Ele tinha sido afastado três dias antes, junto com o chefe do Estado-Maior e um vice-ministro, e responde também por violar regras de navegação.
Doze dias depois de 14 militares morrerem arrastados pelo mar num exercício no Cáspio, o ex-comandante da Marinha do Cazaquistão, capitão de primeira classe Kanat Niyazbekov, foi preso suspeito de negligência. A Justiça autorizou a detenção, anunciada nesta terça-feira, 6 de outubro, pelo Ministério do Interior, segundo o portal estatal El.kz e o site cazaque Stan.kz.
Niyazbekov tinha sido afastado do cargo três dias antes, em 3 de outubro, por decreto do presidente Kassym-Jomart Tokayev, junto com o chefe do Estado-Maior General e um vice-ministro da Defesa. Ele responde por negligência com consequências graves e por violação das regras de navegação, previstas nos artigos 453 e 465 do Código Penal cazaque, segundo o Stan.kz.
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Catorze jovens que não voltaram do mar
O acidente aconteceu em 24 de setembro, durante o exercício Khazar Qorgany 2026, na região de Mangystau. Dezessete militares foram levados pelo mar numa operação de desembarque a partir da lancha Qaisar, segundo o Times of Central Asia. Três foram resgatados com vida, e os outros 14 morreram.
As vítimas tinham entre 19 e 23 anos, e nove delas nasceram em 2006 ou 2007, de acordo com o mesmo jornal. A maioria era natural da própria região de Mangystau, segundo o site Ulysmedia, e o país decretou luto nacional em 25 de setembro.
Tokayev classificou como inaceitável a morte de conscritos em tempo de paz e criticou a cúpula do Ministério da Defesa pela falta de atenção à disciplina, segundo o Times of Central Asia. Autoridades também apontaram que os militares não tinham coletes salva-vidas adequados, de acordo com o mesmo jornal.
Três decretos assinados no mesmo dia
Os decretos de 3 de outubro afastaram Kanysh Abubakirov do posto de primeiro vice-ministro da Defesa e chefe do Estado-Maior General, Almaz Jumakeyev do cargo de vice-ministro da Defesa e Niyazbekov do comando da Marinha, segundo a agência quirguiz AKIpress e a agência azerbaijana Trend. Só o último foi preso até agora.
A primeira queda tinha sido a do ministro da Defesa, Dauren Kosanov, demitido em 27 de setembro, três dias depois das mortes. No lugar dele, Tokayev nomeou o major-general Aidos Myrzakhmetov, de 45 anos, ex-comandante das Forças de Operações Especiais, segundo o Times of Central Asia.
O presidente deu dez dias ao novo ministro e ao Conselho de Segurança para apresentar um plano de reforma militar em etapas. O plano deve ser examinado numa reunião do Conselho na segunda metade de outubro, segundo o mesmo jornal.
O oficial que dirigia as manobras
Niyazbekov comandava a Marinha desde agosto de 2025, quando Tokayev o promoveu do posto de primeiro vice-comandante, segundo o site Orda.kz. Seu posto, capitão de primeira classe, equivale ao de capitão de mar e guerra na Marinha do Brasil.
Era ele quem dirigia o exercício no dia das mortes, segundo a cronologia publicada pelo Ulysmedia em 25 de setembro. As manobras tinham começado em 22 de setembro, com mais de 500 militares, e a tarefa daquele dia era cumprida no litoral, a cerca de 43 quilômetros da cidade de Aktau.
Cinco oficiais presos antes dele
Antes do ex-comandante, cinco militares já estavam detidos no mesmo inquérito: o chefe do estado-maior e primeiro vice-comandante da Marinha, os comandantes de duas unidades, o comandante de uma companhia de infantaria naval e o comandante da lancha Qaisar. Todos ficaram na carceragem temporária da polícia de Aktau, segundo o Caspian Post, que cita a agência estatal Kazinform.
O caso foi aberto pela Procuradoria-Geral ainda em 24 de setembro e é conduzido por um grupo de investigação de vários órgãos, segundo o Ulysmedia. O departamento de investigação militar do Ministério do Interior cuida do inquérito, e o governo criou uma comissão chefiada pelo vice-primeiro-ministro Kanat Bozumbayev.
Como o Brasil apura uma morte em treinamento
No Brasil, a morte em treinamento militar começa a ser apurada pela própria Força, em inquérito policial militar, previsto no Código de Processo Penal Militar. Se houver indício de crime, o Ministério Público Militar denuncia, e o caso é julgado pela Justiça Militar da União, com recurso ao Superior Tribunal Militar.
O artigo 206 do Código Penal Militar pune o homicídio culposo com detenção de um a quatro anos. Desde a Lei 14.688, de 2023, a pena sobe um terço quando o crime resulta de inobservância de regra técnica de profissão, arte ou ofício, ou quando o agente deixa de prestar socorro imediato à vítima.
Em outubro, o STM decidiu não cassar a patente de um capitão das Forças Especiais condenado a três anos por homicídio culposo. Na decisão, o tribunal tratou o crime como fato isolado na carreira do oficial.
O alerta de tempestade da véspera
O Ministério da Defesa atribuiu as mortes a uma piora brusca do tempo. O Ulysmedia mostrou, porém, que o serviço meteorológico Kazgidromet tinha emitido na noite de 23 de setembro um alerta de tempestade para a região, com rajadas de vento de 15 a 20 metros por segundo previstas para o dia seguinte.
O modelo de ondas para o litoral era mais calmo, com vento de 2 a 6 metros por segundo perto de Aktau, segundo o mesmo site, que ressalvou que os dois boletins cobrem áreas diferentes. As perguntas que o Ulysmedia enviou ao ministério são quais previsões o comando recebeu na manhã de 24 de setembro e quem decidiu manter o exercício.
Quatro mortos no mesmo litoral em 2015
Não é a primeira vez que o Cáspio mata militares cazaques em manobras perto de Aktau. Em 18 de setembro de 2015, seis blindados BTR-80 entraram no mar com 52 militares, e quatro veículos afundaram a 150 metros da costa depois de uma rajada de vento e de uma onda alta, segundo o Ulysmedia. Quatro conscritos morreram.
Na época, a explicação oficial também falou em vento e onda. Depois, o Ministério da Defesa admitiu falha humana, falta de preparo da tropa e controle fraco, e a Justiça condenou o ex-comandante regional Oeste, um comandante de brigada e um subcomandante a dois anos e meio de colônia penal, além de um sargento a um ano e meio.
Todos foram soltos pouco depois por anistia, segundo o mesmo site. Onze anos depois, no mesmo litoral, a investigação chegou desta vez ao oficial que comandava a Marinha inteira.