Roberto Mareco, do Regimento de Infantaria 4, caiu prisioneiro no Monte Harriet em 1982; a viagem de novembro é paga com um bônus que sorteia uma moto.
Roberto Mareco caiu prisioneiro de madrugada num morro nos arredores de Port Stanley, em junho de 1982, e saiu das Malvinas a bordo do navio britânico Canberra. Agora, 44 anos depois, ele e outros sete veteranos das Malvinas de Eldorado, na província argentina de Misiones, vão voltar às ilhas entre 20 e 29 de novembro, segundo o jornal Primera Edición, de Posadas.
Na guerra, os oito tinham em geral 18 ou 19 anos, e alguns só souberam para onde iam horas antes do embarque. A viagem é paga com um bônus colaborativo que sorteia uma moto, e Mareco resume o que espera dela: “vamos fechar alguma ferida”.
Os oito nomes da viagem de novembro
Vão viajar Darío Gogolín, Benito Benítez, José Donato Portillo, Asunción Duarte, Miguel Talavera, Roberto Mareco, Luis Kovalski e Miguel Cabral, de acordo com o Primera Edición. O prefeito de Eldorado, Rodrigo “Pipo” Durán, acompanha o grupo.
A ideia partiu do ex-prefeito Norberto Aguirre, que propôs ajudar os ex-combatentes a fazer a viagem. Durán pediu a Mareco que consultasse os sócios da associação de veteranos da cidade, e a resposta, segundo o jornal, foi um sim quase geral. Mareco preside a entidade, como contou ao site Misiones Online em abril de 2025.
Um bônus de 10 mil pesos e uma moto zero
Para pagar as passagens, os veteranos lançaram a campanha “Para cerrar heridas”, algo como “para fechar feridas”. Cada bônus custa 10.000 pesos argentinos e concorre a uma moto 150 cilindradas zero-quilômetro, segundo o Primera Edición, que não informa a data do sorteio.
Pela taxa de referência do Banco Central da República Argentina, a Comunicação A 3500 de 9 de outubro de 2026, de 1.515,88 pesos por dólar, o bônus sai por cerca de US$ 6,60. Convertido pela PTAX de venda do Banco Central do Brasil no mesmo dia, de R$ 4,9892, dá aproximadamente R$ 32,90.
Sete dias entre antigas posições e o cemitério de Darwin
O roteiro prevê sete dias de visitas a lugares ligados à história de cada um, entre eles as antigas posições de combate e o cemitério militar argentino de Darwin, descrito pelo jornal como um dos momentos mais importantes da viagem. Veteranos que já voltaram disseram a Mareco que algumas posições continuam quase intactas e que ainda se encontra material da guerra no terreno.
Por décadas, parte das sepulturas de Darwin guardou soldados sem nome. Em março de 2018, familiares viajaram às ilhas e encontraram placas que já identificavam 90 desses combatentes com nome e sobrenome, segundo a Chancelaria argentina.
Do Regimento de Infantaria 4, em Monte Caseros, ao Monte Kent
O Primera Edición situa a captura de Mareco num “Monte Javier”. Ao Misiones Online, porém, o próprio veterano contou ter servido no Regimento de Infantaria 4, de Monte Caseros, na província de Corrientes, e ter caído prisioneiro no Monte Harriet.
Mareco tinha dado baixa do serviço militar em novembro de 1981. Em 15 de abril de 1982, foi chamado pela Gendarmaria Nacional em Eldorado, ouviu do comandante do Esquadrão 10 que “o país te necessita” e seguiu de trem para Monte Caseros, onde o regimento já se preparava para descer ao sul, relatou ao site.
A unidade fez escala em Comodoro Rivadavia e Río Gallegos e desembarcou nas ilhas na madrugada de 25 de abril. “Nunca imaginei que gente do litoral, com outro clima, iria às Malvinas”, disse Mareco ao Misiones Online.
Fome, frio e noites dentro do buraco de raposa
O primeiro destino foi o Monte Kent, e depois a unidade passou ao Monte Harriet. Mareco contou ao Misiones Online que a cozinha de campanha foi destruída e que, nos dias de bombardeio, o caminhão com comida do porto não chegava, e o grupo passava dias sem comer.
