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Por que desmontar o primeiro porta-aviões nuclear do mundo custa US$ 1,3 bilhão e vai até 2030: são oito reatores dentro de um casco de 95 mil toneladas que ninguém pode simplesmente cortar a maçarico

Por que desmontar o primeiro porta-aviões nuclear do mundo custa US$ 1,3 bilhão e vai até 2030: são oito reatores dentro de um casco de 95 mil toneladas que ninguém pode simplesmente cortar a maçarico
O porta-aviões nuclear USS *Enterprise* (CVN-65) navega pelo Oceano Atlântico em 14 de junho de 2004, durante sua participação no exercício Summer Pulse 2004, que mobilizou simultaneamente sete grupos de ataque de porta-aviões em cinco teatros de operações. **Foto:** Rob Gaston/U.S. Navy, via [Wikimedia Commons](https://commons.wikimedia.org/wiki/File%3AUSS_Enterprise_%28CVN-65%29_underway_in_the_Atlantic_Ocean_on_14_June_2004_%28040614-N-0119G-020%29.jpg) — domínio público.

Novo contrato prevê o desmonte integral do ex-USS Enterprise em um estaleiro de Mobile; embora o combustível nuclear já tenha sido retirado, estruturas contaminadas exigem controle radiológico, embalagem e destinação especial.

A desmontagem do USS Enterprise transformou a retirada de um único navio em um programa industrial que atravessará quase duas décadas. O primeiro porta-aviões nuclear do mundo deixou o serviço ativo em dezembro de 2012, mas a previsão atual indica que as últimas partes de seu casco somente serão processadas em setembro de 2030.

A conta mínima conhecida chega a aproximadamente US$ 1,28 bilhão — arredondada para US$ 1,3 bilhão. São US$ 863 milhões gastos na desativação e retirada do combustível nuclear, segundo o órgão de fiscalização do Congresso dos Estados Unidos, somados ao novo contrato de US$ 418,5 milhões para desmontar, reciclar e dar destino ao material restante.

O tamanho ajuda a explicar o desafio: são cerca de 95 mil toneladas de deslocamento e mais de 340 metros de comprimento. O que realmente impede uma desmontagem convencional, porém, está no interior do casco. O Enterprise foi construído com oito reatores nucleares, quatro vezes mais que os porta-aviões da classe Nimitz que vieram depois.

A conta de US$ 1,3 bilhão começou antes do primeiro corte no casco

Em 15 de julho de 2026, a Marinha dos Estados Unidos concedeu à NorthStar Maritime Dismantlement Services um contrato de preço fixo no valor exato de US$ 418.497.668. A empresa deverá rebocar o ex-USS Enterprise de Newport News, na Virgínia, para Mobile, no Alabama, onde ocorrerá a desmontagem integral.

O comunicado oficial do governo norte-americano determina que os materiais reaproveitáveis sejam reciclados e que resíduos perigosos, incluindo material radioativo de baixo nível, sejam embalados e enviados a instalações autorizadas. Dos US$ 418,5 milhões, aproximadamente US$ 415,5 milhões foram comprometidos no momento da contratação.

Esse valor cobre a etapa final. Antes dela, a Marinha precisou retirar o combustível dos oito reatores, desativar sistemas, remover equipamentos reaproveitáveis e colocar o navio em condição segura de armazenamento.

Um relatório do Government Accountability Office, o GAO, registrou que a inativação concluída em 2017 havia custado US$ 863 milhões. Somada ao contrato atual, essa parcela produz o total mínimo de US$ 1,281 bilhão usado na manchete.

Uma contabilização mais recente citada pelo USNI News menciona US$ 902 milhões na fase inicial e outros US$ 111 milhões em armazenamento. Dependendo de quais despesas são consideradas separadamente, o custo relacionado à retirada e destinação do Enterprise pode ultrapassar US$ 1,4 bilhão. A diferença mostra que a Marinha ainda não apresentou ao público uma conta única e consolidada de todo o ciclo.

Os oito reatores estão sem combustível, mas não se tornaram sucata comum

Dizer que existem oito reatores dentro do Enterprise não significa que o porta-aviões ainda carregue combustível nuclear. Esse material foi retirado durante o processo de inativação.

O problema está nas estruturas que permaneceram no casco. Vasos, tubulações, blindagens e partes dos compartimentos dos reatores foram expostos durante décadas à operação nuclear. Mesmo depois da retirada do combustível, determinados componentes continuam sujeitos a controle radiológico e não podem seguir diretamente para uma siderúrgica.

Veja no vídeo como o USS Enterprise foi construído e por que seus oito reatores transformaram a desmontagem do porta-aviões em uma operação inédita:

É essa diferença que separa o Enterprise de um porta-aviões convencional. Em uma reciclagem naval comum, trabalhadores podem retirar equipamentos, separar metais e cortar grandes seções do casco seguindo controles industriais. No ex-Enterprise, cada área próxima aos antigos sistemas nucleares precisa ser caracterizada, monitorada e separada conforme o nível e o tipo de contaminação.

