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De 1.280 dias de greve e risco de falência à retomada com os irmãos Batista: Avibras mira Índia, Malásia, 1.000 funcionários e R$ 500 milhões até 2028

Alisson Ficher
Por Alisson Ficher 02/10/2026 às 21:24
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De 1.280 dias de greve e risco de falência à retomada com os irmãos Batista: Avibras mira Índia, Malásia, 1.000 funcionários e R$ 500 milhões até 2028
AV-MTC e sistema Astros, produtos estratégicos da Avibras, fabricante brasileira que busca retomar produção, exportações e crescimento após anos de crise. - Imagem: Reprodução

Poucos meses atrás, a Avibras ainda carregava a imagem de uma fabricante estratégica praticamente paralisada, cercada por dívidas, salários atrasados e uma greve que atravessou mais de três anos. Agora, a empresa responsável pelo sistema Astros e por alguns dos principais projetos de mísseis do Brasil entra em outra etapa: novos controladores, produção reativada e uma ofensiva para voltar a disputar contratos militares fora do país.

A mudança de cenário é rápida para uma companhia que entrou em recuperação judicial em março de 2022, acumulou cerca de R$ 600 milhões em dívidas e viu trabalhadores permanecerem 1.280 dias em greve, uma das paralisações mais longas já registradas na indústria brasileira.

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A greve só terminou em março deste ano, após um acordo envolvendo aproximadamente R$ 230 milhões em débitos trabalhistas. Em maio, a fábrica de Jacareí, no interior de São Paulo, começou a voltar à atividade.

Agora, outra peça dessa reconstrução entra em cena.

Uma reportagem publicada pela C-Level, da Folha de S.Paulo, mostra que Joesley e Wesley Batista começam a assumir o controle da nova fase da Avibras com uma estratégia que olha principalmente para exportações. Entre os mercados citados aparecem a Índia e países que já possuem relação com o sistema Astros, como Malásia e Indonésia.

De 1.400 funcionários à fábrica quase parada

Antes da crise, a Avibras tinha cerca de 1.400 empregados. A fábrica de Jacareí sozinha concentrava mais de 1.300 trabalhadores quando a recuperação judicial foi apresentada.

A deterioração financeira, porém, não aconteceu de uma hora para outra.

A empresa havia conquistado grandes contratos internacionais com o Astros, mas passou anos sem conseguir repetir vendas externas da mesma dimensão. Negociações com países como Arábia Saudita, Filipinas e Qatar não avançaram como esperado, ao mesmo tempo em que o orçamento brasileiro de Defesa oferecia pouco espaço para grandes encomendas.

Um dos golpes mais pesados ocorreu em torno de um possível contrato com o Qatar envolvendo sistemas Astros e o Míssil Tático de Cruzeiro, projeto estratégico desenvolvido para o Exército Brasileiro. O negócio, estimado em centenas de milhões de dólares, não se concretizou.

Sem grandes contratos, a situação foi se deteriorando até atingir trabalhadores e produção.

A retomada começou a tomar forma com uma reorganização societária que separou a operação industrial da estrutura que permaneceu carregando o passivo da antiga companhia. A nova Avibras Aeroco passou a concentrar os ativos e a operação produtiva.

A volta às atividades também recebeu um aporte privado estimado em R$ 300 milhões.

Foi nesse processo que os irmãos Batista apareceram.

Joesley entrou num setor que não conhecia

A entrada dos empresários no mercado militar chamou atenção justamente porque a trajetória da família Batista está associada sobretudo a alimentos, energia, mineração e outros negócios distantes da fabricação de mísseis.

Segundo a reportagem da C-Level, o próprio Joesley Batista chegou a perguntar ao então ministro da Defesa, José Múcio, o que era a Avibras quando começou a tomar contato com a empresa.

A aproximação teria passado também pelas relações empresariais construídas pelos Batista na Indonésia, país que já opera o sistema Astros brasileiro.