As noites eram passadas no buraco de raposa, como os argentinos chamam a trincheira individual, com água e frio. Segundo ele, vários companheiros tiveram pé de trincheira, e alguns casos foram tão graves que exigiram amputação. Ao Primera Edición, lembrou que, além do buraco, chegou a levantar um abrigo de pedra.
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O ataque do 42 Commando ao Monte Harriet
Um documento da Academia de Infantaria do Exército espanhol, em Toledo, reconstitui o combate. Segundo o texto, o Regimento de Infantaria 4 defendia o Monte Harriet e o Dos Hermanas, com as companhias B e C no Harriet, e as posições argentinas recebiam fogo de artilharia britânica desde 31 de maio.
O comandante da 3ª Brigada britânica, o brigadeiro Thompson, planejou três ataques noturnos simultâneos contra a primeira linha de defesa de Port Stanley, na reta final da Guerra das Malvinas. Ao sul, o 42 Commando dos Royal Marines, sob o comando de Vaux, ficou com o Harriet e escolheu atacar o batalhão argentino pela retaguarda.
A companhia K cruzou a linha de partida às 22h, segundo a Academia de Infantaria. A companhia L levou cerca de cinco horas para avançar 600 metros, limpando ninhos de metralhadora um a um, e ao amanhecer todos os objetivos estavam consolidados. O 42 Commando fez mais de 300 prisioneiros no Harriet, entre eles o comandante do Regimento de Infantaria 4.
Cercados às 3 da manhã
Mareco era um desses prisioneiros. Ele conta que os soldados do seu grupo se viram cercados e se renderam às 3 da manhã. “A gente não sabe se vai ser fuzilado, se vai ser bem tratado, se vai sobreviver ou não”, disse ao Misiones Online.
A data que o veterano guarda é 11 de junho. No documento espanhol, é o dia em que os comandantes britânicos distribuíram as ordens, com o assalto lançado na noite de 11 e as posições tomadas ao amanhecer seguinte.
O que mais pesou, segundo ele, foi outra coisa. “Nós não fomos tomados prisioneiros, nós nos rendemos. Essa sensação de não ter cumprido foi o que mais me doeu”, afirmou.
Fitz Roy, San Carlos e o navio Canberra
Do Harriet, os prisioneiros passaram por outros pontos. Mareco citou Fitz Roy como um lugar onde as condições pioraram e o número de detidos cresceu muito, e depois foi levado a San Carlos, onde embarcou no Canberra, segundo o Primera Edición.
O transatlântico requisitado pelos britânicos reuniu mais de 4.000 prisioneiros argentinos, de soldados a oficiais, conforme o relato do veterano ao Misiones Online. Para ele, a solidariedade entre compatriotas era o único jeito de aguentar o isolamento e a incerteza.
A segunda guerra, a da volta para casa
“Nós tivemos duas guerras”, disse Mareco ao Misiones Online. “Uma foi a das Malvinas, e a outra foi a que tivemos depois, ao voltar à vida cotidiana.” Em Eldorado, o grupo se reúne quase uma vez por mês e conta a história da guerra em escolas e instituições.
Como outros veteranos das Malvinas, Mareco diz que falar do assunto é carregar uma mochila pesada o ano inteiro. Ele também cobra o Estado: “ainda nos devem muitas coisas, especialmente no que diz respeito à saúde”.
De volta ao Harriet, 44 anos depois
Ao Primera Edición, Mareco chamou a ida de “a viagem da minha vida” e disse que voltar deixou de ser sonho para virar necessidade. Ele quer pisar de novo no ponto onde terminou a sua participação na guerra e começou o cativeiro.
Entre as lembranças que leva, está a de um soldado de sobrenome Gómez, da classe de 1962, morto nas ilhas. O irmão dele era suboficial da companhia de comando. “Ainda não sabemos como vamos reagir quando pisarmos nas Malvinas”, diz a frase dos veteranos que acompanha a reportagem do jornal de Posadas.