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Sem porta-aviões há dez anos e restrita a uma única base, aviação de combate da Marinha opera caças Skyhawk dos anos 1970 e vive incerteza sobre renovação enquanto a vida útil dos jatos se aproxima do limite

A força naval tem apenas seis unidades modernizadas do AF-1B, adquiridas em 1998, ao mesmo tempo em que deixou de contar com porta-aviões. O Gripen adaptado surge como uma possibilidade, mas sem avanços significativos

Fernando B.
Por Fernando B. 30/10/2026 às 16:28
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Sem porta-aviões há dez anos e restrita a uma única base, aviação de combate da Marinha opera caças Skyhawk dos anos 1970 e vive incerteza sobre renovação enquanto a vida útil dos jatos se aproxima do limite
Os AF-1 Skyhawk brasileiros a bordo do porta-aviões São Paulo, em 2002. Foto: Marinha do Brasil

Enquanto a Força Aérea Brasileira (FAB) moderniza sua frota de Defesa Aérea com a chegada dos F-39 Gripen em um contrato bilionário e transferência de tecnologia, a Aviação Naval da Marinha do Brasil segue operando caças norte-americanos AF-1B Skyhawk adquiridos em 1998 e fabricados na década de 1970, e vê a vida útil da frota se aproximar do seu fim sem previsão oficial de um substituto.

Operados a partir da Base Aérea Naval de São Pedro da Aldeia (RJ), os AF-1B da Marinha têm capacidade de desempenhar diversas missões, como apoio aéreo aproximado aos Fuzileiros Navais, esclarecimento de área e interceptação aérea, mas já encontram restrições tecnológicas frente a concorrentes regionais e diante dos próprios meios de que a FAB dispõe.

Embora tenham passado por modernizações entre 2009 e 2022, os jatos de combate da Aviação Naval brasileira em breve vão atingir os limites de idade operacional, indicado para acontecer a partir de 2030, e também viram durante o auge de seu ciclo operacional o país desativar seus únicos porta-aviões, o NAeL “Minas Gerais”, descomissionado em 2001, e o NAe “São Paulo”, que operou até 2017.

Os Skyhawk são as únicas aeronaves de asa fixa atualmente operadas pela Marinha do Brasil. Com 23 unidades de segunda mão adquiridas a partir de acordo com o Kuwait no fim dos anos 1990, os jatos passaram por um ciclo de modernização com contrato assinado com a Embraer e outras empresas em 2009, mas que resultou na entrega de apenas seis AF-1B modernizados entre 2015 e 2022.

Apesar das atualizações que incluíram aviônicos, sistemas de radares e revisão nos motores e sistemas associados, o AF-1B mantém uma capacidade de combate aéreo considerada limitada, sendo incapaz de disparar mísseis ar-ar guiados, com armamento limitado a foguetes de 70mm, bombas MK-81 e BEX-11 e tiro com metralhadora 20mm.

Skyhawk foi adquirido para operar em porta-aviões

Apesar de ter sido instituída antes do atual formato da própria FAB, em 1916, com a criação da Escola Aérea Naval, a Aviação Naval brasileira já passou por períodos de desinvestimento em que ficou restrita a aeronaves de asas rotativas (helicópteros).

Os Skyhawk fizeram parte de uma iniciativa que retomou a operação de aeronaves de asa fixa na Marinha do Brasil, que estava encerrada desde 1965 por decisão governamental. Por volta de 1997, a Marinha tinha o objetivo de adquirir um caça com capacidade de operar embarcado no porta-aviões Minas Gerais.

A norte-americana McDonnell Douglas surgiu então com uma proposta para a venda de um lote de aeronaves A-4 que estavam estocadas no Kuwait. Em 8 de abril de 1998 o presidente Fernando Henrique Cardoso assinou um decreto que permitiu à Marinha operar suas próprias aeronaves de asas fixas, autorizando a compra de 23 caças A-4KU, no Brasil denominados AF-1, por cerca de US$ 70 milhões.

Os jatos que chegaram ao Brasil eram de um lote fabricado entre 1977 e 1978, que representou um dos últimos produzidos pela Douglas para essa aeronave, e já tinham no currículo utilização em combate real, empregados pelas forças do Kuwait durante a Guerra do Golfo anos antes.

A partir dessas aeronaves, foi criado o 1º Esquadrão de Aviões de Interceptação e Ataque (EsqdVF-1), designado como “Esquadrão Falcão”, em outubro de 1998. Por isso, no Brasil, ganharam a alcunha de “Falcões”.

Em setembro de 2000, os Skyhawk realizaram as primeiras operações embarcadas, com a execução de toques e arremetidas no convôo do NAeL Minas Gerais. Somente em 2001 a primeira aeronave faria o primeiro pouso “enganchado” a bordo do Minas Gerais.

Aviação naval sem porta-aviões?

