A acusação de fingimento rendeu repreensão verbal em setembro; a dispensa geral tira o auxílio de estudos, e o grupo do navio teve oito tentativas de suicídio na missão.
Nicholas McKelvey, marinheiro de 19 anos do porta-aviões USS Abraham Lincoln, pode deixar a Marinha dos Estados Unidos sem o GI Bill, a bolsa de estudos paga a veteranos. Na quinta-feira, 29 de outubro, a Marinha deu o passo para desligá-lo com dispensa geral, depois de acusá-lo de fingir uma crise de saúde mental, informa a esposa, Samantha Larry, ao The New York Times.
A crise aconteceu em 3 de agosto, no 255º dia de uma missão que a guerra contra o Irã esticou até 322 dias. A Marinha não respondeu às perguntas do jornal sobre o caso, e ainda não se sabe se a baixa está decidida ou se vai passar por um conselho de desligamento.
Quem é o marinheiro
McKelvey é mecânico de aviação de um esquadrão de helicópteros, e não aviador. Ele trabalhava em turnos de 12 horas no convés de voo, prendendo, limpando e inspecionando helicópteros, diz o The New York Times. Entrou na Marinha em 2024, em busca de um emprego estável para sustentar a família.
Ele e Samantha, também de 19 anos, são de Jacksonville, na Flórida, e têm um menino de 3 anos e uma menina de 8 meses. A filha nasceu quatro dias antes do início dos combates, e ele só a conheceu meses depois. Os dois decidiram falar com o próprio nome ao jornal americano, na primeira entrevista pública dele.
O Abraham Lincoln saiu de San Diego em novembro de 2025 e voltou à base em outubro, depois de ser desviado para o Oriente Médio. A bordo, a comida ficou escassa depois que o Irã destruiu um centro de abastecimento da Marinha no Bahrein, segundo a MS NOW.
Como funciona a acusação de fingimento
A acusação inicial veio em 25 de agosto e citava dois artigos do Código Uniforme de Justiça Militar, a lei penal das Forças Armadas americanas. O artigo 83 trata do “malingering”, definido como fingir doença ou se ferir de propósito para fugir do trabalho ou do serviço, mostram os documentos lidos pela MS NOW.
O artigo 86 trata da ausência sem licença, por ele ter deixado o posto. Essa acusação caiu e foi trocada por outra infração do mesmo código ligada ao episódio, informa a MS NOW. A de fingimento ficou de pé.
Na prática, o caso correu como punição disciplinar, e não como corte marcial. Funciona assim: o próprio comandante ouve o militar, decide a culpa e aplica a pena, sem julgamento formal nem condenação criminal. Os documentos de agosto previam perda de até metade do salário, segundo o site Marine Insight.
A punição de setembro
A audiência, chamada de “captain’s mast”, foi feita por telefone. McKelvey já estava em San Diego, e o comandante continuava a bordo. Em 10 de setembro, ele foi considerado culpado e recebeu uma repreensão verbal, registra a MS NOW.
O salário não foi cortado, diz Samantha. Ela acredita que a pena saiu mais leve só porque a família falou com a imprensa. “O que eles fizeram foi errado. Preferem culpar a vítima”, afirma ao The New York Times.
Por que a dispensa geral pesa no bolso
Nos Estados Unidos, a baixa pode ser honrosa, geral ou “other than honorable”, e o tipo define a ajuda que o ex-militar recebe do Departamento de Assuntos de Veteranos. A dispensa geral ainda é dada “em condições honrosas”, mas tira de McKelvey o auxílio de estudos do GI Bill, conta Samantha ao The New York Times.
A família contava com esse dinheiro para ele fazer faculdade. “Vamos ter de pegar empréstimo estudantil”, diz ela. “Na prática, isso nos joga em dívida.”
Ex-advogados militares ouvidos pelo jornal divergem. Parte deles diz que a resposta da Marinha tem base legal e foi branda, já que o fingimento pode virar crime. Outros afirmam que a Marinha poderia ter buscado uma baixa médica, que preservaria os benefícios principais.
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Oito tentativas no mesmo grupo de ataque
O secretário interino da Marinha, Hung Cao, admitiu em carta de 22 de setembro à senadora Kirsten Gillibrand oito tentativas de suicídio no grupo de ataque do Lincoln durante a missão. A conta inclui a tripulação do porta-aviões, a ala aérea, os destróieres de escolta e os esquadrões embarcados, segundo o trecho publicado pelo Roll Call.
