O Chile se prepara para dar um salto tecnológico em sua aviação militar e pode ultrapassar o Brasil na corrida pelos caças mais avançados da América do Sul. A possibilidade de incorporar aeronaves de quinta geração, como o F-35 americano, coloca em perspectiva o programa Gripen da Força Aérea Brasileira, que ainda recebe os 36 aviões contratados com a sueca Saab.
A intenção foi reforçada em 30 de outubro pelo general Hugo Rodríguez González, durante a cerimônia de transmissão do comando da Força Aérea do Chile (FACh), realizada na Base Aérea El Bosque, em Santiago.
Segundo informações divulgadas pelo portal Infodefensa, o comandante que deixava o cargo afirmou que a preparação para incorporar uma aeronave de quinta geração exigirá investimentos em infraestrutura, formação de pessoal, treinamento e integração digital.
A declaração, feita diante do presidente José Antonio Kast e de autoridades militares, ocorre em um momento decisivo para a aviação chilena.
Em setembro, o governo já havia iniciado formalmente os estudos para substituir os veteranos caças F-5, utilizados pela instituição há aproximadamente 50 anos.
Agora, a possibilidade de avançar diretamente para uma aeronave furtiva coloca o Chile em posição de disputar uma liderança tecnológica que o Brasil conquistou recentemente com a chegada dos Gripen E.
Chile considera F-35 americano e prepara substituição de caças que operam há 50 anos
A busca por um novo caça ganhou força em setembro, quando o general Milton Zablah, diretor de Planejamento e Doutrina da FACh, reconheceu que o F-35 Lightning II estava entre as alternativas consideradas para o futuro da aviação de combate chilena.
Fabricado pela americana Lockheed Martin, o modelo representa uma mudança significativa em relação aos F-16 e F-5 atualmente utilizados pelo país.
O interesse também encontrou abertura nos Estados Unidos.
Em setembro, o embaixador americano Brandon Judd afirmou que Washington mantinha conversas sobre diferentes possibilidades de cooperação militar com Santiago e não descartou o fornecimento do F-35.
A posição americana ganhou relevância diante dos planos chilenos de substituir os F-5 entre 2030 e 2035.
Essas aeronaves integram o Grupo de Aviação nº 12, sediado na região de Magalhães, no extremo sul do país, e permanecem responsáveis por missões de defesa aérea naquela área.
A escolha do substituto ainda está em estudo. O governo chileno avalia alternativas de quarta e quinta geração, sem contrato firmado ou quantidade definida de aeronaves.
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Durante a cerimônia de outubro, Rodríguez destacou que a incorporação de uma nova geração de caças será um processo de longo prazo, dependente de continuidade nos investimentos e na preparação da Força Aérea.
F-35 pode colocar Chile à frente do Gripen brasileiro em tecnologia furtiva
A possível escolha do F-35 teria consequências importantes para o cenário militar sul-americano.
Atualmente, o Gripen E da FAB está entre os caças tecnologicamente mais avançados em operação na região, equipado com radar AESA, sensores modernos, sistemas de guerra eletrônica e capacidade de utilizar o míssil Meteor.
O caça sueco, entretanto, pertence à chamada geração 4,5, enquanto o F-35 foi desenvolvido com características específicas da quinta geração.
A diferença mais expressiva está na furtividade.
O avião americano utiliza uma fuselagem projetada para reduzir sua assinatura nos radares, materiais que dificultam a detecção e compartimentos internos para transportar armamentos.
Essas características ampliam suas possibilidades de atuação em espaços aéreos protegidos por sistemas modernos de defesa antiaérea.
O F-35 também reúne informações de radares e sensores em uma única interface, permitindo ao piloto acompanhar diferentes ameaças e compartilhar dados com outras aeronaves e unidades militares.
Já o Gripen brasileiro aposta em uma combinação de sensores, armamentos de longo alcance, guerra eletrônica e operações integradas em rede.
Com a eventual chegada dos F-35, o Chile passaria a dispor de uma capacidade furtiva que atualmente não existe na aviação de caça brasileira.
Seria uma mudança importante na distribuição das tecnologias militares mais avançadas da América do Sul, sobretudo porque o Brasil ainda está expandindo sua frota de Gripen.
Brasil recebeu dez Gripen e iniciou fabricação nacional de caças supersônicos
O programa brasileiro começou em 2014, quando o governo assinou o contrato para aquisição de 36 aeronaves da Saab.
A encomenda contempla 28 Gripen E monopostos e oito Gripen F bipostos, além de transferência de tecnologia e participação de empresas nacionais no desenvolvimento e na produção.
Em outubro de 2026, segundo a fabricante sueca, dez caças já haviam sido entregues e estavam em operação no Primeiro Grupo de Defesa Aérea, sediado na Base Aérea de Anápolis, em Goiás.
No dia 6 daquele mês, o primeiro Gripen E fabricado no Brasil realizou seu voo inaugural nas instalações da Embraer, em Gavião Peixoto, no interior paulista.
A aeronave começou uma campanha de testes antes de sua entrega à FAB.
O planejamento prevê que 15 unidades do contrato atual sejam produzidas em território brasileiro, consolidando a primeira linha de fabricação de caças supersônicos da América do Sul.
Essa estrutura representa uma diferença importante entre os caminhos adotados pelos dois países.
Enquanto o Chile estuda a aquisição de uma aeronave de geração superior, o Brasil desenvolve capacidade industrial para fabricar, integrar e testar seus próprios caças em parceria com a Saab.
A modernização brasileira também continua avançando.
Em 28 de outubro, a FAB divulgou novos testes com os sistemas RECCELITE e Litening, destinados a ampliar as capacidades de reconhecimento aéreo e ataques de precisão do F-39 Gripen.
As avaliações ocorreram em Anápolis, com participação de militares brasileiros e representantes das empresas envolvidas no programa.
Chile pode se tornar primeiro país latino-americano com caças de quinta geração
A eventual aquisição do F-35 colocaria o Chile em uma posição inédita na aviação militar da América Latina.
O país já possui uma frota de combate baseada principalmente em caças F-16, incluindo aeronaves modernizadas e versões Block 50, além dos F-5 que serão substituídos.
A incorporação de um modelo furtivo acrescentaria uma capacidade diferente das atualmente disponíveis nas forças aéreas da região.
Para o Brasil, isso significaria perder a dianteira em uma área específica da tecnologia de combate aéreo, justamente quando o Gripen começa a alcançar maior maturidade operacional.
A diferença também envolveria as prioridades de cada programa: de um lado, a possível aquisição chilena de aeronaves de quinta geração; do outro, o investimento brasileiro em fabricação nacional, transferência de tecnologia e integração de armamentos.
O próximo passo da FACh será avançar nos estudos técnicos e financeiros para definir qual aeronave substituirá os F-5.
Segundo o cronograma informado pela própria Força Aérea chilena, os antigos caças deverão deixar o serviço entre 2030 e 2035, período que orienta o planejamento da futura frota de combate.