O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) divulgou neste domingo (1º/11), no X, uma publicação intitulada “Nota ao Brasil”, na qual justificou sua saída do país, contestou as medidas cautelares determinadas contra ele e criticou a TV Globo pela reportagem sobre sua atuação prevista para o Fantástico. O texto foi postado por volta das 19:06 horas, estrategicamente antes da exibição do programa dominical da emissora.
Derrotado no segundo turno da eleição presidencial de 2026, Flávio está fora do Brasil há quase uma semana. Ele deixou o país rumo aos Estados Unidos dois dias depois de perder para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e chegou ao território norte-americano na quarta-feira (28).
Flávio Bolsonaro diz que a Globo recusou entrevista sem cortes
A nota começa pela Rede Globo. Segundo o senador, ele foi procurado por vários veículos ao longo da semana, entre eles a emissora carioca, que o convidou para uma entrevista exclusiva. Flávio afirma ter aceitado com uma condição: exibição integral, sem cortes e sem temas vetados.
De acordo com o relato do próprio parlamentar, ex-candidato a presidente, a Globo não seguiu adiante. Ele afirma que o Fantástico exibiria uma longa reportagem a seu respeito sem lhe garantir direito de resposta. Na sequência, escreveu que, se o maior grupo de comunicação do país está com medo, não teria condição moral de julgá-lo nem de tentar destruir sua reputação.
O senador encerra o texto prometendo falar nos próximos dias com grandes veículos nacionais e internacionais, também sem cortes e sem filtro. Na nota, ele não informou por quanto tempo pretende ficar fora do Brasil.
“Não saí do Brasil, saí pelo Brasil”: a versão de Flávio sobre a viagem aos Estados Unidos
A frase de efeito da publicação resume a linha de defesa adotada pelo senador. Flávio sustenta que, no domingo da eleição, apenas sete minutos após o anúncio do resultado, já existia uma decisão judicial com medidas cautelares contra ele, segundo ele fundamentada em mentiras.
O parlamentar relata ter sido intimado doze horas depois, na rua, quando deixava a casa do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. A medida notificada pela Polícia Federal decorria de ordem do ministro Alexandre de Moraes, do STF, para que ele entregasse seus passaportes.
Em outro trecho, Flávio afirma estar num país onde pode manifestar livremente sua opinião e diz que não será alvo de um juiz que, nas palavras dele, mandou a polícia à sua casa para revirar as gavetas das filhas. Ele conclui que o cenário não configura democracia nem um processo judicial justo e imparcial.
O que diz a Polícia Federal sobre as medidas cautelares no STF
A versão oficial é diferente. Em nota, a PF informou que em 25 de outubro representou ao STF pela adoção de medidas cautelares, incluindo apreensão de passaportes, proibição de saída do país e restrição de contato com outros investigados, após identificar risco de saída do senador, investigado na PET nº 16877/DF.
Apesar disso, o senador não tem status de foragido. Segundo a Polícia Federal, não há mandado de prisão expedido contra ele, e a corporação ressaltou que restrições ligadas a documentos de viagem, por si só, não caracterizam a condição de foragido nem autorizam prisão.
Jair Bolsonaro, Eduardo e a citação de Cristiano Zanin na nota de Flávio
A publicação dá peso à situação familiar. Flávio descreve o olhar lacrimejado do pai, a quem atribui comorbidades e uma condenação a mais de 27 anos de prisão, que ele afirma ser injusta. Menciona também o irmão Eduardo Bolsonaro, que, segundo o texto, não vê o pai há mais de um ano e meio por causa do que chama de perseguição ilegal e arbitrária.
Dias antes, numa transmissão no Instagram, o senador já havia narrado a cena. Ele disse ter decidido deixar o país após conversar com o pai, que cumpre prisão domiciliar, e com a esposa, Fernanda Bolsonaro, e afirmou que manteve o plano em sigilo até de aliados da campanha.
O fecho da nota traz uma escolha calculada. Flávio diz não se arrepender de nada e cita uma frase de Cristiano Zanin, de 7 de agosto de 2016, segundo a qual não haveria remédio eficaz no Brasil para cessar violações a direitos humanos. Zanin, hoje ministro do STF, era na época advogado de Lula.
Receba nossas notícias independentemente dos algorítimos das redes sociais, entre no nosso grupo agora
Próximos passos no caso de Flávio Bolsonaro
O desfecho depende agora de dois movimentos. No campo político, o senador promete uma rodada de entrevistas a veículos estrangeiros e brasileiros a partir dos Estados Unidos. No campo judicial, a investigação segue no Supremo, onde cabe ao ministro Alexandre de Moraes decidir sobre eventuais novas medidas diante da saída do país sem registro migratório.
Militantes de direita aguardam o desenrolar dos fatos, alguns manifestam nas redes sociais a esperança de manifestações do governo dos Estadoso Unidos. Flávio mantém o mandato de senador pelo Rio de Janeiro, e sua ausência do Congresso tende a ganhar peso nas próximas semanas.