A avaliação ambiental elaborada pela Marinha e pelo Departamento de Energia prevê que materiais radiológicos sejam cortados em segmentos, acondicionados em recipientes próprios e transportados para instalações licenciadas. O restante do aço poderá entrar na cadeia comercial de reciclagem apenas depois de liberado pelos controles aplicáveis.

Não existe brilho verde, reator funcionando ou combustível abandonado no casco. O risco real é menos cinematográfico e muito mais caro: contaminação residual, exposição ocupacional, rastreabilidade dos materiais e transporte de centenas de volumes sujeitos a regras nucleares.

Por que o casco não pode simplesmente ser cortado a maçarico

O maçarico continuará sendo uma das ferramentas utilizadas no estaleiro. O que não pode existir é um corte indiscriminado, como se todo o navio fosse apenas uma grande massa de aço.

Antes de abrir determinadas seções, as equipes precisam saber quais materiais estão presentes, qual controle radiológico será necessário e para onde cada fragmento será enviado. Áreas de trabalho devem ser isoladas, partículas precisam ser contidas e trabalhadores devem ter a exposição acompanhada.

A operação também envolve resíduos perigosos que não são nucleares, comuns em embarcações projetadas durante a década de 1950. Tintas, óleos, isolamentos e outros materiais regulados exigem rotas próprias de remoção e descarte.

Essa combinação explica por que o valor recuperado com a venda do aço não paga a operação. O metal reciclável tem valor comercial, mas o custo de acessar, separar, examinar, embalar e transportar o material controlado é muito maior.

O Enterprise representa uma escala inédita. A Marinha norte-americana possui décadas de experiência na reciclagem de submarinos e cruzadores nucleares, mas nunca desmontou comercialmente um porta-aviões nuclear inteiro.

O contrato precisou ser disputado duas vezes

A NorthStar havia sido escolhida inicialmente em maio de 2025, por US$ 536,7 milhões, com conclusão prevista para novembro de 2029. A concorrente HII ShipCycle contestou o processo após enfrentar problemas técnicos durante o envio de sua proposta pelo sistema eletrônico do governo.

Em 2026, a Corte de Reclamações Federais concluiu que a Marinha não havia considerado adequadamente o pedido de prorrogação apresentado pela empresa antes do encerramento do prazo. A decisão determinou a reabertura da competição.

A NorthStar venceu novamente, mas o novo contrato ficou aproximadamente US$ 118,2 milhões abaixo do primeiro. Em contrapartida, o prazo final passou de novembro de 2029 para setembro de 2030.

O episódio mostra que uma parte relevante do custo não está apenas no aço ou nos reatores. O projeto também depende de licenciamento, supervisão governamental, responsabilidade ambiental e capacidade financeira para executar uma operação inédita durante vários anos.

A alternativa comercial evitou ocupar um estaleiro nuclear público por mais de 15 anos

A Marinha estudou transportar partes do Enterprise até o Puget Sound Naval Shipyard, no estado de Washington, onde compartimentos de reatores de submarinos e outros navios nucleares são preparados para destinação final.

O método era conhecido, mas criava outro problema: ocuparia diques, engenheiros e trabalhadores especializados que já são necessários na manutenção da frota ativa. Algumas alternativas analisadas poderiam consumir 15 anos ou mais.

Em 2023, a Marinha escolheu formalmente o desmonte comercial. Segundo o registro publicado no Federal Register, a solução privada poderia terminar o trabalho em aproximadamente cinco anos, custar cerca da metade das alternativas públicas e manter os estaleiros navais concentrados na manutenção de submarinos e porta-aviões operacionais.

O Enterprise funcionará, portanto, como um projeto-piloto. Ele permitirá à Marinha testar contratos, fiscalização e rotas comerciais para resíduos antes que os dez porta-aviões da classe Nimitz cheguem ao mesmo ponto.

Esses navios possuem dois reatores, não oito. Ainda assim, cada aposentadoria abrirá um novo programa industrial bilionário. O USS Nimitz, primeiro exemplar da classe, deverá deixar o serviço ativo antes que o Enterprise desapareça completamente.

O próximo passo será preparar e executar o reboque do casco entre Newport News e Mobile. A data exata dessa movimentação ainda não foi divulgada. Se o cronograma contratual for cumprido, o primeiro porta-aviões nuclear do mundo terá levado aproximadamente 18 anos para percorrer o caminho entre sua última missão e a eliminação das últimas partes de seu casco.

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Felipe Alves da Silva

Felipe Alves da Silva

Sou Felipe Alves, com experiência na produção de conteúdo sobre segurança nacional, geopolítica, tecnologia e temas estratégicos que impactam diretamente o cenário contemporâneo. Ao longo da minha trajetória, busco oferecer análises claras, confiáveis e atualizadas, voltadas a especialistas, entusiastas e profissionais da área de segurança e geopolítica. Meu compromisso é contribuir para uma compreensão acessível e qualificada dos desafios e transformações no campo estratégico global. Sugestões de pauta, dúvidas ou contato institucional: fa06279@gmail.com