Os Estados Unidos chegaram a estudar uma operação que poderia colocar soldados americanos combatendo em praias brasileiras durante a Segunda Guerra Mundial. Documentos e pesquisas históricas mostram que um dos cenários previa ocupar o Nordeste com uma força de até 100 mil homens, mesmo sem a autorização de Getúlio Vargas.
Washington queria controlar aeroportos estratégicos para proteger o Atlântico Sul e transportar aviões até a África. O governo brasileiro, porém, resistia à entrada de grandes unidades estrangeiras. Enquanto as negociações emperravam, militares americanos desenhavam planos para desembarcar no país.
Militares dos EUA chegaram a calcular 2.902 baixas num desembarque em Natal
Em 21 de dezembro de 1941, o comando militar americano aprovou o plano básico de ocupação do Nordeste. A parte anfíbia recebeu o nome de Rubber Plan e envolvia navios de guerra, fuzileiros navais e forças terrestres para tomar posições na costa brasileira.
Segundo pesquisa do historiador Michael Gannon, publicada pelo U.S. Naval Institute, os planejadores estimaram 2.902 baixas entre os próprios americanos caso a operação fosse executada. Praia do Meio, Areia Preta e Praia de Banhos, em Natal, foram analisadas como possíveis pontos de desembarque.
Os estudos incluíam obstáculos naturais, acesso às estradas, posições defensivas e quantidade de brasileiros que poderiam reagir. Nenhum daqueles ataques chegou a acontecer.
Natal era prioridade, mas Recife, Belém e Fernando de Noronha também estavam nos planos
O principal alvo era Natal por causa do Campo de Parnamirim. A base permitia enviar aviões e suprimentos através do Atlântico rumo à África, uma rota decisiva quando outras ligações estavam ameaçadas pela guerra.
O planejamento também examinava Fortaleza, Recife, Salvador, Belém e Fernando de Noronha. Em Natal, os americanos calculavam enfrentar 3.531 militares e policiais brasileiros e estimavam que reforços vindos do Sul poderiam levar de oito a 12 dias para chegar.
Mesmo assim, uma invasão enfrentaria dificuldades. Recifes e praias estreitas ameaçavam as embarcações de desembarque, enquanto treinamentos americanos revelavam problemas para colocar tropas nos pontos previstos.
Uma hipótese previa 100 mil soldados; outro plano detalhava mais de 64 mil
Na pesquisa Combatendo nazistas e mosquitos, o historiador André Luiz Vieira de Campos registra que uma das propostas americanas previa ocupar o Nordeste com 100 mil homens, com ou sem o consentimento de Vargas.
Já a história oficial do Exército dos EUA descreve um planejamento de 1941 com mais de 64 mil militares, incluindo duas divisões, concentrados principalmente em Natal, Recife e Belém. Uma versão posterior previa começar com aproximadamente 15 mil homens e receber reforços depois.
Eram projetos e cenários diferentes, com forças previstas para fases distintas, e não um único contingente pronto para desembarcar.
Washington temia um ataque nazista, mas desconfiava dos próprios militares brasileiros
Os americanos receavam que forças alemãs alcançassem o Nordeste a partir da África Ocidental. A perda dos aeroportos brasileiros poderia comprometer a ligação aérea sobre o Atlântico e ameaçar a defesa do Caribe e do Canal do Panamá.
Washington também desconfiava da simpatia de parte do alto comando brasileiro pelo Eixo. Para oficiais do Brasil, por outro lado, entregar a segurança das bases a divisões estrangeiras ameaçava a soberania nacional, mesmo diante de um inimigo comum.
Receba nossas notícias independentemente dos algorítimos das redes sociais, entre no nosso grupo agora
Vargas resistiu à chegada de divisões americanas e exigiu armas para o Brasil
Os chefes militares brasileiros queriam tanques, aviões, canhões e munição para defender o próprio território. Os Estados Unidos relutavam em liberar equipamentos, mas também encontravam resistência para instalar grandes contingentes de combate no Nordeste.

Em dezembro de 1941, o Brasil autorizou a chegada de 150 fuzileiros navais americanos a Natal, Recife e Belém, apresentados como técnicos de manutenção de aeronaves. Conforme Gannon, armas viajaram encaixotadas, e os militares tinham instruções para proteger as instalações.
Acordo de 1942 afastou a invasão e transformou a disputa em cooperação militar
Em março de 1942, um novo acordo elevou a US$ 200 milhões o valor previsto para o fornecimento de material militar americano ao Brasil. Em 28 de maio, os governos assinaram um entendimento de defesa que preservava a responsabilidade brasileira pelas operações terrestres, com apoio técnico e equipamentos dos EUA.
Em agosto daquele ano, o Brasil entrou na guerra contra Alemanha e Itália. As bases brasileiras passaram a apoiar intensamente as operações aliadas, e a ocupação planejada por militares americanos ficou nos arquivos.
O episódio deixou uma contradição histórica: antes de combaterem o mesmo inimigo, Brasil e Estados Unidos precisaram negociar para evitar que a defesa do Atlântico significasse perda de controle brasileiro sobre parte do território. Vargas acertou ao resistir à presença de grandes tropas estrangeiras? Deixe sua opinião nos comentários.