O Exército Brasileiro publicou um passo a passo oficial para comprar equipamentos militares dos Estados Unidos para a sua Aviação, a frota de helicópteros da Força. A regra foi aprovada pela Portaria nº 288 do Comando Logístico, de 24 de setembro de 2026, assinada pelo General de Exército Maurílio Miranda Netto Ribeiro, e publicada no Boletim do Exército de 9 de outubro.
O documento explica como funciona o Foreign Military Sales (FMS), que em português significa “venda de material militar para estrangeiros”. Na prática, é uma espécie de loja oficial do governo americano, onde países aliados compram armas, peças, serviços e cursos.
Como funciona a “loja” do governo americano
No FMS, o Brasil não negocia direto com a fábrica. Quem faz a ponte é o próprio governo dos EUA, que compra do fabricante ou tira o item dos estoques do Pentágono e repassa ao Exército brasileiro.
Segundo a norma, a vantagem é aproveitar contratos que os americanos já fecharam em grande volume, o que costuma sair mais barato. O governo dos EUA ainda fiscaliza o fornecedor e mantém atualizados manuais e peças, evitando que o equipamento fique obsoleto.

Quanto custa usar o sistema
O serviço tem uma taxa que não é devolvida. Na maioria das compras, ela é de 3,2% do valor total. Na modalidade de reposição contínua de peças, que funciona quase como uma assinatura, a taxa sobe para 5%. Nesse caso, 30% do dinheiro ainda fica parado como garantia nos estoques americanos e só volta ao fim do contrato.
E tudo é pago antes. A lei americana exige que o produto já esteja quitado quando for entregue. As parcelas vencem a cada três meses, no dia 15 de março, junho, setembro e dezembro.
Quem dá a palavra final é o Congresso dos EUA
Em muitas compras, o contrato precisa passar pelo Congresso americano. A norma diz com todas as letras que esse trâmite é feito só pelo governo dos EUA, sem nenhuma participação do governo brasileiro. As regras sobre quem pode comprar e o que pode ser vendido também estão em leis americanas de controle de exportação de armas.
Mudanças administrativas no contrato, como a data de um pagamento, podem ser feitas pelos americanos sem assinatura do Brasil. A norma registra que, antes, o texto é enviado para análise da comissão do Exército brasileiro em Washington.
Se sobrar dinheiro, ele não volta
Quando o contrato termina, os americanos fazem as contas entre o que foi pago e o que foi entregue. Pela norma, não há devolução. O que sobrar fica numa conta do Brasil nos EUA e só pode ir para outra compra, com autorização do Estado-Maior do Exército.
As contrapartidas, como transferência de tecnologia, também ficam por conta do Brasil. Os EUA não proíbem, mas não ajudam a negociar, e o acordo com a fábrica vira um contrato separado.
Do lado brasileiro, a compra passa por várias mesas: chefe de material de aviação, Comandante Logístico, advogados da AGU e, por fim, o Comandante do Exército, que libera a assinatura pelo chefe da comissão brasileira em Washington.
Black Hawk: 12 helicópteros e até US$ 950 milhões
O programa que mais movimenta esse sistema hoje é o do Black Hawk. Em maio de 2024, os EUA aprovaram a possível venda de 12 helicópteros UH-60M ao Exército brasileiro, num pacote de até US$ 950 milhões. Segundo a base especializada Helis, o primeiro chegou em novembro de 2025, num avião de carga C-17, e os outros devem chegar em 2027 e 2028.
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Os novos aparelhos vão substituir quatro Black Hawk antigos e oito helicópteros Cougar. O pacote inclui motores de reserva, sistemas de navegação por satélite combinados com navegação inercial e rádios militares.
Da Somália à Amazônia: a história do Black Hawk
Fabricado pela Sikorsky, hoje parte da Lockheed Martin, o Black Hawk entrou em serviço no Exército americano no fim dos anos 1970 e virou o helicóptero de transporte padrão das tropas dos EUA. São mais de 2 mil em operação nas forças americanas e mais de 600 exportados.
Ganhou fama mundial em combates como o de Mogadíscio, na Somália, em 1993, episódio que inspirou o filme “Falcão Negro em Perigo”. Também esteve no Iraque, no Afeganistão e na operação que matou Osama bin Laden, em 2011, numa versão modificada.
No Brasil, a história começou em 1997. Os quatro primeiros Black Hawk do Exército apoiaram a missão de observadores militares na fronteira entre Equador e Peru antes de seguir para o 4º Batalhão de Aviação, em Manaus.
Enchentes, Yanomami e incêndios no Pantanal
O helicóptero carrega mais de quatro toneladas de carga, dentro ou pendurada, e pode ser armado. No país, Black Hawk das Forças Armadas atuaram nas enchentes do Rio Grande do Sul, no resgate na terra indígena Yanomami e no combate aos incêndios no Pantanal.
Na versão M, os EUA listam como missões o transporte de tropas, a vigilância de fronteiras, a evacuação de feridos, a ajuda em desastres e a busca e salvamento.
Crise entre governos não parou as compras
A norma sai num momento de atrito entre os governos de Lula e Donald Trump. Mesmo assim, levantamentos da RSM mostram que militares brasileiros seguiram em cursos e exercícios nos EUA, com pelo menos US$ 800 mil pagos adiantado pelo Exército.
Próxima parada: novos Black Hawk em 2027
As regras já estão valendo. O próximo lote de Black Hawk, previsto para 2027, vai seguir esse caminho: pago adiantado, com taxa cobrada e liberado só depois do aval de Washington.