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Depois de 14 militares morrerem arrastados pelo mar num exercício, o ex-comandante da Marinha do Cazaquistão é preso por negligência

Jefferson Silva
Por Jefferson Silva 06/10/2026 às 15:14
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Depois de 14 militares morrerem arrastados pelo mar num exercício, o ex-comandante da Marinha do Cazaquistão é preso por negligência
Militares da Marinha do Cazaquistão a bordo de um navio com a bandeira naval do país, ao chegar ao porto de Anzali, no Irã, em 2021. Foto de Reza Akbari Kotamjani, Wikimedia Commons, CC BY 4.0.

Ele tinha sido afastado três dias antes, junto com o chefe do Estado-Maior e um vice-ministro, e responde também por violar regras de navegação.

Doze dias depois de 14 militares morrerem arrastados pelo mar num exercício no Cáspio, o ex-comandante da Marinha do Cazaquistão, capitão de primeira classe Kanat Niyazbekov, foi preso suspeito de negligência. A Justiça autorizou a detenção, anunciada nesta terça-feira, 6 de outubro, pelo Ministério do Interior, segundo o portal estatal El.kz e o site cazaque Stan.kz.

Niyazbekov tinha sido afastado do cargo três dias antes, em 3 de outubro, por decreto do presidente Kassym-Jomart Tokayev, junto com o chefe do Estado-Maior General e um vice-ministro da Defesa. Ele responde por negligência com consequências graves e por violação das regras de navegação, previstas nos artigos 453 e 465 do Código Penal cazaque, segundo o Stan.kz.

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Catorze jovens que não voltaram do mar

O acidente aconteceu em 24 de setembro, durante o exercício Khazar Qorgany 2026, na região de Mangystau. Dezessete militares foram levados pelo mar numa operação de desembarque a partir da lancha Qaisar, segundo o Times of Central Asia. Três foram resgatados com vida, e os outros 14 morreram.

As vítimas tinham entre 19 e 23 anos, e nove delas nasceram em 2006 ou 2007, de acordo com o mesmo jornal. A maioria era natural da própria região de Mangystau, segundo o site Ulysmedia, e o país decretou luto nacional em 25 de setembro.

Tokayev classificou como inaceitável a morte de conscritos em tempo de paz e criticou a cúpula do Ministério da Defesa pela falta de atenção à disciplina, segundo o Times of Central Asia. Autoridades também apontaram que os militares não tinham coletes salva-vidas adequados, de acordo com o mesmo jornal.

Três decretos assinados no mesmo dia

Os decretos de 3 de outubro afastaram Kanysh Abubakirov do posto de primeiro vice-ministro da Defesa e chefe do Estado-Maior General, Almaz Jumakeyev do cargo de vice-ministro da Defesa e Niyazbekov do comando da Marinha, segundo a agência quirguiz AKIpress e a agência azerbaijana Trend. Só o último foi preso até agora.

A primeira queda tinha sido a do ministro da Defesa, Dauren Kosanov, demitido em 27 de setembro, três dias depois das mortes. No lugar dele, Tokayev nomeou o major-general Aidos Myrzakhmetov, de 45 anos, ex-comandante das Forças de Operações Especiais, segundo o Times of Central Asia.

O presidente deu dez dias ao novo ministro e ao Conselho de Segurança para apresentar um plano de reforma militar em etapas. O plano deve ser examinado numa reunião do Conselho na segunda metade de outubro, segundo o mesmo jornal.

O oficial que dirigia as manobras

Niyazbekov comandava a Marinha desde agosto de 2025, quando Tokayev o promoveu do posto de primeiro vice-comandante, segundo o site Orda.kz. Seu posto, capitão de primeira classe, equivale ao de capitão de mar e guerra na Marinha do Brasil.

Era ele quem dirigia o exercício no dia das mortes, segundo a cronologia publicada pelo Ulysmedia em 25 de setembro. As manobras tinham começado em 22 de setembro, com mais de 500 militares, e a tarefa daquele dia era cumprida no litoral, a cerca de 43 quilômetros da cidade de Aktau.

Cinco oficiais presos antes dele

Antes do ex-comandante, cinco militares já estavam detidos no mesmo inquérito: o chefe do estado-maior e primeiro vice-comandante da Marinha, os comandantes de duas unidades, o comandante de uma companhia de infantaria naval e o comandante da lancha Qaisar. Todos ficaram na carceragem temporária da polícia de Aktau, segundo o Caspian Post, que cita a agência estatal Kazinform.

O caso foi aberto pela Procuradoria-Geral ainda em 24 de setembro e é conduzido por um grupo de investigação de vários órgãos, segundo o Ulysmedia. O departamento de investigação militar do Ministério do Interior cuida do inquérito, e o governo criou uma comissão chefiada pelo vice-primeiro-ministro Kanat Bozumbayev.

Como o Brasil apura uma morte em treinamento

No Brasil, a morte em treinamento militar começa a ser apurada pela própria Força, em inquérito policial militar, previsto no Código de Processo Penal Militar. Se houver indício de crime, o Ministério Público Militar denuncia, e o caso é julgado pela Justiça Militar da União, com recurso ao Superior Tribunal Militar.

O artigo 206 do Código Penal Militar pune o homicídio culposo com detenção de um a quatro anos. Desde a Lei 14.688, de 2023, a pena sobe um terço quando o crime resulta de inobservância de regra técnica de profissão, arte ou ofício, ou quando o agente deixa de prestar socorro imediato à vítima.

Em outubro, o STM decidiu não cassar a patente de um capitão das Forças Especiais condenado a três anos por homicídio culposo. Na decisão, o tribunal tratou o crime como fato isolado na carreira do oficial.

O alerta de tempestade da véspera

O Ministério da Defesa atribuiu as mortes a uma piora brusca do tempo. O Ulysmedia mostrou, porém, que o serviço meteorológico Kazgidromet tinha emitido na noite de 23 de setembro um alerta de tempestade para a região, com rajadas de vento de 15 a 20 metros por segundo previstas para o dia seguinte.

O modelo de ondas para o litoral era mais calmo, com vento de 2 a 6 metros por segundo perto de Aktau, segundo o mesmo site, que ressalvou que os dois boletins cobrem áreas diferentes. As perguntas que o Ulysmedia enviou ao ministério são quais previsões o comando recebeu na manhã de 24 de setembro e quem decidiu manter o exercício.

Quatro mortos no mesmo litoral em 2015

Não é a primeira vez que o Cáspio mata militares cazaques em manobras perto de Aktau. Em 18 de setembro de 2015, seis blindados BTR-80 entraram no mar com 52 militares, e quatro veículos afundaram a 150 metros da costa depois de uma rajada de vento e de uma onda alta, segundo o Ulysmedia. Quatro conscritos morreram.

Na época, a explicação oficial também falou em vento e onda. Depois, o Ministério da Defesa admitiu falha humana, falta de preparo da tropa e controle fraco, e a Justiça condenou o ex-comandante regional Oeste, um comandante de brigada e um subcomandante a dois anos e meio de colônia penal, além de um sargento a um ano e meio.

Todos foram soltos pouco depois por anistia, segundo o mesmo site. Onze anos depois, no mesmo litoral, a investigação chegou desta vez ao oficial que comandava a Marinha inteira.

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