A década de 1990 marcou uma época de acentuado declínio de Cuba, depois do desmoronamento do bloco socialista. A União Soviética caminhava para a dissolução após a queda do Muro de Berlim, e o governo de Fidel Castro tentava preservar o regime socialista cubano e evitar o isolamento internacional.
Mas sem seu principal aliado econômico, os embargos impostos pelos Estados Unidos pressionavam o custo de vida na ilha e indicavam o início de racionamentos, falta de combustível, apagões e escassez de alimentos.
A insatisfação atingia a população cubana e parte das forças armadas do regime. E foi neste cenário que o piloto da Força Aérea Cubana, Orestes Lorenzo Perez, protagonizou uma das fugas mais impressionantes da ilha.
O plano era arriscado não só pelas cosequências legais que ele poderia enfrentar, que previam prisão de até cinco anos e punições por deserção: ele envolvia voar uma aeronave militar cubana em território norte-americano e o risco de causar um incidente de guerra.
O caça MiG-23 era uma das aeronaves soviéticas mais modernas da época. Contava com um radar avançado e um sistema de controle de tiro capazes de disparar mísseis contra alvos além do alcance visual. Sua geometria de asas de enflechamento variável e seu robusto trem de pouso permitiam operar em pistas curtas e afastadas de grandes centros.
O MiG-23 foi amplamente exportado pela União Soviética, e entre seus operadores estava a Força Aérea Cubana, que utilizou aeronaves das versões MiG-23ML, MF, BN e UB até o final da década de 2010.
Orestes Lorenzo Perez era uma experiente piloto designano para a Base Aérea de Santa Clara, localizada a aproximadamente 265 quilômetros a leste de Havana. Em seu currículo, tinha frequentado uma escola de aviação da União Soviética, onde aprendeu a pilotar jatos de treinamento, antes de chegar ao MiG-21, antecessor do MiG-23.
O plano ousado de fuga
No dia 20 de março de 1991, Perez despediu-se de sua família, a quem já tinha confessado o seu plano de fugir do país, prometendo voltar para buscar a esposa e os dois filhos.
O seu plano era aproveitar-se de uma missão de treinamento aéreo para desviar o seu MiG-23 da rota, atravessar cerca de 150 quilômetros de mar até a Flórida e pousar na Estação Aérea Naval dos EUA em Key West, onde pediria asilo político.
Para o plano funcionar, Perez precisaria escapar dos radares cubanos e, principalmente, dos sistemas de defesa aérea dos Estados Unidos. Para isso, o piloto mergulhou o caça MiG e voou a cerca de quatro metros da superfície da água, acelerando à máxima velocidade possível.
O MiG-23 tinha capacidade supersônica, e o piloto pode ter ultrapassado Mach 2 (acima dos 2,4 mil km/h) durante sua corrida de 150 quilômetros rente ao oceano.
Em Key West, os militares norte-americanos observaram incrédulos a presença de um único caça soviético, ostentando a bandeira cubana no estabilizador vertical, se aproximar e sinalizar intenção pacífica balançando as asas sobre a base. Relatos indicam que Perez fez três sobrevoos para indicar suas intenções, antes de pousar e aguardar o seu destino.

Bem-vindo aos Estados Unidos
Sem saber falar inglês, o piloto explicou em espanhol aos soldados que se aproximaram para abordar o MiG-23 que estava fugindo de Cuba em busca de liberdade. A informação foi transmitida ao comandante da base, que estendeu a mão em sinal de amizade e exclamou: “bem-vindo aos Estados Unidos!”.
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O momento foi registrado em uma foto onde Perez aparece em um aperto de mãos com o comandante americano diante do caça MiG-23 que se tornaria uma peça histórica daqueles tempos e de uma fuga audaciosa.
Da Flórida, ele foi levado a Washington, D.C., para uma reunião de orientação e para tratar da documentação de pedido de asilo.
O plano inicial de Perez havia funcionado, mas agora, restava ao piloto desertor uma outra jornada talvez mais complexa do que a primeira: encarar as consequências da fuga e descobrir como poderia cumprir a promessa de retornar à ilha para buscar seus familiares.