A carta não cita McKelvey pelo nome, mas descreve um marinheiro que caiu ao mar em agosto e foi resgatado. Cao também relata que outro marinheiro foi contido pelos colegas em março e levado de volta a San Diego.
A taxa no grupo, de cerca de 7.500 militares, é parecida com a da Marinha inteira em 2024, compara o Roll Call: 356 tentativas entre cerca de 337 mil marinheiros da ativa. A conta é esta: pouco mais de uma tentativa para cada mil militares, nos dois casos.
Familiares já descreviam falta de comida, banheiros quebrados e pressão psicológica a bordo desde agosto. O Lincoln tinha mais de 5 mil militares, cinco capelães e seis especialistas em saúde mental, segundo a carta da Marinha citada pelo The New York Times.
Antes e depois da crise
No fim de junho, McKelvey procurou a enfermaria do navio para pedir atendimento em saúde mental e foi encaminhado a um capelão, conta ele ao The New York Times. Recusou, porque o capelão não era profissional de saúde mental.
Em julho, escreveu à esposa que o navio estava “finalmente” pesando sobre ele e que não sabia se conseguiria terminar a missão. Samantha diz que ele pediu licença-paternidade mais de uma vez e teve os pedidos negados, segundo o Marine Insight.
Depois do resgate, ele ficou dias internado no hospital naval de San Diego. Samantha relata que ali ele não passou por psiquiatra nem terapeuta e que a Marinha só a procurou dias depois do episódio. Ela soube do caso por um colega de esquadrão do marido.
A resposta da Marinha
A Marinha não respondeu às perguntas específicas do The New York Times. Um porta-voz disse que os porta-aviões têm “uma equipe multidisciplinar de recursos de saúde mental”, com atendimento ajustado a cada caso.
À MS NOW, uma autoridade da Força afirmou que pensamentos e tentativas de suicídio “não são, por si, conduta punível” e exigem cuidado clínico e apoio do comando. Na mesma nota, disse que qualquer outra acusação é analisada pelos próprios fatos, com consulta jurídica.
O relatório do oficial de serviço no dia diz que os motivos eram “indeterminados” e que as condições pareciam “suspeitas”, mas admite que “esta tem sido uma missão difícil”. Samantha chama o texto de “suposições” e “opiniões enviesadas”.
“Não precisa punir. Precisa tratar”, diz Rachel VanLandingham, ex-advogada da Força Aérea e professora da Southwestern Law School, ao The New York Times.
Congresso pede audiências
Gillibrand, democrata de Nova York, e o deputado Brad Schneider, democrata de Illinois, pedem audiências no Congresso sobre as tentativas no grupo do Lincoln, informa o Roll Call. O senador Adam Schiff, da Califórnia, pede uma investigação do inspetor-geral sobre as condições no navio.
A deputada Sara Jacobs, da Califórnia e da Comissão de Forças Armadas da Câmara, se disse preocupada com a situação de marinheiros e fuzileiros a bordo, segundo o Marine Insight. O Roll Call não informa data para nenhuma audiência.
Como é no Brasil
No Brasil, casos recentes de doença mental surgida no serviço foram discutidos como pedido de reforma, a aposentadoria do militar por incapacidade. Em agosto, o TRF4 mandou a União reformar de imediato o militar incapaz por doença mental adquirida durante o serviço, mesmo com o problema anterior ao ingresso.
No mesmo mês, um militar com transtorno de estresse pós-traumático por combates no Haiti vai ser reformado pelo Exército como primeiro-tenente, com atrasados acima de R$ 100 mil. Nos dois casos, a discussão foi o benefício, e não a punição.
Próximo passo: a baixa e a volta a Jacksonville
Samantha diz que o marido não pretende contestar o desligamento. A família vive entre aluguéis temporários e casas de parentes em San Diego e se prepara para voltar a Jacksonville, onde vai ajudar a cuidar da mãe dela, tratada há pouco de um linfoma.
O tipo de dispensa é o que ainda pode mudar a conta da faculdade. Se a baixa geral for mantida, ele sai sem o GI Bill, e a Marinha não informou prazo para a decisão.
Se você ou alguém próximo passa por sofrimento emocional, procure ajuda. O CVV atende de graça pelo telefone 188, 24 horas por dia, e também pelo chat no site do CVV.