Enquanto a Força Aérea Brasileira (FAB) moderniza sua frota de Defesa Aérea com a chegada dos F-39 Gripen em um contrato bilionário e transferência de tecnologia, a Aviação Naval da Marinha do Brasil segue operando caças norte-americanos AF-1B Skyhawk adquiridos em 1998 e fabricados na década de 1970, e vê a vida útil da frota se aproximar do seu fim sem previsão oficial de um substituto.
Operados a partir da Base Aérea Naval de São Pedro da Aldeia (RJ), os AF-1B da Marinha têm capacidade de desempenhar diversas missões, como apoio aéreo aproximado aos Fuzileiros Navais, esclarecimento de área e interceptação aérea, mas já encontram restrições tecnológicas frente a concorrentes regionais e diante dos próprios meios de que a FAB dispõe.
Embora tenham passado por modernizações entre 2009 e 2022, os jatos de combate da Aviação Naval brasileira em breve vão atingir os limites de idade operacional, indicado para acontecer a partir de 2030, e também viram durante o auge de seu ciclo operacional o país desativar seus únicos porta-aviões, o NAeL “Minas Gerais”, descomissionado em 2001, e o NAe “São Paulo”, que operou até 2017.
Os Skyhawk são as únicas aeronaves de asa fixa atualmente operadas pela Marinha do Brasil. Com 23 unidades de segunda mão adquiridas a partir de acordo com o Kuwait no fim dos anos 1990, os jatos passaram por um ciclo de modernização com contrato assinado com a Embraer e outras empresas em 2009, mas que resultou na entrega de apenas seis AF-1B modernizados entre 2015 e 2022.
Apesar das atualizações que incluíram aviônicos, sistemas de radares e revisão nos motores e sistemas associados, o AF-1B mantém uma capacidade de combate aéreo considerada limitada, sendo incapaz de disparar mísseis ar-ar guiados, com armamento limitado a foguetes de 70mm, bombas MK-81 e BEX-11 e tiro com metralhadora 20mm.
Skyhawk foi adquirido para operar em porta-aviões
Apesar de ter sido instituída antes do atual formato da própria FAB, em 1916, com a criação da Escola Aérea Naval, a Aviação Naval brasileira já passou por períodos de desinvestimento em que ficou restrita a aeronaves de asas rotativas (helicópteros).
Os Skyhawk fizeram parte de uma iniciativa que retomou a operação de aeronaves de asa fixa na Marinha do Brasil, que estava encerrada desde 1965 por decisão governamental. Por volta de 1997, a Marinha tinha o objetivo de adquirir um caça com capacidade de operar embarcado no porta-aviões Minas Gerais.
A norte-americana McDonnell Douglas surgiu então com uma proposta para a venda de um lote de aeronaves A-4 que estavam estocadas no Kuwait. Em 8 de abril de 1998 o presidente Fernando Henrique Cardoso assinou um decreto que permitiu à Marinha operar suas próprias aeronaves de asas fixas, autorizando a compra de 23 caças A-4KU, no Brasil denominados AF-1, por cerca de US$ 70 milhões.
Os jatos que chegaram ao Brasil eram de um lote fabricado entre 1977 e 1978, que representou um dos últimos produzidos pela Douglas para essa aeronave, e já tinham no currículo utilização em combate real, empregados pelas forças do Kuwait durante a Guerra do Golfo anos antes.
A partir dessas aeronaves, foi criado o 1º Esquadrão de Aviões de Interceptação e Ataque (EsqdVF-1), designado como “Esquadrão Falcão”, em outubro de 1998. Por isso, no Brasil, ganharam a alcunha de “Falcões”.
Em setembro de 2000, os Skyhawk realizaram as primeiras operações embarcadas, com a execução de toques e arremetidas no convôo do NAeL Minas Gerais. Somente em 2001 a primeira aeronave faria o primeiro pouso “enganchado” a bordo do Minas Gerais.
Aviação naval sem porta-aviões?
A desativação dos dois porta-aviões que a Marinha do Brasil já operou representa outra incógnita acerca do destino dos Skyhawk remanescentes na frota, além de lançar sombras sobre a escolha de um substituto. Faria sentido a força naval contar com caças de combate baseados somente em terra, papel que já é desempenhado pela FAB?
O navio-aeródromo Minas Gerais, primeiro porta-aviões da Marinha do Brasil e também o primeiro de uma marinha sul-americana, acabaria descomissionado em 2001.
