Até onde pode chegar a influência dos Estados Unidos na política brasileira? Uma investigação internacional já havia revelado ações de integrantes do governo Donald Trump para favorecer a família Bolsonaro. Agora, uma acusação de alcance ainda maior coloca Washington no centro de uma nova controvérsia: autoridades americanas teriam ajudado Flávio Bolsonaro a deixar o Brasil, apesar de uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que proibia sua saída do país.
Governo Trump teria participado de operação para retirar Flávio do Brasil
Aliados da família Bolsonaro afirmam que a administração americana tinha conhecimento da viagem e estaria disposta a conceder asilo político ao senador, derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial de domingo (25).
Segundo reportagem da Folhapress, uma pessoa próxima à família declarou que o governo dos Estados Unidos teria participado ativamente do planejamento da saída de Flávio.
A Reuters também ouviu um aliado do parlamentar e uma fonte do governo americano que confirmaram sua viagem aos Estados Unidos. A agência, entretanto, não estabeleceu que Washington tenha organizado a operação.
Até o momento, não há confirmação oficial de concessão de asilo nem comprovação independente de participação da Casa Branca no planejamento da viagem.
Reuters revelou campanha americana para favorecer a família Bolsonaro
A nova acusação surge apenas três dias depois de uma investigação da Reuters expor iniciativas de funcionários do governo Trump destinadas a influenciar o cenário político brasileiro.
Na reportagem publicada em 24 de outubro, a agência identificou Darren Beattie e Ricardo Pita como participantes de esforços para favorecer o retorno da família Bolsonaro ao poder.
A investigação reuniu relatos de dez funcionários e ex-funcionários americanos com conhecimento dos acontecimentos.
Segundo essas fontes, os dois integrantes da administração Trump defenderam medidas de pressão contra autoridades brasileiras, incluindo sanções relacionadas ao ministro Alexandre de Moraes e restrições de vistos.
Também apoiaram iniciativas envolvendo a possível classificação de organizações criminosas brasileiras como terroristas.
O Departamento de Estado americano defendeu suas políticas como medidas voltadas à proteção dos interesses dos Estados Unidos. A Reuters, porém, não conseguiu determinar até que ponto Beattie e Pita agiram sob orientação direta da Casa Branca.
A investigação documenta uma atuação política anterior, mas não comprova qualquer ligação operacional com a saída de Flávio Bolsonaro.
Ainda assim, os episódios colocam novamente em discussão os limites da influência de Washington sobre os assuntos internos do Brasil.
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Decisão do STF e passaportes cancelados ampliam controvérsia
Na segunda-feira (26), Alexandre de Moraes determinou a entrega dos passaportes do senador e proibiu sua saída do território brasileiro.
Flávio afirmou publicamente que cumpriria a decisão e permaneceria no país. Entretanto, não apresentou os documentos dentro do prazo estabelecido.
Na terça-feira (27), a Polícia Federal cancelou seus passaportes brasileiros. Segundo a Folhapress, a documentação italiana permanecia válida.
O parlamentar é investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro e outras irregularidades. Ele nega ter cometido crimes.
Em reportagem anterior da Revista Sociedade Militar, foram detalhados o acionamento da Abin, a atuação da Polícia Federal e as suspeitas envolvendo um jato privado em Puerto Iguazú, na Argentina.
Autoridades argentinas negaram ter registrado a entrada do senador. Posteriormente, surgiram versões contraditórias sobre a aeronave, incluindo a hipótese de que teria servido como distração.
O percurso efetivamente utilizado por Flávio ainda não foi esclarecido por documentação migratória independente.
Atuação dos EUA na política brasileira levanta questões sobre soberania
As revelações colocam duas situações distintas diante do público brasileiro.
A primeira envolve iniciativas de funcionários americanos para favorecer politicamente os Bolsonaro, documentadas pela Reuters. A segunda diz respeito à acusação, ainda sem comprovação independente, de que autoridades dos Estados Unidos teriam ajudado um senador a deixar o Brasil após uma proibição judicial.
O apoio político a aliados estrangeiros e a análise de pedidos de asilo não representam, por si, uma violação da soberania de outro país. A eventual participação direta na organização de uma viagem contrária a uma ordem judicial brasileira, entretanto, levantaria questionamentos institucionais e diplomáticos de outra natureza.
É justamente essa diferença que torna a nova acusação relevante.
Por enquanto, a confirmação do deslocamento aos Estados Unidos não esclarece quem organizou a viagem, qual foi a participação de autoridades estrangeiras ou se houve efetivamente um pedido de asilo.
A atuação política de integrantes da administração Trump no Brasil já foi documentada. A questão agora é saber se essa influência também alcançou uma operação envolvendo uma decisão da mais alta Corte brasileira.