O casco saiu de Newport News na segunda (02/11); o primeiro contrato caiu na Justiça e o novo saiu mais de US$ 100 milhões mais barato.
A Marinha dos Estados Unidos começou a levar para o desmonte o casco do antigo USS Enterprise, o primeiro porta-aviões de propulsão nuclear do mundo, num serviço de US$ 418,5 milhões (cerca de R$ 2,27 bilhões, pela cotação de 30/10) que vai até setembro de 2030. O casco deixou o cais da Newport News Shipbuilding, na Virgínia, na manhã de segunda-feira (02/11), rebocado rumo a Mobile, no Alabama, informa a Marinha em comunicado.
A partida acontece quase 15 anos depois da última missão do navio, segundo o USNI News, e depois de uma briga judicial que derrubou o primeiro contrato. O novo acordo saiu US$ 118 milhões mais barato que o de 2025, e a data de chegada a Mobile não foi divulgada.
Quem leva o casco e para onde
O reboque e o desmonte estão a cargo da NorthStar Maritime Dismantlement Services, empresa de Vernon, no estado de Vermont. Ela é uma sociedade entre a NorthStar Group Services e a Modern American Recycling and Radiological Services, a MARS, que tem estaleiro em Mobile, registra a Maritime Executive.
A Marinha não informou a rota, o nome dos rebocadores nem quantos dias dura a travessia. Mobile fica no Golfo do México, e por mar a viagem a partir da Virgínia precisa contornar a península da Flórida.
A Maritime Executive diz que o Enterprise deve chegar mais ou menos quando o casco do antigo transatlântico SS United States deixar o pátio da MARS. A saída do transatlântico está prevista para 9 de novembro, segundo a publicação.
A conta do novo contrato
O contrato assinado pelo Comando de Sistemas Navais (NAVSEA) em 15 de julho deste ano vale exatamente US$ 418.497.668, com preço fixo. A diferença para o acordo de 2025 é de US$ 118,3 milhões, ou 22% a menos, o equivalente a cerca de R$ 641 milhões pela cotação de 30/10.
O valor cobre só a etapa final. A conta completa do desmonte inclui a retirada do combustível nuclear e a preparação do navio, feitas antes em Newport News.
Na assinatura, a Marinha empenhou US$ 415.497.668 de recursos de operação e manutenção do ano fiscal de 2025, segundo a emissora WPMI, de Mobile. Na prática, quase todo o dinheiro do serviço ficou reservado logo no primeiro dia.
Por que o primeiro contrato caiu
Em 2025, a Marinha entregou o serviço à mesma NorthStar por US$ 536,7 milhões, com conclusão prevista para novembro de 2029, mostra a Baird Maritime. A HII ShipCycle, braço de reciclagem do grupo que é dono de Newport News, foi à Justiça contra a escolha.
A empresa alegou ter sido excluída de forma injusta, depois que problemas técnicos impediram a entrega da proposta final no prazo, relata a WPMI. Em fevereiro de 2026, a Corte Federal de Reclamações dos EUA deu razão à HII e mandou reabrir a concorrência, e a NorthStar recorreu ao Tribunal de Apelações do Circuito Federal.
Na nova disputa, a NorthStar venceu de novo. Em outubro, a HII desistiu de contestar o resultado, informa a Baird Maritime com base no USNI News.
O casco viaja sem combustível nuclear
O Enterprise tinha oito reatores, registra a Baird Maritime. O combustível foi todo retirado e a Marinha concluiu o descarregamento das usinas em 2017, diz o comunicado divulgado nesta segunda.
Em Mobile, o navio será desmontado por inteiro. Os resíduos radioativos de baixo nível e outros materiais perigosos serão embalados e levados a locais de descarte licenciados, informa a emissora WALA, a Fox10 de Mobile, e o restante será reciclado ou descartado.
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Parte do aço já tinha outro destino. Em 2022, a HII informou que mais de 35 mil libras, cerca de 16 toneladas, de aço do Enterprise foram reaproveitadas em módulos do futuro porta-aviões CVN-80 em Newport News.
Um modelo para os dez porta-aviões Nimitz
O escritório de desativação de porta-aviões da Marinha, o PMS 368, diz que o Enterprise vai servir de referência para os dez navios da classe Nimitz, cada um com dois reatores. “Pela primeira vez, estamos criando um modelo para a Marinha de como desmontá-los”, disse o capitão William B. Cleveland, escolhido para chefiar o escritório, segundo a Baird Maritime.
Os Nimitz ainda passam, no meio da vida útil, por uma reforma com reabastecimento dos reatores em Newport News. O desmonte só chega depois da baixa, e o Enterprise é o primeiro porta-aviões nuclear a percorrer o caminho inteiro.
Por que a Marinha preferiu uma empresa privada
A decisão de entregar o desmonte a uma empresa comercial saiu em setembro de 2023, lembra a Baird Maritime. Pela estimativa da Marinha, o serviço leva cerca de cinco anos e custa mais ou menos a metade das outras opções, que demorariam 15 anos ou mais. O argumento oficial é que assim os estaleiros públicos, que já têm pouca folga, ficam livres para a manutenção da frota em atividade.
Mais de 50 anos e 1 milhão de milhas
O navio foi batizado em 24 de setembro de 1960, em Newport News, e entrou em serviço em 1961. Navegou mais de 1 milhão de milhas náuticas com propulsão nuclear, da Guerra Fria ao Vietnã e às operações depois de 11 de setembro, como Enduring Freedom e Iraqi Freedom, mostra o comunicado da Marinha.
A última missão foi de 11 de março a 4 de novembro de 2012, e a desativação veio em dezembro daquele ano. Em 20 de junho de 2013, o navio voltou ao estaleiro onde nasceu para a retirada do combustível.
A baixa formal saiu em 3 de fevereiro de 2017, numa cerimônia no hangar, a primeira de um porta-aviões nuclear. “O Enterprise será sempre lembrado pelo orgulhoso legado de serviço”, afirmou Kevin Cormier, vice-executivo de aquisição da Marinha para porta-aviões, no comunicado desta segunda.
Como foi com o porta-aviões brasileiro
O último porta-aviões do Brasil teve outro fim. O porta-aviões São Paulo, antigo Foch francês e de propulsão convencional, foi afundado pela Marinha do Brasil em 3 de fevereiro de 2023, a cerca de 350 km da costa, numa operação que o governo chamou de afundamento planejado e controlado.
A data coincide com a baixa do Enterprise, seis anos antes, no mesmo 3 de fevereiro. O Brasil nunca operou navio de propulsão nuclear e ainda prepara o seu primeiro submarino nuclear, de modo que a Marinha brasileira ainda não tem reatores navais para desmontar.
Próxima parada: o estaleiro da MARS em Mobile
Quando o casco atracar em Mobile, o contrato terá pouco menos de quatro anos pela frente, até setembro de 2030. Nesse prazo, a NorthStar tem de cortar o navio inteiro e mandar os resíduos radioativos para locais licenciados.
O Enterprise deixou Newport News 66 anos depois de ter sido batizado no mesmo estaleiro. A Marinha ainda não disse quando ele chega ao Alabama.