No início dos anos 1980, o Brasil colocou quatro países na disputa por um projeto que iria muito além da compra de um submarino pronto. Itália, França, Alemanha e Suécia foram convidadas a oferecer embarcações convencionais com deslocamento na faixa de 1.200 a 1.700 toneladas. A condição que mudaria o destino do programa era a transferência de tecnologia para que os próximos cascos pudessem ser construídos em território brasileiro.
A concorrência terminou em 1982, quando a Marinha escolheu o projeto alemão IKL 209, apresentado pelo consórcio Howaldtswerke Deutsche Werft (HDW)/Ferrostaal. A escolha levou em conta o desempenho da embarcação, o financiamento e a abrangência da transferência de tecnologia, segundo a cronologia da cooperação publicada pelo Poder Naval. Em vez de receber todas as unidades prontas, o Brasil adotou um caminho de aprendizagem industrial: construir o primeiro navio na Alemanha e o segundo no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ).
Itália, França, Suécia e Alemanha disputaram a venda de submarinos ao Brasil nos anos 1980, mas a Marinha escolheu um acordo que levou brasileiros a aprender a fabricação em Kiel e depois construir embarcações no Rio de Janeiro
Os primeiros contratos foram assinados em 1982, mas a vigência efetiva do programa começou em 23 de julho de 1984. Naquele ano, engenheiros alemães vieram ao Arsenal de Marinha avaliar a infraestrutura necessária para o trabalho. Em Kiel, na Alemanha, começou a construção do Tupi (S-30), a unidade que serviria também como a principal escola prática para a equipe brasileira.
Cerca de 100 brasileiros acompanharam a construção de perto para aprender a fabricar embarcação de guerra
A partir de 1985, aproximadamente 100 engenheiros e técnicos da Marinha participaram de um programa de treinamento no estaleiro HDW durante mais de dois anos. Não se tratava apenas de receber manuais: o aprendizado acompanhava planejamento, fabricação, controle de qualidade e testes de um submarino real. O número e o período constam da cronologia histórica da cooperação industrial; publicações oficiais da Marinha confirmam o envio de profissionais e a modalidade de treinamento durante a construção do Tupi.

A transferência precisava produzir resultados fora da Alemanha. No Rio de Janeiro, o Arsenal preparava instalações e procedimentos especializados. A Nuclebrás Equipamentos Pesados (Nuclep), em Itaguaí, passou a participar da fabricação de seções do casco resistente, componente estrutural que deve suportar a pressão da água em imersão.
O Tupi ficou pronto na Alemanha; o desafio maior era fazer o Tamoio nascer no Brasil
O Tupi foi lançado ao mar em 28 de abril de 1987. Segundo o histórico oficial da Marinha, o estaleiro o entregou em 20 de dezembro de 1988, e sua incorporação à Armada ocorreu em 6 de maio de 1989, depois dos testes e do treinamento no mar Báltico. São marcos diferentes: entrega industrial não é a mesma coisa que entrada oficial em serviço.
Enquanto isso, a construção do Tamoio (S-31) avançava no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro. Os brasileiros precisaram transformar o conhecimento obtido em Kiel em rotinas próprias de fabricação, inspeção, montagem e testes. A cronologia do programa descreve a complexidade do processo: cerca de 10 mil desenhos técnicos, 50 mil itens de materiais e equipamentos e, no pico das obras, aproximadamente 230 engenheiros e técnicos especializados.
Em 12 de dezembro de 1994, o Tamoio foi incorporado à Marinha. Era o primeiro submarino construído no Brasil, resultado de uma decisão de compra tomada mais de uma década antes. A própria Marinha descreve essa etapa como o salto que levou o país a desenvolver capacidade industrial de construção submarina.
O acordo foi ampliado e deu origem a quatro submarinos construídos no país
O plano não terminou no Tamoio. Um contrato adicional de 1985 garantiu conjuntos de materiais e equipamentos para o Timbira (S-32) e o Tapajó (S-33). Ambos foram construídos no Rio de Janeiro. O primeiro foi incorporado em 1996; o segundo, em 1999. O quinto submarino do ciclo alemão, Tikuna (S-34), também saiu do Arsenal e foi incorporado em dezembro de 2005, mas já incorporava alterações brasileiras relevantes e é classificado pela Marinha como evolução do projeto original.

A conta, portanto, precisa ser feita com cuidado: o Tupi foi fabricado na Alemanha; Tamoio, Timbira e Tapajó foram construídos no Brasil como unidades da classe Tupi; e o Tikuna foi um quarto submarino construído no país, de projeto aperfeiçoado. Isso não significa que todos fossem concebidos integralmente por engenheiros brasileiros nem que todos os componentes fossem nacionais.
Da parceria alemã ao desafio do submarino nuclear brasileiro
A capacitação construída a partir da década de 1980 antecedeu o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), firmado décadas depois em parceria com a França. Os contratos e as tecnologias são diferentes: o programa alemão abriu caminho para fabricar submarinos convencionais no país; o PROSUB reúne novos submarinos convencionais e trabalhos para o futuro submarino brasileiro com propulsão nuclear.
No acordo posterior com os franceses, também há um limite importante: a assistência externa ao projeto do submarino nuclear diz respeito à parte não nuclear. O reator e os sistemas nucleares embarcados são responsabilidade brasileira, conforme o acordo bilateral. Isso evita confundir experiência em construção de casco e integração naval com domínio automático de propulsão nuclear.
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A história da concorrência entre quatro fornecedores mostra por que uma compra militar pode ser julgada não só pelo equipamento recebido, mas por aquilo que o país aprende a fabricar e manter. O resultado mais duradouro daquela negociação não ficou restrito ao Tupi: apareceu nas oficinas, nas equipes capacitadas e nos submarinos que passaram a sair do Rio de Janeiro.