A Força Aérea Brasileira (FAB) ajudou a criar as condições para o nascimento de uma empresa que hoje desenvolve tecnologia de controle aéreo utilizada no país e em outras regiões do mundo. A Atech, integrante do grupo Embraer, fornece sistemas que processam planos de voo, antecipam gargalos e permitem acompanhar aeronaves em tempo real.
A história tem uma contradição: o Brasil, que dependia de fornecedores estrangeiros para atualizar programas de vigilância do espaço aéreo, passou a exportar soluções dessa mesma área para países como Índia, África do Sul, Paraguai e Venezuela. A evolução reúne décadas de conhecimento acumulado, projetos da Aeronáutica e contratos de tecnologia crítica.
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O funcionamento dessas soluções foi detalhado em reportagem publicada pelo UOL em 11 de outubro. Documentos do DECEA, informações da Embraer e contratos internacionais ajudam a compreender a dimensão militar e tecnológica do trabalho.
FAB dependia de fornecedores estrangeiros e buscou formar especialistas brasileiros
Na década de 1970, o controle do espaço aéreo brasileiro utilizava programas contratados de empresas estrangeiras. As dificuldades para corrigir, atualizar e modificar esses sistemas revelavam um problema estratégico: sem domínio do software, a FAB dependia das decisões de terceiros para modernizar uma estrutura essencial ao país.
Nos anos 1980, profissionais brasileiros participaram de projetos conjuntos e processos de transferência de tecnologia. A experiência foi decisiva para formar uma equipe capaz de desenvolver novas ferramentas de controle e vigilância, segundo a história relatada pela própria companhia.
A Atech nasceu em 1997, com profissionais ligados a esses sistemas e ao projeto Sivam, de vigilância da Amazônia. A Embraer adquiriu participação no negócio em 2011 e concluiu a compra em 2013, mantendo a marca da subsidiária.
Sigma recebe planos de voo e permite prever congestionamentos antes da decolagem
Antes de um avião sair do solo, pilotos e companhias apresentam um plano com destino, rota, horário e outras informações operacionais. O Sigma, desenvolvido pela Atech, processa esses dados e compara a demanda prevista com a capacidade de aeroportos, rotas e setores do espaço aéreo.
Quando muitos voos pretendem usar um mesmo trecho ou aeroporto em determinado horário, o gerenciamento de fluxo permite organizar a programação e aplicar medidas para reduzir atrasos. Também recebe dados de planos repetitivos, utilizados por empresas que operam rotas regulares.
O FPL-BR simplifica a entrega eletrônica dos planos. Segundo Marcos Resende, vice-presidente de negócios de gerenciamento de tráfego aéreo da Atech, pilotos passaram a transmitir pela internet informações que antes dependiam de contato telefônico ou formulários apresentados presencialmente.

Sagitário integra radares e meteorologia nas telas dos controladores da FAB
Após a decolagem, a aeronave pode ser acompanhada por órgãos de controle de aproximação, os APP, e, durante o percurso, por centros de controle de área, os ACC. O Sagitário reúne dados de vigilância, planos de voo e informações meteorológicas em interfaces utilizadas pelos controladores.
A posição dos aviões aparece junto a alertas e outros dados que ajudam a perceber conflitos e possíveis desvios necessários diante de tempestades. É uma ferramenta de apoio a decisões tomadas por profissionais de controle de tráfego aéreo, não um sistema que pilota aeronaves de forma autônoma.
Em janeiro de 2021, o Centro de Controle de Área de Brasília passou por modernização do Sagitário, com novos equipamentos e testes de aceitação acompanhados pela Comissão de Implantação do Sistema de Controle do Espaço Aéreo.

Embraer aponta 22 milhões de km² de cobertura e 1,6 milhão de movimentos aéreos por ano
Na apresentação de seu portfólio de controle de tráfego, a Embraer informa alcance de 22 milhões de quilômetros quadrados para a área atendida pelas soluções, com aproximadamente 1,6 milhão de movimentos aéreos anuais.
A fabricante cita cinco centros de controle de área, 25 controles de aproximação e um centro de gerenciamento de fluxo que utilizam suas tecnologias no Brasil. Já a reportagem do UOL registra cinco ACC e 42 APP existentes no país. Os números não são contraditórios: nem todas essas unidades usam softwares da Atech.
O DECEA, órgão da FAB, coordena o uso de infraestrutura nacional que atende aeronaves civis e militares. A integração dos dados é fundamental para que centros diferentes acompanhem o mesmo voo conforme ele percorre o espaço aéreo brasileiro.
Paraguai e Venezuela utilizam Sagitário; a Índia adotou solução para gestão de fluxo
A expansão estrangeira não se limita a equipamentos vendidos para companhias aéreas. A Embraer identifica sistemas Sagitário no Paraguai e na Venezuela para apoiar o controle de aeronaves em rota e em aproximação.
Na Índia, a plataforma Skyflow se concentra no gerenciamento do fluxo: ajuda a organizar demanda e capacidade, conectando-se a sistemas que já existem no país. Cada operação precisa ser adaptada à estrutura, às regras e às fontes de informação do cliente.
O fato de países estrangeiros adotarem tecnologia desenvolvida por uma empresa brasileira é especialmente relevante em um setor no qual segurança operacional, manutenção e domínio dos programas exigem desenvolvimento especializado e contratos de longo prazo.
África do Sul contratou modernização do tráfego de Joanesburgo com entrega prevista para 2027
Em setembro de 2025, a Atech assinou acordo com a estatal Air Traffic and Navigation Services (ATNS), da África do Sul, para modernizar o gerenciamento de fluxo no Aeroporto Internacional O.R. Tambo, em Joanesburgo. O projeto prevê simulações, ambiente de treinamento e um centro de contingência.
Segundo os detalhes do contrato divulgados à época, o sistema deverá contribuir para organizar a operação de um país com cerca de 283 mil voos anuais, inclusive diante de situações de saturação e necessidade de reorganizar horários.
A previsão anunciada para concluir o projeto foi o terceiro trimestre de 2027. O compromisso inclui mecanismos de continuidade de serviço, necessários a operações nas quais interrupções tecnológicas podem afetar milhares de passageiros e tripulações.
Desenvolvimento também alcança programas da Marinha e novos contratos com o DECEA
A atuação da Atech ultrapassa o tráfego aéreo. No setor militar brasileiro, a empresa participa de projetos das fragatas da Classe Tamandaré, do sistema DACOM, de defesa e circulação operacional militar, e de iniciativas associadas ao LABGENE, programa tecnológico nuclear da Marinha.
Em informações financeiras referentes a 2025, a Embraer também relatou a assinatura de quatro novos contratos da Atech com o DECEA para desenvolvimento e modernização de sistemas de controle aéreo.
A companhia continua, assim, trabalhando em atualizações nacionais enquanto busca clientes internacionais. A história começou com a necessidade de reduzir a dependência externa e chegou a sistemas instalados além das fronteiras brasileiras.
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