A desativação dos dois porta-aviões que a Marinha do Brasil já operou representa outra incógnita acerca do destino dos Skyhawk remanescentes na frota, além de lançar sombras sobre a escolha de um substituto. Faria sentido a força naval contar com caças de combate baseados somente em terra, papel que já é desempenhado pela FAB?

O navio-aeródromo Minas Gerais, primeiro porta-aviões da Marinha do Brasil e também o primeiro de uma marinha sul-americana, acabaria descomissionado em 2001.

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Já o porta-aviões São Paulo, adquirido em 2000 para ser o substituto do Minas Gerais e continuar permitindo a operação de aeronaves de asa fixa embarcadas, teria uma vida útil ainda mais curta do que seu antecessor.

Os AF-1, antes da modernização, operando no porta-aviões São Paulo. Foto: Marinha do Brasil

No Brasil, sua trajetória foi marcada por dificuldades técnicas, incêndios, problemas de manutenção e longos períodos de indisponibilidade. Na prática, embora tenha permanecido formalmente na frota por aproximadamente 16 anos, seu tempo de disponibilidade operacional foi muito menor.

Em 2011, por restrições técnicas, o São Paulo já não operava aeronaves de asa fixa como o Skyhawk, limitando-se a helicópteros. Mas esse tipo de operação já vinha sendo prejudicada desde 2005.

A aposentadoria do navio em 2017 não representou apenas a perda de uma plataforma naval. Ela também interrompeu uma capacidade militar que a Marinha do Brasil havia levado décadas para construir, e os AF-1B Skyhawk passaram a operar definitivamente a partir de terra, concentrados na Base Aérea Naval de São Pedro da Aldeia.

Substituto do Skyhawk ainda é incerto

Apesar da iminência da aposentadoria dos AF-1B modernizados, a Marinha do Brasil ainda não apresentou publicamente um plano para adquirir um substituto, com aeronave escolhida, quantidade prevista, orçamento ou cronograma de aquisição.

Conforme as diretrizes mais recentes, a Marinha tem concentrado investimentos em outros programas, especialmente para modernização do Poder Naval, com o PROSUB (Programa de Desenvolvimento de Submarinos) e o Programa Fragatas Classe Tamandaré, que teve o primeiro navio (F-200 “Tamandaré) comissionado em 2026.

Soma-se a isso o amplo programa FX-2 de modernização da FAB para a aquisição do Saab F-39 Gripen, novo vetor de modernização da Defesa Aérea brasileira, que vai além de um contrato de compra e inclui a cooperação tecnológica com a fabricante sueca e a produção do caça em solo nacional por meio da Embraer. Somente em 2026, o investimento foi de R$ 2,1 bilhões, com a Força já contando com 11 F-39 operacionais em solo brasileiro.

Com o programa F-X2 em andamento, a Marinha chegou a acompanhar estudos que cogitaram o desenvolvimento de uma versão do Gripen com capacidade naval, denominado Sea Gripen.

Em de 2016, uma comitiva da Diretoria de Aeronáutica da Marinha chegou a viajar a Linköping, na Suécia, para acompanhar o programa e atualizar um estudo preliminar de viabilidade da produção de um F-39 em versão pensada para operar a partir de navios-aeródromos.

A ideia não era nova, e já constava nos estudos da Saab ao menos desde 2004. O conceito do caça F-39 Gripen, já consolidado, teria que passar por alterações diversas, inclusive nos trens de pouso, já que um pouso naval inclui um impacto muito maior do que a operação em pista tradicional.

Essa característica não seria novidade para a Saab: um o principal antecessor do Gripen, o Saab 37 Viggen, foi desenvolvido especialmente para operar em pistas com pouca infraestrutura e curtas, com reforço nos sistemas de pouso. Vários aspectos da filosofia do Viggen foram herdados pela família JAS 39 Gripen.

Marinha teve estudos para modificações no Gripen

Em 2024, a Escola de Guerra Naval recebeu um estudo acadêmico para modificação do F-39 Gripen para operação em navio aeródromo, identificando os desafios e oportunidades para a base industrial de defesa brasileira.

A pesquisa desenvolvida buscou abordar quais seriam as modificações no projeto da aeronave em termos de adaptações necessárias para operação em navio aeródromo, evidenciando desafios significativos para pouso e decolagem do Gripen, dada a complexidade da compatibilização entre navio e aeronave.

Apesar das diversas possibilidades envolvidas, o fato é que, até o momento, nenhuma iniciativa concreta foi iniciada pela Marinha para a modernização da aviação naval de asas fixas.

Esse projeto não precisaria passar necessariamente por aeronaves novas, como o Gripen. Outra alternativa seria a aposta em jatos de combate de meia-vida vendidos por programa de transferências militares de outros países — como aconteceu com os próprios AF-1B adquiridos do Kuwait.

A questão seria encontrar um jato que se encaixe nos requisitos operacionais da Aviação Naval, ao mesmo tempo em que a modernização contrasta com o fato de que o Brasil também não tem, por enquanto, nenhum projeto para adquirir um novo porta-aviões.

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