Revista Sociedade Militar, todos os direitos reservados.

Documento secreto dos EUA revela plano do Pentágono para 3 bases aéreas no Brasil, 500 militares no Recife e outros 840 homens da Força Aérea americana em solo brasileiro

Documento desclassificado dos EUA mostra plano para três bases aéreas no Brasil, estação de comunicações no Recife com 500 militares e cerca de 840 homens da Força Aérea, em meio a uma negociação por armas e navios.

Marcos
Por Marcos 05/10/2026 às 07:24
Compartilhar
Documento secreto dos EUA revela plano do Pentágono para 3 bases aéreas no Brasil, 500 militares no Recife e outros 840 homens da Força Aérea americana em solo brasileiro
Documento desclassificado dos EUA mostra plano para três bases aéreas no Brasil, estação de comunicações no Recife com 500 militares e cerca de 840 homens da Força Aérea, em meio a uma negociação por armas e navios.

Um memorando classificado como “secret” pelo governo dos Estados Unidos registrou, em julho de 1954, um pacote de instalações militares que o Pentágono pretendia negociar com o Brasil. Entre os pontos listados estavam três bases aéreas, uma estação de comunicações no Recife com cerca de 500 militares e autorização para manter aproximadamente 840 homens da Força Aérea dos EUA em território brasileiro.

O documento, hoje disponível no arquivo oficial do Departamento de Estado dos Estados Unidos, também menciona três locais externos às bases destinados à vigilância de voos de mísseis, além do direito de usar aeroportos no Rio de Janeiro, Belém e Natal. Para a estação do Exército no Recife, a exigência chegava a 1.150 acres de terreno.

Receba nossas notícias independente dos algorítimos das redes sociais, entre no nosso grupo agora

Entrar no grupo agora

A proposta aparecia no meio de uma negociação muito maior. Washington queria direitos e instalações militares; oficiais brasileiros cobravam navios, aeronaves, blindados e outros equipamentos. O próprio memorando ligava os dois assuntos e admitia que seria difícil obter as instalações desejadas sem atender parte das demandas brasileiras.

Pentágono queria 1.150 acres no Recife e uma estação com cerca de 500 homens

O bloco mais detalhado do memorando recebeu o título “Desired Agreement for U.S. Military Facilities in Brazil”. Nele, o Exército dos Estados Unidos aparece interessado em construir e operar no Recife uma estação de comunicações por rádio com alcance mundial.

O projeto previa a obtenção de 1.150 acres e permissão para manter cerca de 500 oficiais e militares responsáveis pela operação depois da conclusão da estrutura. A Marinha dos EUA, por sua vez, queria garantir a continuidade da estação de rádio naval que já utilizava no Recife.

A escolha da região não surgiu do nada. Um documento ultrassecreto de novembro de 1953, também preservado na série Foreign Relations of the United States, dizia que estudos americanos consideravam a área do Recife uma das melhores posições do mundo para retransmitir mensagens entre os Estados Unidos, a África e a Europa. A estimativa mencionada para um centro de comunicações chegava a US$ 10 milhões na época.

Autoridades brasileiras e americanas em veículo militar durante inspeção de tropas no Brasil em 1943.
Autoridades do Brasil e dos Estados Unidos durante inspeção de forças armadas em 1943, registro da cooperação militar bilateral que antecedeu as negociações dos anos 1950. Crédito: National Museum of the U.S. Navy / Office of War Information.

Força Aérea dos EUA listava três bases e pontos para acompanhar voos de mísseis

A parte destinada à Força Aérea ampliava bastante o tamanho do pacote. O memorando de 1954 registrava como requisitos gerais três locais externos às bases para vigilância de voos de mísseis e três bases aéreas.

Essas instalações exigiriam aquisição de imóveis em diferentes regiões do país, além de direitos para utilizar aeroportos no Rio de Janeiro, Belém e Natal. O texto calculava em aproximadamente 840 oficiais e militares o efetivo americano que poderia ser estacionado nas bases ligadas à Força Aérea.

Naquele momento, a proposta ainda estava na fase de negociação interna americana e dependia de acordo com o governo brasileiro. Um rascunho havia sido enviado ao Rio de Janeiro para receber comentários da embaixada dos EUA e dos militares americanos que atuavam no país.

