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Morre aos 101 anos o último sobrevivente de navio da Marinha torpedeado por submarino nazista na Segunda Guerra; ataque matou 100 brasileiros em apenas três minutos

A Marinha confirmou a morte, aos 101 anos, de Girgazes Agostinho de Brito, último sobrevivente do navio Vital de Oliveira, torpedeado por um submarino nazista em 1944. O ataque deixou cerca de 100 brasileiros mortos.

Marcos
Por Marcos 09/10/2026 às 19:17
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Morre aos 101 anos o último sobrevivente de navio da Marinha torpedeado por submarino nazista na Segunda Guerra; ataque matou 100 brasileiros em apenas três minutos
A Marinha confirmou a morte, aos 101 anos, de Girgazes Agostinho de Brito, último sobrevivente do navio Vital de Oliveira, torpedeado por um submarino nazista em 1944. O ataque deixou cerca de 100 brasileiros mortos.

A Marinha do Brasil anunciou nesta sexta-feira, 9 de outubro de 2026, a morte do primeiro-tenente reformado Girgazes Agostinho de Brito, aos 101 anos, considerado o último sobrevivente do naufrágio do Navio-Auxiliar Vital de Oliveira, torpedeado por um submarino alemão durante a Segunda Guerra Mundial.

A embarcação transportava aproximadamente 270 pessoas quando foi atingida pelo submarino nazista U-861, no litoral do Rio de Janeiro, em julho de 1944. Cerca de 100 brasileiros morreram, enquanto Girgazes conseguiu escapar e sobreviver a uma noite que marcaria toda a sua vida.

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O falecimento foi confirmado em uma homenagem publicada pela Marinha do Brasil, que recuperou os últimos testemunhos do veterano e sua participação na preservação da memória dos militares brasileiros que combateram no Atlântico.

Marinha recebeu a notícia da morte na manhã desta sexta-feira

A confirmação do falecimento ocorreu após familiares entrarem em contato com o primeiro-tenente João Thiago Stilben, responsável por acompanhar parte do trabalho de preservação da história do sobrevivente. Segundo o militar, a ligação aconteceu às 6h47, quando Isócrates, genro de Girgazes, comunicou a morte do veterano.

Nascido em 29 de agosto de 1925, na Bahia, Girgazes ingressou na Marinha em 1942, pela antiga Escola de Aprendizes de Marinheiros de Salvador. Ao longo da carreira, alcançou o posto de primeiro-tenente, passando posteriormente à condição de reformado.

Radicado havia muitos anos em Aracaju, Sergipe, ele se tornou uma das principais testemunhas da participação brasileira na guerra naval contra a Alemanha nazista.

Navio brasileiro foi atingido por submarino alemão perto do Rio de Janeiro

Na noite de 19 de julho de 1944, por volta das 23h55, o Navio-Auxiliar Vital de Oliveira navegava nas proximidades do Cabo de São Tomé, no litoral fluminense, quando foi surpreendido pelo submarino alemão U-861, comandado por Jürgen Oesten.

Um torpedo atingiu a parte traseira da embarcação, provocando uma explosão que comprometeu sua estrutura. Conforme os registros históricos divulgados pela Marinha, aproximadamente três minutos foram suficientes para que o navio desaparecesse sob as águas.

Construído em 1910 e incorporado à Marinha em 1931, o Vital de Oliveira transportava militares, passageiros e suprimentos entre diferentes portos brasileiros. Seu afundamento entrou para a história como o único caso de um navio militar brasileiro destruído diretamente por ação inimiga durante a Segunda Guerra Mundial.

Navio-Auxiliar Vital de Oliveira, da Marinha do Brasil, afundado em 19 de julho de 1944 após ser torpedeado pelo submarino alemão U-861, durante a Segunda Guerra Mundial. O ataque deixou cerca de 100 mortos. Foto: Marinha do Brasil/Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0).

Girgazes estava dormindo quando a explosão mudou sua vida

O então marinheiro eletricista descansava quando um companheiro o chamou para assumir seu turno de serviço na praça de máquinas. Entretanto, Girgazes acabou adormecendo novamente e despertou apenas quando sentiu a forte explosão que atingiu a embarcação.

Inicialmente, imaginou que uma das caldeiras do navio havia explodido. Ao perceber a gravidade da situação, procurou uma maneira de abandonar a embarcação, mas acabou lançado ao mar enquanto o Vital de Oliveira desaparecia rapidamente.

Em seus depoimentos, Girgazes relatou que o fato de não ter seguido imediatamente para a praça de máquinas acabou sendo decisivo para sua sobrevivência. Segundo ele, os militares que estavam naquele compartimento foram atingidos diretamente pelas consequências da explosão.