Primeiro veio a participação na estrutura financeira que ajudou a colocar a fabricante novamente de pé. Depois, em agosto, a Globe Investimentos, veículo da família Batista, fechou o acordo para assumir o controle da empresa.

A operação passou pelo Cade e abre agora uma etapa diferente daquela vivida durante a recuperação.

A pergunta deixou de ser apenas como manter a Avibras aberta.

Passou a ser até onde ela consegue crescer novamente.

Meta de 1.000 funcionários e R$ 500 milhões

O plano apresentado anteriormente pelo presidente da Avibras Aeroco, Sami Hassuani, estabeleceu uma meta bastante concreta para 2028: chegar a 1.000 funcionários e faturamento de R$ 500 milhões.

É uma escala muito superior àquela observada na primeira fase da reabertura.

Quando a fábrica retomou as atividades em maio, havia pouco mais de 270 trabalhadores voltando à planta. O acordo construído para encerrar a crise previa recontratações graduais conforme a produção fosse recuperada.

Para chegar a mil funcionários, portanto, a Avibras dependerá não apenas de encomendas brasileiras, mas principalmente de voltar a fazer aquilo que sustentou boa parte de sua história: vender armamentos no exterior.

O Astros continua sendo o produto mais conhecido.

A plataforma permite empregar diferentes foguetes e mísseis e já foi exportada para países como Malásia, Indonésia e Arábia Saudita. O Brasil também opera dezenas de lançadores que precisarão continuar recebendo manutenção e atualização.

Mas a nova Avibras quer ir além.

O portfólio inclui o Míssil Tático de Cruzeiro, em fase avançada de certificação, além de um novo míssil balístico, foguetes, drones e outros sistemas em desenvolvimento.

Índia aparece como oportunidade

É nesse esforço de internacionalização que a Índia surge como um mercado especialmente interessante.

O país conduz um amplo processo de modernização militar e busca, ao mesmo tempo, diversificar fornecedores e ampliar a fabricação local de sistemas de defesa.

Para os Batista existe ainda uma conexão empresarial anterior: seus negócios já possuem atuação comercial no mercado indiano.

A Malásia ocupa uma posição diferente. O país já é operador do Astros, o que faz dela não apenas um potencial mercado para novos negócios e atualizações, mas também uma vitrine para a presença histórica da Avibras no Sudeste Asiático.

A estratégia terá participação de outro nome que chega à estrutura da empresa. O ex-presidente do Tribunal de Contas da União Bruno Dantas foi convidado para comandar o conselho de administração e deverá atuar justamente na organização institucional e na busca por novas exportações.

Sami Hassuani, engenheiro formado pelo ITA e que comandou a Avibras durante parte de um de seus períodos mais fortes, é cotado para permanecer à frente da operação industrial.

O Astros continua no centro

Para o Exército, existe ainda uma questão que vai além da sobrevivência empresarial.

O Brasil investiu recursos públicos no desenvolvimento de tecnologias que dependem da Avibras para chegar à etapa operacional, particularmente o Míssil Tático de Cruzeiro. Sem a fabricante funcionando, parte desse investimento poderia permanecer sem conclusão industrial.

A empresa informou recentemente que já atingiu operacionalidade integral de suas áreas industriais e de produção e que trabalha também no desenvolvimento de um Míssil Tático Balístico.

Ao mesmo tempo, o cenário ainda está longe de ser simples.

Compromissos envolvendo compras das Forças Armadas, recursos para tecnologia e garantias para exportações vinham sendo negociados com o governo federal, mas a própria Avibras informou em setembro que parte dessas medidas ainda não havia se concretizado.

É justamente por isso que a próxima etapa será diferente da cerimônia de reabertura da fábrica.

Com a mudança de controle avançando e a nova administração começando a assumir espaço, o teste agora será transformar contatos internacionais, projetos de mísseis e metas de crescimento em contratos efetivos. Para chegar a 1.000 funcionários e R$ 500 milhões em faturamento até 2028, a Avibras terá pouco mais de dois anos para provar que sua volta à produção também significará uma volta consistente ao mercado mundial de defesa.

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