidamente.

É nesse ponto que o 2C-A2 deixa de ser apenas um TAM antigo reformado. O objetivo argentino é manter a plataforma estrutural enquanto substitui justamente os componentes que mais influenciam a capacidade de detectar e atingir um alvo.

Primeiro esquadrão modernizado recebeu dez TAM 2C-A2

Novo esquadrão de carros de combate TAM 2C-A2 incorporado pelo Exército Argentino no Complexo Militar de Magdalena. A versão modernizada recebeu avanços em observação, rastreamento de alvos, controle de tiro e operação em baixa visibilidade, dando continuidade a um programa blindado iniciado ainda na década de 1970.
O Exército Argentino ampliou sua capacidade blindada com a incorporação de um novo esquadrão de TAM 2C-A2 no Complexo Militar de Magdalena. A versão atualizada recebeu melhorias em sensores, acompanhamento de alvos, controle de tiro e atuação em condições de baixa visibilidade, dando sequência à modernização de um projeto desenvolvido originalmente na década de 1970. Foto: Divulgação/Exército Argentino

A modernização já ultrapassou a fase de protótipos.

Em dezembro de 2024, o Exército Argentino entregou dez TAM 2C-A2 ao Regimiento de Caballería de Tanques 8, formando o primeiro esquadrão equipado com a nova versão.

Em setembro de 2026, a Força informou que continuava a produção e integração dos veículos destinados a um segundo esquadrão, ao mesmo tempo em que novos operadores eram certificados.

Os trabalhos são realizados no Cuartel Militar Boulogne, envolvendo a Dirección General de Investigación y Desarrollo e o Batallón de Arsenales 602.

Isso revela outra dimensão do projeto.

Modernizar tanques não consiste apenas em instalar câmeras ou computadores. É necessário formar tripulações, preparar mecânicos, criar procedimentos de manutenção e manter uma cadeia capaz de sustentar o equipamento depois que ele chega às unidades.

O mesmo fenômeno está acontecendo com o Stryker.

Oito Stryker abriram caminho para uma frota que pode ser muito maior

O programa sobre rodas começou em uma escala bastante pequena.

O Exército informou que as primeiras oito unidades Stryker M1126 foram incorporadas por meio do programa norte-americano Foreign Military Sales. Os veículos vieram acompanhados de apoio logístico, peças e treinamento.

Em março de 2026, os primeiros Stryker operacionais foram formalmente entregues ao Regimiento de Infantería Mecanizado 6, em Toay, integrante da X Brigada Mecanizada.

Antes disso, tripulações argentinas passaram por treinamento e certificação, inclusive com especialistas da General Dynamics Land Systems.

Os exercícios de tiro realizados em Magdalena envolveram a estação de armas remota e uma metralhadora pesada de 12,7 mm, além de condução e emprego do veículo em posições distintas.

O salto de oito veículos iniciais para uma perspectiva de até 235 mostra que essa primeira etapa funciona como uma espécie de núcleo para uma capacidade muito maior.

Rodas resolvem um problema argentino que as lagartas não resolvem tão bem

A própria justificativa oficial para o Stryker oferece uma pista sobre a estratégia.

Ao anunciar a LOA, o Exército destacou a necessidade de uma capacidade operacional de combate mediana, associada tanto às dimensões territoriais argentinas quanto às necessidades da Fuerza de Despliegue Rápido.

Veículos sobre rodas oferecem uma vantagem evidente nesse cenário: deslocam-se por grandes distâncias sobre estradas sem depender do mesmo nível de apoio de transporte pesado exigido por formações sobre lagartas.

Um Stryker M1126 pode superar 100 km/h e percorrer mais de 500 quilômetros, conforme os dados técnicos publicados pela Argentina.

Isso não o torna superior a um tanque.

Torna-o adequado a outra tarefa.

Uma formação de TAM oferece poder de fogo direto e capacidade de manobra blindada. Uma unidade equipada com Stryker pode transportar infantaria protegida, reposicionar tropas rapidamente e, com diferentes variantes da mesma família, incorporar comando, apoio e evacuação.

Essa complementaridade é justamente o que faz sentido na coexistência das duas plataformas.

A logística também pesou na escolha do Stryker

Há um detalhe menos visível, mas importante.

O motor utilizado nos Stryker argentinos pertence à mesma família empregada em veículos Oshkosh já existentes na X Brigada Mecanizada, algo que o Exército destacou como uma vantagem para o apoio logístico.

A Argentina também enviou equipes técnicas aos Estados Unidos para visitar instalações como Fort Hood e Anniston Army Depot, onde foram avaliados manutenção, disponibilidade de unidades e sustentação futura da frota.

Esses movimentos mostram que a aquisição está sendo tratada como um sistema completo.

Blindados modernos sem peças, mecânicos capacitados, simuladores e cadeia de manutenção podem rapidamente se tornar equipamentos indisponíveis. Por isso, a parte menos chamativa do programa — oficinas, treinamento e estoques — será decisiva para saber até onde a expansão do Stryker poderá realmente chegar.

TAM e Stryker agora aparecem juntos a caminho do Brasil

É justamente nesse momento de transformação que os dois sistemas passaram a dividir o mesmo cenário.

TAM 2C-A2 e Stryker 8×8 foram deslocados pela Argentina em direção ao Rio Grande do Sul para participar do Exercício Combinado Arandú 2026, junto ao Exército Brasileiro.

A imagem dos dois veículos viajando para a mesma manobra resume bem o que está ocorrendo.

O TAM representa a tentativa argentina de preservar e atualizar sua força de carros de combate. O Stryker representa a construção de uma capacidade mecanizada sobre rodas, com maior mobilidade e diferentes variantes dentro de uma mesma família.

Não se trata, portanto, de uma troca simples de um blindado antigo por outro novo.

A transformação é mais ampla: a Argentina tenta manter seu braço pesado sobre lagartas enquanto cria, paralelamente, uma força mecanizada de alta mobilidade sobre rodas.

Se a LOA de até 235 Stryker avançar para as próximas etapas e a produção dos TAM 2C-A2 continuar, o Exército Argentino poderá chegar ao fim desta década com uma estrutura blindada significativamente diferente daquela que possuía poucos anos atrás.

E o Arandú, no Brasil, será uma das primeiras ocasiões em que esses dois caminhos poderão ser vistos operando simultaneamente fora de suas bases habituais.

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