Um movimento ainda mais arriscado
Assim que obteve legalmente o asilo político do governo norte-americano, Perez passou a se mobilizar para retirar sua família de Cuba. O governo contribuiu, concedendo vistos para a esposa e os dois filhos. Para o presidente George H. W. Bush, o movimento reforçava a imagem dos EUA como acolhedores dos perseguidos por um regime que considerava um inimigo perigoso no quintal de seus próprios domínios.
Mas o regime de Fidel Castro, ciente da situação, não estava disposto a ceder facilmente a um desertor que já era considerado um criminoso pela lei cubana. Por quase dois anos, Perez relata que sua família viveu sob vigilância constante do governo, com o objetivo de impedir qualquer movimento de fuga.
O próprio presidente Bush fez um apelo a Fidel Castro para que liberasse a família para se juntar ao aviador nos EUA, mas diante da negativa, Perez passou a considerar um plano audacioso para resgatar ele mesmo a esposa e os filhos.
A única maneira de resgatá-los rapidamente seria pousando novamente na ilha e planejando uma fuga estratégica. Por meio de uma fundação de direitos humanos fundada por um ex-prisioneiro político cubano, o piloto conseguiu o financiamento para comprar um Cessna 310, um bimotor para transportar até quatro pessoas.
Embora piloto de caça, o aviador não tinha experiência em uma aeronave daquele tipo. Mas ainda assim, prosseguiu com seu plano em uma ousada tentativa que poderia resultar em sucesso ou na prisão dele e da própria família.
O voo de resgate
O plano elaborado por Perez consistiu em estabelecer contato secretamente com a esposa, por meio de um bilhete, para que ela o encontrasse, juntamente aos filhos, em uma localidade a cerca de 265 quilômetros de Havana. Na data combinada, 19 de dezembro de 1992, ele decolou com o Cessna, sem saber se a esposa havia conseguido chegar ao local combinado. Talvez, seria a primeira e última tentativa.
Voando a menos de 100 pés (cerca de 30 metros) acima do oceano sob condições visuais, Perez sobrevoou penhascos na costa cubana e avistou sua esposa e filhos, que vestiam camisetas laranja-brilhante, exatamente como ele havia pedido.
O piloto usou seu conhecimento militar para desviar de localidades em que Cuba mantinha baterias de mísseis ar-ar, e conseguiu realizar o pouso em uma rodovia de Varadero, o local combinado para o encontro. Assim que todos embarcaram, ele decolou novamente e em cerca de duas horas, todos estavam de volta à Flórida.
O piloto foi recebido como herói, e juntamente com a esposa e filhos, estabeleceu-se nos EUA, em Tampa, onde passaram a administrar uma empresa de concreto.
Anos depois, um novo jato militar
Mais de 30 anos depois da jornada de fuga em um MiG-23 e de resgate da família em Cuba, Orestes Lorenzo Perez iniciou uma nova aventura pelos céus, cruzando as Américas a bordo de um jato L-39 C Albatros. Em agosto de 2026, acompanhado do piloto argentino Carlos Juncosa, realizou uma travessia de aproximadamente 8.300 a 8.800 quilômetros entre os Estados Unidos e a Argentina.
O objetivo era realizar o “ferry” (transferência aérea) de um Aero L-39C Albatros, um jato de treinamento militar avançado projetado e fabricado na antiga Checoslováquia pela empresa Aero Vodochody. O jato foi desenvolvido para formar pilotos militares na União Soviética, na própria Checoslováquia e em países aliados do Pacto de Varsóvia.

O exemplar pilotado por Perez foi concluído em 1991, e permaneceu armazenado após o colapso da União Soviética, antes de chegar ao mercado civil norte-americano, onde passou posteriormente por modernizações em sua aviônica.
A viagem começou na Flórida e terminou em Salta, no norte da Argentina, atravessando o Caribe e diversos países da América do Sul. Segundo relatos da mídia, a travessia foi desafiadora, envolvendo diversas condições climáticas a bordo de um avião que não foi feito para longas distâncias.
A simbologia do trajeto, entretanto, não passou despercebida: mais de três décadas depois, o desertor cubano cruzou os céus a bordo de um jato de origem soviética, rememorando uma história ousada que mudou o destino de toda uma família.