Plano de rastreamento de mísseis continuou aparecendo em documentos posteriores

A ideia não desapareceu com o memorando de julho de 1954. Outro documento oficial, datado de 20 de julho de 1956, registra que a Força Aérea americana tinha interesse em uma estação de rastreamento de mísseis no Brasil desde o fim de 1952 e que o Exército buscava uma área para comunicações militares desde o início daquele ano.

O texto de 1956 informa que equipes de Defesa fizeram levantamentos de locais em 1954 e 1955 e concluíram esses estudos no começo de 1956. Nessa fase, a lista já havia mudado: apareciam uma estação de rastreamento de mísseis em Fernando de Noronha, duas bases aéreas em Belém e Natal, uma instalação de comunicações do Exército na região de Maceió e três estações Loran da Guarda Costeira.

Brasil cobrava navios e um programa de US$ 50 milhões enquanto Washington buscava direitos de base

Ao mesmo tempo, a Comissão Militar Conjunta Brasil–Estados Unidos havia recomendado um programa de equipamentos no valor de US$ 50 milhões para Exército, Marinha e Força Aérea brasileiros, mas o Pentágono ainda não havia dado resposta positiva.

A lista era extensa. Para o Exército Brasileiro, o pacote previa uma equipe de combate regimental aerotransportada, duas equipes regimentais de infantaria e um batalhão de tanques médios. Para a Marinha, a proposta incluía 16 escoltas de contratorpedeiros, cinco contratorpedeiros e quatro submarinos.

A Força Aérea aparecia com um esquadrão de 12 aeronaves C-32 Fairchild, outro com 12 PB4Y-2 Privateer e dez helicópteros H-19. O mesmo documento registra ainda interesse brasileiro em outros aviões e pedidos adicionais feitos por representantes militares.

Marinha pressionava por porta-aviões, submarinos e escoltas

Outro ponto de atrito envolvia um pedido brasileiro por um pequeno porta-aviões, dois submarinos e quatro navios de escolta. O chefe da Marinha brasileira, almirante Renato de Almeida Guillobel, aparecia no relato americano profundamente irritado com a falta de resposta.

Segundo o memorando, havia ameaça de reduzir o tamanho da missão naval americana, desacelerar melhorias em bases brasileiras e limitar privilégios da estação de rádio naval dos EUA no Recife. O Departamento de Estado avaliava que conseguir o pacote de instalações pretendido pelo Pentágono seria muito difícil enquanto os militares brasileiros continuassem insatisfeitos.

Autoridades brasileiras e americanas reunidas a bordo de um navio da Marinha dos Estados Unidos em 1943.
Autoridades brasileiras e americanas reunidas a bordo de um navio da Marinha dos EUA em 1943, durante uma fase de estreita cooperação militar entre os dois países. Crédito: National Museum of the U.S. Navy / Office of War Information.

A negociação avançou em meio a uma relação militar que já vinha desde 1952

Brasil e Estados Unidos já mantinham uma estrutura formal de cooperação. Uma nota editorial do Departamento de Estado registra que os dois países iniciaram negociações para um acordo de assistência militar em janeiro de 1952. O acordo foi assinado em março daquele ano e entrou em vigor em maio de 1953.

Em 1956, a tentativa de negociar novas instalações ainda enfrentava resistência política. O memorando daquele ano cita a crise brasileira de 1954, a morte de Getúlio Vargas, o governo de Café Filho e a eleição de Juscelino Kubitschek como fatores que adiaram uma discussão diplomática considerada sensível.

Os documentos desclassificados mostram uma disputa concreta de interesses: os Estados Unidos buscavam comunicações, bases, aeroportos e estruturas ligadas ao acompanhamento de mísseis; o Brasil pressionava por armas, navios e equipamentos para suas Forças Armadas. Parte dos requisitos americanos mudou nos anos seguintes, enquanto as conversas atravessaram diferentes governos e sucessivas rodadas de negociação.

O que você acha desse capítulo pouco conhecido das relações militares entre Brasil e Estados Unidos? Deixe sua opinião nos comentários e compartilhe a matéria com quem acompanha história militar e defesa.

guest
0 Comentários