Sozinho no mar, marinheiro pediu a Deus para não morrer antes de rever a mãe

Depois de escapar do navio, Girgazes se encontrou em meio à escuridão do Atlântico, cercado por destroços e pelos gritos de outros sobreviventes. Sem conseguir enxergar uma embarcação de resgate, procurou se afastar do casco para evitar ser arrastado enquanto afundava.

Foi naquele momento que, segundo o testemunho recuperado pela Marinha, ele fez uma súplica desesperada: “Senhor! Não me deixa morrer sem ver minha mãe!”

A voz foi ouvida por outro marinheiro, identificado como Eleuzo, natural de Sergipe, que estava em uma balsa com sobreviventes. Ao reconhecer o companheiro, começou a chamá-lo para que conseguisse localizar a embarcação na escuridão.

O encontro permitiu que Girgazes escapasse da morte. Posteriormente, sobreviventes foram socorridos por embarcações militares e civis, incluindo o pesqueiro Guanabara, o caça-submarinos Javari e o contratorpedeiro Mariz e Barros.

Ataque deixou 100 mortos e marcou a participação brasileira na guerra

O afundamento do Vital de Oliveira ocorreu quase dois anos depois da entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, motivada pelos ataques de submarinos alemães contra embarcações brasileiras em 1942.

Embora a participação da Força Expedicionária Brasileira na Itália seja mais conhecida, a Marinha também desempenhou um papel fundamental na proteção das rotas comerciais do Atlântico Sul, realizando escoltas de comboios e operações contra submarinos inimigos.

Durante o conflito, o Brasil perdeu embarcações militares e dezenas de navios mercantes. No caso do Vital de Oliveira, as aproximadamente 100 mortes representaram uma das maiores perdas humanas da história da Marinha durante a guerra.

Mais de 80 anos depois, Marinha voltou ao local do naufrágio

Em janeiro de 2025, pesquisadores e militares realizaram uma investigação dos destroços do Vital de Oliveira, localizados a aproximadamente 65 quilômetros da costa de Macaé, no Rio de Janeiro, a cerca de 50 metros de profundidade.

O trabalho utilizou equipamentos modernos de mapeamento submarino, incluindo sistemas de sonar. Curiosamente, parte da investigação foi conduzida com o apoio de outro navio da Marinha que também recebeu o nome Vital de Oliveira, incorporado à Força em 2015.

A operação contribuiu para documentar a estrutura da embarcação afundada e preservar informações sobre um episódio que permaneceu durante décadas na memória dos sobreviventes e de seus familiares.

Veterano deixou seu testemunho registrado em documentário da Marinha

Veterano Girgazes Agostinho de Brito recebe homenagem da Marinha durante solenidade em Aracaju, Sergipe, em 2026, após mais de oito décadas do naufrágio que marcou sua vida. Foto: Marinha do Brasil/Divulgação.
Veterano Girgazes Agostinho de Brito recebe homenagem da Marinha durante solenidade em Aracaju, Sergipe, em 2026, após mais de oito décadas do naufrágio que marcou sua vida. Foto: Marinha do Brasil/Divulgação.

Em março de 2025, aos 99 anos, Girgazes participou de uma entrevista para o projeto de história oral da Marinha, contando detalhes de sua trajetória militar e do ataque que quase lhe tirou a vida.

Seu relato também integrou o documentário Vital: Memórias que não naufragaram, produzido pelo Centro de Comunicação Estratégica da Marinha. A obra foi apresentada em 2026 e reúne depoimentos, registros históricos e imagens das investigações submarinas.

Em junho, o veterano recebeu uma homenagem durante a exibição do documentário em Aracaju, na presença de militares, autoridades e familiares. O trabalho permitiu registrar suas lembranças para as futuras gerações.

Aos 101 anos, Girgazes deixa uma história de sobrevivência e memória militar

Na homenagem publicada após sua morte, a Marinha recordou o encontro com Girgazes durante as gravações do documentário e destacou a simplicidade com que o veterano descrevia suas experiências na Segunda Guerra Mundial.

O marinheiro que escapou de um submarino alemão em 1944 viveu o suficiente para assistir à identificação dos restos da embarcação e participar pessoalmente das homenagens aos homens que morreram naquela noite.

Com sua morte, desaparece a última testemunha sobrevivente conhecida do afundamento do Vital de Oliveira. Permanecem, entretanto, seus depoimentos, as imagens preservadas pela Marinha e a história dos brasileiros que perderam a vida no Atlântico durante a Segunda Guerra Mundial.

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