A Marinha do Brasil já teve uma frota de guerra com tonelagem quase 27 vezes maior que a da Argentina. Em 1825, a Armada brasileira somava o equivalente a 2.657,9% da tonelagem dos navios militares argentinos. Em 1900, a situação havia se invertido: a frota brasileira representava apenas 77,3% da tonelagem da vizinha.
A virada aparece em um estudo publicado em 2026 na revista científica Dados, assinado por Octavio Amorim Neto e Sílvia Lemgruber Julianele Anciães, pesquisadores ligados à Fundação Getulio Vargas (FGV). Os autores examinaram o crescimento, as perdas e as disputas políticas que alteraram a posição naval do Brasil entre 1822 e 1900.
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Em menos de oito décadas, o país saiu de uma vantagem esmagadora na comparação com a Argentina para uma posição inferior nesse indicador. Guerras na região do Prata, mudanças tecnológicas e conflitos entre Exército e Marinha estão entre os fatores investigados.
Em 1835, a diferença entre as duas frotas chegou a quase 37 vezes
O maior domínio brasileiro na série aparece em 1835, quando sua tonelagem correspondia a 3.693,9% da argentina. A superioridade já era enorme dez anos antes, mas diminuiu de maneira irregular nas décadas seguintes: em 1845, o indicador caiu para 387,5% e, em 1850, alcançou 771,2%.
A Argentina atravessava um processo próprio de formação do Estado e organização das forças navais. Durante parte do século XIX, a Confederação Argentina e a Província de Buenos Aires chegaram a depender de embarcações mercantes requisitadas para operações militares, segundo os pesquisadores.
O Brasil havia herdado parte da estrutura naval portuguesa e precisava ligar regiões distantes do território recém-independente. A organização naval argentina avançou mais tarde, enquanto o Império brasileiro empregava seus navios na integração do próprio território.
Esquadra Imperial bloqueou portos e combateu ameaças na região do Prata
O tamanho da Marinha brasileira estava ligado a tarefas que iam além da defesa do litoral. Na história oficial da Esquadra, a Marinha relata que seus navios bloquearam Buenos Aires, Montevidéu e Sacramento durante a Guerra da Cisplatina, travada de 1825 a 1828.
A força imperial possuía vantagem militar sobre as esquadras adversárias, mas os navios de maior calado enfrentavam dificuldades para atuar em rios rasos. O problema favorecia embarcações menores e táticas de ataque utilizadas pelos oponentes.
Na Guerra contra Oribe e Rosas, entre 1851 e 1852, navios brasileiros transportaram soldados e mantiveram bloqueios. Na Passagem de Tonelero, embarcações a vapor rebocaram navios a vela para combinar velocidade e poder de fogo no rio Paraná.
Guerra do Paraguai levou a Marinha a ampliar novamente sua força
Às vésperas da Guerra do Paraguai, em 1860, a tonelagem brasileira equivalia a 610,5% da argentina. Em 1865, a relação chegou a 500,7%. Depois do esforço de construção e incorporação de navios durante o conflito, o indicador subiu para 1.114,6% em 1870.
A guerra levou o Império a investir em embarcações blindadas, compras externas e produção nos arsenais nacionais. A Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha registra a incorporação de 17 encouraçados, incluindo seis monitores, durante a Guerra da Tríplice Aliança.
A Batalha Naval do Riachuelo, em 11 de junho de 1865, envolveu a fragata Amazonas e oito vapores brasileiros. A vitória ajudou a impor obstáculos ao abastecimento paraguaio e mostrou a importância dos navios brasileiros nos rios da região durante o conflito.
Depois da vitória, o custo da guerra dificultou a renovação dos navios
Encerrados os combates em 1870, o governo imperial passou a enfrentar os efeitos financeiros de anos de mobilização. Um plano para desenvolver uma Marinha com maior capacidade oceânica encontrou limites de orçamento, enquanto o Exército ganhava crescente influência política.
O estudo identifica uma redução da vantagem brasileira sobre a Argentina: a proporção caiu de 1.114,6% em 1870 para 592,1% em 1875 e 315,1% em 1880. A frota brasileira continuava expressiva, mas sua evolução já não acompanhava o ritmo relativo observado no país vizinho.
Riachuelo e Aquidabã entraram nos planos de modernização naval
Na década de 1880, o governo brasileiro buscou renovar a esquadra. Um crédito extraordinário aprovado em 1880 abriu espaço para aquisições no exterior, incluindo os encouraçados Riachuelo e Aquidabã, além de cinco torpedeiros de pequeno porte citados pelos pesquisadores.
O período também foi marcado por tensões com a Argentina em torno do território das Missões. Em 1885, o Brasil ainda mantinha tonelagem equivalente a 368,8% da argentina. Frente à Grã-Bretanha, porém, a frota brasileira representava somente 6,6% , o maior valor dessa comparação no período analisado.
A chegada dos motores a vapor, dos cascos metálicos e de armamentos mais avançados encareceu a construção e a manutenção de navios. A substituição de embarcações antigas passou a exigir recursos e capacidade industrial cada vez maiores.
Revolta da Armada agravou a crise naval depois da Proclamação da República
A mudança de regime em 1889 alterou o equilíbrio de poder entre as Forças Armadas. O Exército ganhou protagonismo no novo governo, enquanto setores da Marinha entraram em confronto com o presidente Floriano Peixoto na Revolta da Armada, de 1893 a 1894.
O movimento envolveu navios, fortalezas, bloqueios e confrontos na Baía de Guanabara. Um estudo histórico publicado em periódico hospedado pela Marinha registra a derrota dos revoltosos e a crise que atingiu a instituição.
Para Amorim Neto e Anciães, o peso político alcançado pelo Exército e os efeitos da revolta foram decisivos para a deterioração naval na década de 1890. Os números mostram a rapidez da mudança: a vantagem brasileira era de 351,9% da tonelagem argentina em 1890, caiu para 149,8% em 1895 e terminou em 77,3% em 1900.
Em 1900, a frota argentina tinha cerca de 29% mais tonelagem que a brasileira
O índice de 77,3% significa que, naquela data, a Argentina possuía uma tonelagem de navios de combate aproximadamente 29% maior que a do Brasil. Foi o menor resultado brasileiro em toda a comparação de 1825 a 1900.
Os pesquisadores também verificaram que a Marinha do Brasil representava 3,2% da tonelagem britânica em 1900, menos da metade do patamar de 1885. A Grã-Bretanha aparece na pesquisa como referência mundial para avaliar a posição brasileira além da rivalidade regional.
Pesquisa mediu tonelagem dos navios ativos, não todos os fatores de combate
Os pesquisadores somaram a tonelagem das embarcações militares em atividade, como fragatas, corvetas, cruzadores e encouraçados, e compararam os resultados ano a ano. A medida indica o tamanho material das frotas, enquanto armamentos, treinamento, prontidão e tecnologia também influenciam o desempenho de uma esquadra em combate.
A base reunida pelos autores utiliza registros históricos da própria Marinha e levantamentos sobre as frotas argentina e britânica. Publicado em julho de 2026, o estudo reconstrói o período que vai da Independência aos primeiros anos da República, sem estabelecer uma classificação das marinhas atuais.
Ao fim do século XIX, o Brasil havia perdido a vantagem de tonelagem que sustentara por décadas frente à Argentina. Na avaliação dos pesquisadores, a retração dos investimentos após as guerras e, sobretudo, as disputas políticas internas no final do Império e no início da República explicam partes importantes dessa trajetória.