A advertência é preventiva, não sanção, e o ex-ministro Pedro Sánchez diz que o pagamento a 4.260,19 pesos por euro deixou 2,413 bilhões de pesos no orçamento do programa.
A ordem de pagamento 7787826, registrada em 20 de janeiro de 2026 pelo Comando da Força Aérea da Colômbia, mandou 3.565.053,14 euros para a conta da Saab no banco sueco SEB, cerca de R$ 20,1 milhões pela PTAX do euro de 20 de outubro (R$ 5,6317). A Controladoria Geral da República diz que o Ministério da Defesa usou 4.936,96 pesos por euro naquele dia, quando a cotação oficial era de 4.339,41, e vê risco de perda de 2,13 bilhões de pesos.
O comprovante do próprio sistema de pagamentos do governo colombiano, publicado pelo jornal El Tiempo, mostra outra coisa: o dinheiro saiu a 4.260,19 pesos por euro, abaixo da cotação oficial. No Brasil, que encomendou 36 caças F-39 à mesma Saab, o contrato não é em euros nem em reais, e sim em coroas suecas.
Uma advertência preventiva de 597,55 pesos por euro
A advertência foi emitida em 28 de agosto e veio a público agora, depois que a Controladoria respondeu a um pedido de informação, segundo o Infobae, e a Caracol Radio divulgou o documento. O órgão compara a taxa usada na ordem de pagamento com a taxa representativa do mercado (TRM) do Banco da República para 20 de janeiro.
A diferença é de 597,55 pesos por euro, cerca de 14% acima da cotação oficial. Multiplicada pelos 3,565 milhões de euros, ela dá 2.130.297.503,75 pesos, segundo o El Tiempo, ou cerca de 490,9 mil euros pela TRM do dia e R$ 2,76 milhões pela PTAX do euro.
“Existe o risco de afetação ao patrimônio do Estado”, escreveu a Controladoria, segundo o Infobae. O próprio órgão diz que se trata de advertência e não de sanção contra funcionários, e o Infobae informa que o relatório foi enviado à Procuradoria e à Fiscalía para investigação da compra dos 17 caças.
O comprovante do sistema de pagamentos
O El Tiempo publicou o registro do SIIF Nación, o sistema integrado de informação financeira do governo, para a mesma operação. No campo do orçamento aparecem 17.600.524.750 pesos reservados para os 3.565.053,14 euros, justamente a 4.936,96 pesos por euro, a taxa que a Controladoria aponta.
No campo do pagamento, porém, a taxa é de 4.260,19 pesos por euro, e o desembolso, de 15.187.803.736,49 pesos. A ordem aparece com status de paga, o registro do pagamento é de 22 de janeiro e a beneficiária é a Saab Aktiebolag, com depósito no Skandinaviska Enskilda Banken, na Suécia.
O campo de reintegros, onde entraria dinheiro devolvido ao Tesouro, está zerado. A taxa paga fica 79,22 pesos abaixo da TRM de 4.339,41, uma diferença de 1,8% a favor do governo colombiano.
Ex-ministro diz que sobraram 2,413 bilhões de pesos
Pedro Sánchez, ministro da Defesa quando o pagamento foi feito, respondeu nas redes sociais. “FALSO. Aconteceu exatamente o contrário: otimizaram-se recursos públicos”, escreveu ele, segundo o Infobae.
Pela conta de Sánchez, a diferença entre o orçado e o pago, de 676,77 pesos por euro, deixou cerca de 2,413 bilhões de pesos livres para outras necessidades do projeto, ou R$ 3,13 milhões pela mesma conversão. Ele disse ao El Tiempo que esse dinheiro continua no orçamento do programa e por isso não aparece como reintegro.
O ex-ministro explicou que o pagamento passa pela Força Aeroespacial e pela Direção Geral de Crédito Público e Tesouro Nacional, do Ministério da Fazenda, que aplica a taxa do momento da operação. “Me alegra que se investigue”, afirmou, acrescentando que não conhece o documento completo da Controladoria.
Duas taxas no mesmo papel
As duas versões partem do mesmo documento e leem campos diferentes. A Controladoria confronta a taxa usada para reservar o orçamento com a cotação oficial, e Sánchez aponta a taxa do desembolso, que ficou abaixo das duas.
O texto integral da advertência não está publicado no site da Controladoria, e o que circula são os trechos divulgados pela Caracol Radio e repercutidos pelos jornais. O El Tiempo ressalva que a explicação do ex-ministro não substitui as verificações que as autoridades colombianas precisam fazer sobre os pagamentos.
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Um contrato de 3,135 bilhões de euros pago em parcelas
O contrato com a Saab vale 3,135 bilhões de euros, cerca de R$ 17,7 bilhões pela PTAX, segundo o El Tiempo, e foi fechado no governo de Gustavo Petro para substituir os Kfir israelenses, em serviço há mais de 30 anos. O pacote inclui 17 aeronaves, duas delas de treinamento, armamento, apoio logístico e transferência de tecnologia.
Os pagamentos se estendem por várias vigências fiscais: cerca de 95 bilhões de pesos em 2026 e obrigações que podem se aproximar de 3 trilhões de pesos em 2027, segundo o El Tiempo.
Pelo cronograma citado por Sánchez, o primeiro avião chega em 2028 e o último em 2032. Até lá, cada parcela em euros será convertida em pesos na data em que sair do Tesouro.
Frota com menos da metade dos aviões em condição de voo
No mesmo relatório enviado ao Congresso, a controladora-geral Doris Noemí Pizarro Melgarejo apontou que só 227 das 510 aeronaves das Forças Militares estavam operacionais, ou 44,5%, segundo o El Tiempo. Dos 108 helicópteros, 45 voavam.
O documento de 14 páginas também cita helicópteros sem manutenção em Tolemaida e o contrato 012 de 2024 com a americana Vertol Systems Company, de US$ 32.463.400, cerca de R$ 162,8 milhões pela PTAX do dólar (R$ 5,0140). Para esse caso, a advertência é de 30 de setembro e dá prazo até 15 de novembro.
O Brasil paga os 36 F-39 em coroas suecas
O risco que a Colômbia discute agora, a conversão de cada parcela, existe também no programa brasileiro, mas em outra moeda. O contrato do Gripen brasileiro, assinado com a Saab em outubro de 2014, é em coroas suecas, e o teto de financiamento autorizado pelo Senado em 2015 é de 39.882.335.471 coroas.
Pela PTAX da coroa sueca de 20 de outubro, de R$ 0,5063, esse teto equivale a cerca de R$ 20,19 bilhões. O valor em coroas não mudou desde a assinatura, e o que oscila é quanto o Tesouro brasileiro gasta em reais para pagar cada parcela, de acordo com a cotação do dia.
Os caças brasileiros já saem da linha de montagem em Gavião Peixoto, no interior de São Paulo. A entrega do último dos 36 aviões está prevista para 2032, segundo os relatórios de gestão da Aeronáutica, o mesmo ano em que a Colômbia espera o seu 17º Gripen.
Dois câmbios para o mesmo dia 20 de janeiro
A disputa colombiana se resume a dois números do mesmo dia. A Controladoria vê 4.936,96 pesos por euro e um risco de 2,13 bilhões de pesos, e o comprovante do SIIF registra 4.260,19 pesos por euro e nenhum centavo devolvido.
Nenhum órgão de controle publicou até agora uma conclusão sobre qual dos dois campos vale para o dinheiro que chegou à Saab. Enquanto a advertência segue para a Procuradoria e a Fiscalía, as parcelas de 2027 continuam no calendário, cada uma com o câmbio do dia em que for paga.