Receba nossas notícias independentemente dos algorítimos das redes sociais, entre no nosso grupo agora
Já o porta-aviões São Paulo, adquirido em 2000 para ser o substituto do Minas Gerais e continuar permitindo a operação de aeronaves de asa fixa embarcadas, teria uma vida útil ainda mais curta do que seu antecessor.

No Brasil, sua trajetória foi marcada por dificuldades técnicas, incêndios, problemas de manutenção e longos períodos de indisponibilidade. Na prática, embora tenha permanecido formalmente na frota por aproximadamente 16 anos, seu tempo de disponibilidade operacional foi muito menor.
Em 2011, por restrições técnicas, o São Paulo já não operava aeronaves de asa fixa como o Skyhawk, limitando-se a helicópteros. Mas esse tipo de operação já vinha sendo prejudicada desde 2005.
A aposentadoria do navio em 2017 não representou apenas a perda de uma plataforma naval. Ela também interrompeu uma capacidade militar que a Marinha do Brasil havia levado décadas para construir, e os AF-1B Skyhawk passaram a operar definitivamente a partir de terra, concentrados na Base Aérea Naval de São Pedro da Aldeia.
Substituto do Skyhawk ainda é incerto
Apesar da iminência da aposentadoria dos AF-1B modernizados, a Marinha do Brasil ainda não apresentou publicamente um plano para adquirir um substituto, com aeronave escolhida, quantidade prevista, orçamento ou cronograma de aquisição.
Conforme as diretrizes mais recentes, a Marinha tem concentrado investimentos em outros programas, especialmente para modernização do Poder Naval, com o PROSUB (Programa de Desenvolvimento de Submarinos) e o Programa Fragatas Classe Tamandaré, que teve o primeiro navio (F-200 “Tamandaré) comissionado em 2026.
Soma-se a isso o amplo programa FX-2 de modernização da FAB para a aquisição do Saab F-39 Gripen, novo vetor de modernização da Defesa Aérea brasileira, que vai além de um contrato de compra e inclui a cooperação tecnológica com a fabricante sueca e a produção do caça em solo nacional por meio da Embraer. Somente em 2026, o investimento foi de R$ 2,1 bilhões, com a Força já contando com 11 F-39 operacionais em solo brasileiro.
Com o programa F-X2 em andamento, a Marinha chegou a acompanhar estudos que cogitaram o desenvolvimento de uma versão do Gripen com capacidade naval, denominado Sea Gripen.
Em de 2016, uma comitiva da Diretoria de Aeronáutica da Marinha chegou a viajar a Linköping, na Suécia, para acompanhar o programa e atualizar um estudo preliminar de viabilidade da produção de um F-39 em versão pensada para operar a partir de navios-aeródromos.
A ideia não era nova, e já constava nos estudos da Saab ao menos desde 2004. O conceito do caça F-39 Gripen, já consolidado, teria que passar por alterações diversas, inclusive nos trens de pouso, já que um pouso naval inclui um impacto muito maior do que a operação em pista tradicional.
Essa característica não seria novidade para a Saab: um o principal antecessor do Gripen, o Saab 37 Viggen, foi desenvolvido especialmente para operar em pistas com pouca infraestrutura e curtas, com reforço nos sistemas de pouso. Vários aspectos da filosofia do Viggen foram herdados pela família JAS 39 Gripen.
Marinha teve estudos para modificações no Gripen
Em 2024, a Escola de Guerra Naval recebeu um estudo acadêmico para modificação do F-39 Gripen para operação em navio aeródromo, identificando os desafios e oportunidades para a base industrial de defesa brasileira.
A pesquisa desenvolvida buscou abordar quais seriam as modificações no projeto da aeronave em termos de adaptações necessárias para operação em navio aeródromo, evidenciando desafios significativos para pouso e decolagem do Gripen, dada a complexidade da compatibilização entre navio e aeronave.
Apesar das diversas possibilidades envolvidas, o fato é que, até o momento, nenhuma iniciativa concreta foi iniciada pela Marinha para a modernização da aviação naval de asas fixas.
Esse projeto não precisaria passar necessariamente por aeronaves novas, como o Gripen. Outra alternativa seria a aposta em jatos de combate de meia-vida vendidos por programa de transferências militares de outros países — como aconteceu com os próprios AF-1B adquiridos do Kuwait.
A questão seria encontrar um jato que se encaixe nos requisitos operacionais da Aviação Naval, ao mesmo tempo em que a modernização contrasta com o fato de que o Brasil também não tem, por enquanto, nenhum projeto para adquirir um novo porta-aviões.